O Cortiço - Aluísio Azevedo

O Cortiço

«Periculum dicendi non recuso.»
(CICERO.)
«La vérité, toute la vérité, rien que la vérité.»
( Droit criminel. )
«Os meus honrados collegas do jornalismo, e todos esses grandes publicistas que fatigam o céo e a terra para provar que esta em que estamos é a verdadeira epoca de transição, esses nos dirão se a Providencia andaria bem ou mal se hoje suscitasse um novo Timon da verdadeira raça das furias, que com as pontas viperinas do azorrague vingador lacerasse sem piedade os crimes e os vicios que a deshonram.»
(JOÃO FRANCISCO LISBOA, Jornal de Timon . Prospecto—Obras completas, 1° vol., pag. 12.)
«Ung oyseau qui se nomme cigale estoit en un figuier, et François tendit sa main et appella celluy oyseau, et tantost il obeyt et vint sur sa main. Et il lui deist: Chante, ma seur, et loue nostre Seigneur. Et adoncques chanta incontinent, et ne sen alla devant quelle eust congé.»
(JACQUES DE VORAGINE, La Légende Dorée . Traduction française.)
João Romão foi, dos treze aos vinte e cinco annos, empregado de um vendeiro que enriqueceu entre as quatro paredes de uma suja e obscura taverna nos refolhos do bairro de Botafogo; e tanto economisou do pouco que ganhára n'essa duzia de annos, que, ao retirar-se o patrão para a terra, lhe deixou, em pagamento de ordenados vencidos, nem só a venda com o que estava dentro, como ainda um conto e quinhentos em dinheiro.
Proprietario e estabelecido por sua conta, o rapaz atirou-se á labutação ainda com mais ardor, possuindo-se de tal delirio de enriquecer, que affrontava resignado as mais duras privações. Dormia sobre o balcão da propria venda, em cima de uma esteira, fazendo travesseiro de um sacco de estopa cheio de palha. A comida arranjava-lh'a, mediante quatrocentos réis por dia, uma quitandeira sua vizinha, a Bertoleza, crioula trintona, escrava de um velho cego residente em Juiz de Fóra e amigada com um portuguez que tinha uma carroça de mão e fazia fretes na cidade.
Bertoleza tambem trabalhava forte; a sua quitanda era a mais bem afreguezada do bairro. De manhã vendia angú, e á noite peixe frito e iscas de figado; pagava de jornal a seu dono vinte mil réis por mez, e, apezar d'isso, tinha de parte quasi que o necessario para a alforria. Um dia, porém, o seu homem, depois de correr meia legua, puxando uma carga superior ás suas forças, cahio morto na rua, ao lado da carroça, estrompado como uma besta.

Aluísio Azevedo
О книге

Язык

Португальский

Год издания

2022-10-20

Темы

Historical fiction; Man-woman relationships -- Fiction; Slums -- Fiction; Landlords -- Fiction; Brazil -- Social life and customs -- 19th century -- Fiction; Immigrants -- Brazil -- Fiction

Reload 🗙