A escrava Isaura
ROMANCE
POR
BERNARDO GUIMARÃES
RIO DE JANEIRO B. L. GARNIER Livreiro-Editor do Instituto 65—Rua do Ouvidor—65 Antigo 69. Paris.—E. BELHATTE, Livreiro, 14 rua de l’Abbaye 1875
Ficam reservados os direitos de propriedade.
Era nos primeiros annos do reinado do S r D. Pedro 2º.
No fertil e opulento municipio de Campos de Goitacases, á margem do Parahyba, a pouca distancia da villa de Campos, havia uma linda e magnifica fazenda.
Era um edificio de harmoniosas proporções, vasto e luxuoso, situado em aprazivel vargedo ao sopé de elevadas collinas cobertas de mata em parte devastada pelo machado do lavrador. Longe em derredor a natureza ostentava-se ainda em toda a sua primitiva e selvatica rudeza; mas por perto, em torno da deliciosa vivenda, a mão do homem tinha convertido a bronca selva, que cobria o solo, em jardins e pomares deleitosos, em viçosos gramáes e pingues pastagens, sombreados aqui e acolá por gameleiras gigantescas, peróbas, cedros e copahybas, que attestavão o vigor da antiga floresta. Quasi não se via ahi muro, cerca, nem vallado; jardim, horta, pomar, pastagens, e plantios circumvisinhos erão divididos por viçosas e verdejantes sebes de bambús, piteiras, espinheiros e gravatás, que davão ao todo o aspecto do mais aprazivel e delicioso vergél.
A casa apresentava a frente ás collinas. Entrava-se nella por um lindo alpendre todo enredado de flores trepadeiras, ao qual subia-se por uma escada de cantaria de seis a sete degráos. Os fundos erão occupados por outros edificios accessorios, senzalas, pateos, curraes e celeiros, por trás dos quaes se estendia o jardim, a horta, e um immenso pomar, que ia perder-se na barranca do grande rio.
Era por uma linda e calmosa tarde de outubro. O sol não era ainda posto, e parecia boiar no horizonte suspenso sobre rolos de espuma de cores cambiantes orlados de fevras de ouro. A viração saturada de balsamicos effluvios se espreguiçava ao longo das ribanceiras accordando apenas frouxos rumores pela copa dos arvoredos, e fazendo farfalhar de leve o tope dos coqueiros, que miravão-se garbosos nas lucidas e tranquillas agoas da ribeira.
Bernardo Guimarães
A ESCRAVA ISAURA
INDICE
CAPITULO I.
Capitulo II.
Capitulo III.
Capitulo IV.
Capitulo V.
Capitulo VI.
Capitulo VII.
Capitulo VIII.
Capitulo IX.
Capitulo X.
Capitulo XI.
Capitulo XII.
Capitulo XIII.
Capitulo XIV.
Capitulo XV.
Capitulo XVI.
Capitulo XVII.
Capitulo XVIII.
Capitulo XIX.
Capitulo XX.
Capitulo XXI.
Capitulo XXII.