Comedia do Campo volume III (Scenas do Minho)
TEIXEIRA DE QUEIROZ
(BENTO MORENO)
COMEDIA DO CAMPO
(SCENAS DO MINHO)
La plupart des drames sont dans les idées que nous nous formons des choses. Les événements qui nous paraissent dramatiques ne sont que les sujets que notre âme convertit en tragédie ou en comédie, au gré de notre caractère.
H. DE BALZAC.— Modeste Mignon.
VOLUME III
Antonio Fogueira.—Morte negra.—Enterro de um cão.—O embarcadiço.—O rei absoluto.
LISBOA DAVID CORAZZI—EDITOR EMPREZA HORAS ROMANTICAS Premiada com medalha de ouro na exposição do Rio de Janeiro 40—Rua da Atalaya—52 1882
N’uma excellente manhã de um maio risonho e feliz, duas creanças, que já eram orphãs de mãe, perderam igualmente seu pae! Além da orphandade, teriam tambem a negra fome e a sombria miseria indigente, se não fôra o bom cura, o padre Clemente Carvalhosa, que as foi buscar a casa, levando uma de cada lado, pela mão, para a residencia ! O Thomé Barbante, um tio d’essas creanças, tambem compadecido, ou, talvez, humilhado pelo caridoso procedimento do ecclesiastico, foi-lhe pedir que lhe désse uma para sua casa. O Carvalhosa cedeu-lhe a Quina, ficando com o Tone, que elle, n’um momento egoista, pensou vagamente em ir mettendo pela igreja, para de futuro ter quem lhe ajudasse á missa. Porém o Bernardo Repolho, lavrador remediado, que morava n’outra aldeia, a distancia de leguas, não lhe consentiu realisar esta ambição: sabendo da orphandade dos filhos de seu irmão André, que tanto eram seus sobrinhos como do Barbante, condoeu-se e, consultando a sua auctoritaria Engracia, resolveram adoptarem Tone, visto Deus não os ter favorecido com um rapaz , que tanto haviam desejado!... Para a mulher de Bernardo, era uma consolação forçada!... Por espaço de annos presenteára generosamente todos os santos acreditados nas visinhanças, chegando a ir em romaria beber das diversas aguas milagrosas, tão apregoadas e tão efficazes, que nascem debaixo dos penedos, onde esses bemaventurados tinham apparecido!... Frequentára, tambem, com assiduidade, os banhos de mar, indo durante muitos annos, a Vianna, pelo tempo da Agonia, sempre dominada por um tamanho desespero de maternidade, que de uma vez chegou a tomar trinta banhos nos tres dias da festa!... Porém, as esperanças de ter um filho íam desapparecendo, a esterilidade de Engracia affirmava-se de cada vez mais com a idade! Viveu muito tempo n’uma constante aspiração, impaciente e nervosa, chegando aos quarenta e cinco annos—ao momento dos desenganos! —sem descendencia... A sua intransigencia, o seu mau humor, contra os filhos dos outros, ía caíndo n’uma melancolia latente, quasi n’um ediotismo, quando seu marido lhe propoz o trazerem para casa o orphão de seu irmão André, que acabava de morrer pobre... Engracia abraçou, inesperadamente, com alegria, esta idéa e adoptou com benevolencia a creança desamparada! Pediu instantemente a seu marido, que fosse, mesmo n’aquelle dia, buscar o pequeno... Para a satisfazer, o Repolho não teve remedio senão pedir ao padre Beiral, a bôa egua lanzuda. O ecclesiastico cedeu-lh’a facilmente, perguntando com a sua curiosidade de homem idoso: