Ao de Leve
AO DE LEVE
Composto e impresso na Imprensa de Manuel Lucas Torres Rua do Diario de Noticias, 93
BRITO CAMACHO
Ao de leve
1913 Livraria Editora GUIMARÃES & C. a 68, Rua do Mundo, 70 LISBOA
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O estudante que hontem, no Rocio, foi attingido por uma bala na cabeça, já falleceu. (Dos jornaes).
Como não havia de adoral-o, se era seu filho unico!
Para mais, elle era o retrato vivo do pae, com todas as qualidades e todos os defeitos—se um filho póde ter defeitos para a mãe que o estremece!
Ficára com elle nos braços, viuva pela maior das fatalidades, quando ainda não tinham seccado de todo as flores de laranjeira que lhe tinham posto no cabello no dia do seu casamento, e nas suas faces havia ainda um pouco do rubor intenso com que as haviam tingido os beijos loucos que elle lhe dera, já seu marido, ao voltarem da Egreja.
Annos e annos chorára a sua viuvez, e mesmo quando o filho lhe extendia os bracitos gordos, muito risonho, as suas lagrimas não estancavam.{6} Mas o sau pranto já não era só de dor; a desgraça ainda lhe escaldava a garganta com soluços que lhe vinham do coração, mas já lhe nimbava a alma a promessa d'uma felicidade remota. No filho via o marido—era como se dentro de um tumulo assistisse ao esplendor d'uma aurora.
Se não havia de adoral-o, a pobre mãe!