Camões e o amor / no aniversario 304 da morte do poeta

VENDE-SE NA LIVRARIA DE JOÃO E. DA CRUZ COUTINHO--EDITOR 12, Rua do Almada, 16--Porto 1884
Heide gastar os olhos só a olhar-te, A alma heide queimar no fogo ardente Que vem dos olhos teus, continuamente, E assim succumbirei a abençoar-te. Só tenho coração para adorar-te, Labios para diser-te quanto sente Quem feliz se julgara, eternamente, Ficando, eternamente, a idolatrar-te. No peito meu não cabe o sentimento, Trasborda como as agoas, alteradas Pelas raivosas convulsões do vento. Amado ou não,--as trovas magoadas Do amor e coração e vida e alento Eu aos teus pés deponho,--eil-as rojadas!
Ajoelhara a negra suspirando Postas as mãos, os labios contrahidos, Diziam as canções dos seus gemidos Mais do que os prantos com que estava olhando. Camões fitava o espaço, meditando, Bem longe o coração, longe os sentidos; E de seus olhos, para a dôr nascidos, As perolas caíam, deslisando. Um queixume da negra, compungente, Acordara o poeta, que sonhava Com a patria querida e o amor ausente. Ella co'os olhos n'elle comtemplava, Elle co'os olhos n'ella era indifferente, Que todo aquelle mal outra o causava.
Cinzenta a côr do ceu, a noite baça, O vento chora nas enxarcias, rude Como grito plangente d'alaude, Vibrado pelos dedos da desgraça. Além nenhuma estrella então perpassa, É o horisonte um lugubre athaude, Fervem as ondas altas como açude Que as torrentes ás agoas embaraça. Vem da China o baixel desarvorado, Sulcou o mar com soffrega vontade, Até que o mar o fez despedaçado. Sorrindo heroicamente á tempestade, Paga o zelo maior do seu cuidado Camões, salvando á patria a eternidade.
Não desço agora á fria sepultura, Não roubo á morte os pavidos segredos, Não quero desfolhar com estes dedos Do gelo a flôr de extranha formosura. Não vou cingir na tua fronte pura, Cheio de horror,--o labio e os olhos quedos,-- Por entre a noite e os tristes arvoredos, D'uma fatal grinalda a eterna alvura. Deixa que viva assim em treva absorto, Cadaver, caminhando, tristemente, Em demanda do meu perdido horto. Já que ventura amor me não consente, Que não recorde mais meu peito morto Erros meus; má fortuna, amor ardente.

Ernesto Pires
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О книге

Язык

Португальский

Год издания

2007-09-26

Темы

Camões, Luís de, 1524?-1580 -- Poetry

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