A Velhice do Padre Eterno - Abílio Manuel Guerra Junqueiro

A Velhice do Padre Eterno

Nota de editor: Devido à quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.
Rita Farinha (Nov. 2007)
Á MEMORIA DE Guilherme D'Azevedo
A Eza de Queiroz
Ó almas que viveis puras, immaculadas Na torre do luar da graça e da illusão, Vós que ainda conservaes, intactas, perfumadas, As rosas para nós ha tanto desfolhadas Na aridez sepulchral do nosso coração; Almas, filhas da luz das manhãs harmoniosas, Da luz que acorda o berço e que entreabre as rosas, Da luz, olhar de Deus, da luz, benção d'amor, Que faz rir um nectario ao pé de cada abelha, E faz cantar um ninho ao pé de cada flor; Almas, onde resplende, almas, onde se espelha A candura innocente e a bondade christã, Como n'um céo d'Abril o arco da alliança, Como n'um lago azul a estrella da manhã; Almas, urnas de fé, de caridade, e esp'rança, Vasos d'oiro contendo aberto um lirio santo, Um lirio immorredoiro, um lirio alabastrino, Que os anjos do Senhor vem orvalhar com pranto, E a piedade florir com seu clarão divino; Almas que atravessaes o lodo da existencia, Este lodo perverso, iniquo, envenenado, Levando sobre a fronte o esplendor da innocencia, Calcando sob os pés o dragão do peccado; Bemdictas sejaes, vós, almas que est'alma adora, Almas cheias de paz, humildade e alegria, Para quem a consciencia é o sol de toda a hora, Para quem a virtude é o pão de cada dia! Sois como a luz que doira as trevas d'um monturo, Ficando sempre branca a sorrir e a cantar; E tudo quanto em mim ha de bello ou de puro. —Desde a esmola que eu dou á prece que eu murmuro— É vosso: fostes vós o meu primeiro altar. Lá da minha distante e encantadora infancia, D'esse ninho d'amor e saudade sem fim, Chega-me ainda a vossa angelica fragrancia Como uma harpa éolia a cantar a distancia, Como um véo branco ao longe inda a acenar por mim! ........................................................................... ........................................................................... ........................................................................... Minha mãe, minha mãe! ai que saudade immensa, Do tempo em que ajoelhava, orando, ao pé de ti. Cahia mansa a noite; e andorinhas aos pares Cruzavam-se voando em torno dos seus lares, Suspensos do beiral da casa onde eu nasci. Era a hora em que já sobre o feno das eiras Dormia quieto e manso o impavido lebréu. Vinham-nos das montanhas as canções das ceifeiras, Como a alma d'um justo, ia em triumpho ao céo!... E, mãos postas, ao pé do altar do teu regaço, Vendo a lua subir, muda, alumiando o espaço, Eu balbuciava a minha infantil oração, Pedindo a Deus que está no azul do firmamento Que mandasse um allivio a cada soffrimento, Que mandasse uma estrella a cada escuridão. Por todos eu orava e por todos pedia. Pelos mortos no horror da terra negra e fria, Por todas as paixões e por todas as magoas... Pelos míseros que entre os uivos das procellas Vão em noite sem lua e n'um barco sem vellas Errantes atravez do turbilhão das aguas. O meu coração puro, immaculado e santo Ia ao throno de Deus pedir, como inda vae, Para toda a nudez um panno do seu manto, Para toda a miseria o orvalho do seu pranto E para todo o crime o seu perdão de Pae!... ............................................................. ............................................................. ............................................................. A minha mãe faltou-me era eu pequenino, Mas da sua piedade o fulgor diamantino Ficou sempre abençoando a minha vida inteira Como junto d'um leão um sorriso divino, Como sobre uma forca um ramo d'oliveira!

Abílio Manuel Guerra Junqueiro
О книге

Язык

Португальский

Год издания

2007-11-17

Темы

Portuguese poetry

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