As Netas do Padre Eterno / Romance original
N.º 32—COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA
COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA
AS NETAS DO PADRE ETERNO
ROMANCE ORIGINAL
POR Alberto Pimentel
LISBOA LIVRARIA DE ANTONIO MARIA PEREIRA—EDITOR 50, 52—Rua Augusta—52, 54 1895
LISBOA—Typ. e Stereotypia Moderna—Apostolos, 11, 1.º
Desde a primavera até ao inverno de 1873, decorre, na historia da moderna Hespanha, um periodo de rubra agitação demagogica, em que tanto a abandonada coroa da velha Monarchia de S. Fernando como o recente barrete phrygio da Republica fluctuam n’um mar de sangue, golphado do proprio coração d’esse bello paiz meridional, e sinistramente illuminado pelos reflexos coruscantes dos incendios de Alcoy, que eram o facho tristemente glorioso da insurreição cantonal.
Nação essencialmente catholica, a Hespanha viu profanados os seus templos, principalmente em Barcelona, onde as mulheres, n’uma infrene orgia de bacchantes, envergavam as vestes sacerdotaes, entoando cantares obscenos, e derramando por sobre os altares o vinho que trasbordava das taças.
Nas ruas, as allucinações da musa popular, terrivelmente revolucionaria, alternavam-se com as detonações dos fuzilamentos, e aos dithyrambos entoados á beira dos altares correspondiam, fóra dos templos, trovas sacrilegas, dissolventes, anarchicas:
Yá se le acabó á los curas