Sustos da Vida nos Perigos da Cura
SUSTOS
DA VIDA
NOS PERIGOS DA CURA,
CARTA,
Que hum amigo escreveo a outro, estando convalescendo, depois de huma enfermidade.
LISBOA:
Na Offic. de ANTONIO VICENTE DA SILVA.
Anno de MDCCLVIII.
Com todas as licenças necessarias.
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Meu Amigo, e Senhor. Graças a Deos, que depois de huma enfermidade dilatada me acho restituido a estado de poder escrever a V. m. e naõ foi pequeno milagre escapar da cura, em que tive mayor perigo, do que aquelle, que me causava a molestia; pois por muito pouco que a natureza se descuidasse em me soccorrer, sem duvida entre a má applicaçaõ dos remedios perderia irremediavelmente a vida. Agora que me acho livre do susto nesta convalescença, ja que naõ posso fazer outra cousa, quero-me divertir ao menos em dizer a V. m. o de que escapei pelos enganos da Medicina, e pela ignorancia de alguns de seus professores, que ordinariamente se reputa por hum grande bem, e excellente soccorro para a conservaçaõ da vida; mas eu entendo que neste caso podemos exclamar com Seneca: Oh fallax bonum, quantum malorum fronte, quàm blanda tegis. E eu naõ sei se conseguiriamos huma melhor utilidade sem o suffragio deste chamado bem, do que com a introducçaõ deste honesto, e louvavel engano.
Todos sabemos a correspondencia, que o homem, mundo abbreviado, tem com a grande extensaõ do mundo, porque assim como este subsiste pela uniaõ dos quatro elementos, assim tambem o corpo se conserva pela mistura dos seus quatro humores; e pervertido o bom equilibrio de algum delles, se conhece logo aquella ruina, que fica debaixo da sua jurisdicçaõ. Como naõ podemos conhecer estas causas occultas, recorremos ao soccorro dos Medicos, relatando-lhes os effeitos, que sentimos, para que elles, segundo os preceitos da sua arte, cheguem ao verdadeiro conhecimento das causas, e applicando-nos o remedio, restituaõ a natureza ao seu verdadeiro tom. Este he o fim da Medicina, e o para que{4} buscamos os seus professores. Mas hoc opus, hic labor est .