Na Guella do Leão
NA GUELLA DO LEÃO
CONDE DE SABUGOSA
NA GUELLA DO LEÃO
LISBOA TYPOGRAPHIA E STEREOTYPIA MODERNA 11, Apostolos, 11 MDCCCLXXXVII
Tiragem especial de 45 exemplares em papel Japão
Aquella prophecia fôra para a familia dos Silvas, na qual a neta de Roque Monteiro casára, como um threno biblico crédor de toda a fé. E perpetuára-se na tradicção.
Ora n'aquella manhã o leão rompente em campo de prata do escudo esquartellado, fecho do arco em madeira entalhada da capella-mór d'um antigo palacio do bairro de S. Vicente, perdera a lingua negra que o irreverente caruncho amputára. Foi a velha Brigida quem tal descobriu.
Quando fazia as suas orações, depois de ter baixado sobre o lagedo os olhos humilhados perante a divindade, ia levantal-os ao ceu na invocação da Ave Maria; a sua vista porém parou aterrada na contemplação do escudo truncado, e a Ave Maria gelou-se-lhe nos labios. Realisára-se a prophecia do Roque. Ou o sr. D. Carlos o unico representante d'aquella casa ia morrer, ou se preparava a ultima derrocada tão annunciada pelas successivas catastrophes dos ultimos annos.
Este passeava fumando um charuto, de paletot abotoado, e ainda com a gravata branca que atára na vespera. Quando a velha aia que o creára abriu a porta, voltou a cabeça interrogativamente, quebrando o fio da ideia que o preoccupava.
—Quer alguma coisa, Brigida!
Esperando vêl-o na cama, morto talvez, em cumprimento da prophecia, estacou indecisa entre a satisfação de encontrar vivo, e a curiosidade do motivo que áquella hora, 10 da manhã, o tinha ainda levantado. Carlos repetiu a pergunta, e quando ella lhe explicou a causa da sua afflicção, interrompeu-a com um sorriso affectuoso.
—Não se enganou talvez a prophecia, tia Brigida. Não morro eu, mas vende-se esta casa, hoje, em praça. O Roque teve razão mais uma vez.