Contos para a infância / Escolhidos dos melhores auctores por Guerra Junqueiro
--Cric, crac! cric, crac! crac! --Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
Cric, crac! cric, crac! crac! Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
Cric, crac! cric, crac! crac! Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
Produced by / Produzido por Manuela Alves (Spelling modernization of the original version, already available at Project Gutenberg. / Actualização ortográfica da versão original, já disponível no Project Gutenberg.) NOTA: Este texto tem duas versões em língua portuguesa de acordo com o livro original, a que pode ser aceder clicando numa das seguintes opções:
Estava uma mãe muito aflita, sentada ao pé do berço do seu filho, com medo que lhe morresse. A criancinha pálida tinha os olhos fechados. Respirava com dificuldade, e às vezes tão profundamente, que parecia gemer; mas a mãe causava ainda mais lástima do que o pequenino moribundo. Nisto bateram à porta, e entrou um pobre homem muito velho, embuçado numa manta de arrieiro. Era no Inverno. Lá fora estava tudo coberto de neve e de gelo, e o vento cortava como uma navalha. O pobre homem tremia de frio; a criança adormecera por alguns instantes, e a mãe levantou-se a pôr ao lume uma caneca com cerveja. O velho começou a embalar a criança, e a mãe, pegando numa cadeira, sentou-se ao lado dele. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada vez com mais dificuldade, pegou-lhe na mãozinha descarnada e disse para o velho: Oh! Nosso Senhor não mo há-de levar! não é verdade?— E o velho, que era a Morte, meneou a cabeça duma maneira estranha, em ar de dúvida. A mãe deixou pender a fronte para o chão, e as lágrimas corriam-lhe em fio pela cara. Sentiu-se estonteada com um grande peso de cabeça; estava sem dormir havia três dias e três noites. Passou ligeiramente pelo sono, durante um minuto, e despertou sobressaltada a tremer de frio. —Que é isto! exclamou, lançando à volta de si o olhar alucinado. O berço estava vazio. O velho tinha-se ido embora, roubando-lhe a criança. A pobre mãe saiu precipitadamente, gritando pelo filho. Encontrou uma mulher sentada no meio da neve, vestida de luto. «A Morte entrou-te em casa, disse-lhe ela. Via sair a correr levando teu filho. Anda mais depressa que o vento, e o que ela furta nunca o torna a entregar.» —Por onde foi ela? gritou a mãe. Diz-mo pelo amor de Deus!» —Sei o caminho por onde ela foi, respondeu a mulher vestida de preto. Mas só to ensino, se me cantares primeiro todas as canções que cantavas ao teu filho. São lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou a Noite e muitas vezes tas ouvi cantar, debulhada em lágrimas. —Cantar-tas-ei todas, todas, mas logo, disse a mãe. Agora não me demores, porque quero encontrar o meu filho.— A Noite ficou silenciosa. A mãe então, desfeita em lágrimas, começou a cantar. Cantou muitas canções, mas as lágrimas foram mais do que as palavras. No fim disse-lhe a Noite: «Toma à direita, pela floresta escura de pinheiros. Foi por aí que a Morte fugiu com o teu filho.» A mãe correu para a floresta; mas no meio dividia-se o caminho, e não sabia que direcção havia de seguir. Diante dela havia um matagal, cheio de silvas, sem folhas nem flores, de cujos ramos pendia a neve cristalizada.