O Renegado a António Rodrigues Sampaio / carta ao Velho Pamphletario sobre a perseguição da imprensa

Nota de editor: Devido à existência de erros tipográficos neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.
Rita Farinha (Mar. 2009)
Eu bispo d'outra diocese...
Guilherme Braga
Já que El-Rei, teu Senhor—contra a sua Mãe cara, assim te premiou a ensanguentada offensa, eu, um Juiz tambem—Juiz d'uma outra vara, contra ti, velho Reu, lavrei esta sentença:
Velho, escuta, esta voz.—Eu não sei perdoar: frio como um Destino eu heide-te açoutar até te ver em sangue os lombos aviltados! No estrume arrastarei teus louros profanados, que jazerão no esterco infame das viellas, onde vagam á lua os ébrios e as cadellas. Marcarei para exemplo, ao mundo o renegado que depois de haver rido, haver calumniado uma Esposa, uma Mãe, um Lar, uma rainha, —no que ella de mais puro e mais sagrado tinha!— n'isso que doe cruel, que mais o peito enluta, depois de lhe chamar a grande prostituta nada achou mais abjecto, e nada achou mais baixo que ser do filho-rei o humillimo capaxo, nada achou mais servil, para apagar a offensa, do que vender a penna e perseguir a Imprensa! Lodo do Homem vil, ó barro da Paixão, ó abysmo d'uma alma, ó rei da Creação, foi Satan que te pôz o diadema escuro! Pode-se assim sem dó zombar do seu Futuro, macular para sempre a virginal gloria, cuspir, manchar, polluir as paginas da Historia, e envergonhar a campa humilde dos plebeus que foram os seus paes—e a pobre mãe nos ceus, matar os louros seus—aviltação eterna! como um ebrio que morre em chão d'uma taberna? És tu que fazes isto, ó Alma, ó Alma etherea? Acaso és tão medonha ó funebre Miseria, acaso és tão infame, ó magra Messalina, que obrigas uma alma, essa porção divina, essa faisca eterna, eterna claridade, a assassinar sem dó a branca virgindade do seu passado santo e virgem coração, e arremessal-o ao mar no fundo d'um caixão? Acaso ó ouro és tu—tu que nos fazes nobre? É tão terrível ser—puro, plebeu, e pobre,— é tão torpe, é tão vil, ser simples mas honrado, que quer o ouro infernal, que quer o ferreo fado, que em certo dia vil—dia vil entre os dias,— se atire uma risada ás santas utopias ás crenças virginaes da loura Mocidade á aureola ideal d'aquella santa edade, e vendam-se os laureis e o Verbo que era o raio, pela libré d'um servo e a farda de um lacaio? Não! Não tem remissão este teu crime, ó Velho! Já que tu foste exemplo, e outrora foste espelho, o teu crime é mais vil, funesto, escandaloso! Se tu ficas impune, um dia ou outro, um gozo, faminto como tu, irá lamber o manto do Symbolo Real, todo orvalhado em pranto, e de rastos, no chão, beijar o pó do throno. Por isso vou marcar-te infame cão sem dono, e fundir-te com chumbo ao corpo essa colleira. Vaes ouvir a Justiça—a augusta, a verdadeira, a terrivel, a eterna, a antiga, a sempre forte, a que ouve e que vê n'Alma, a que condemna á morte, com seu dedo de luz no livro do Futuro, a que arroja á gehenna eterna do monturo, e que com ferro em braza escreve os tristes fins dos juizes Caiphás, dos pifios Severins, e d'outros a quem heide em breve tomar contas! Vaes ouvir a que pune as lividas affrontas, a que gela no labio as phrases começadas, que ha de julgar Thiers de cãs ensanguentadas, pelas suas crueis, fataes carnificinas, a que condemna os reis e as tropas assassinas, a que forma e dirige a Alma Universal. Entra ó sinistro reu! Abriu-se o tribunal.

António Duarte Gomes Leal
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Язык

Португальский

Год издания

2009-03-18

Темы

Poetry

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