Livro de Máguas - Florbela Espanca

Livro de Máguas

Procuremos sòmente a Beleza, que a vida É um punhado infantil de areia resequida, Um som dágua ou de bronze e uma sombra que passa...
Eugénio de Castro.
Isolés dans l'amour ainsi qu'en un bois noir, Nos deux coeurs, exalant leur tendresse paisible, Seront deux rossignols qui chantent dans le soir.
Verlaine.
Êste livro é de máguas. Desgraçados Que no mundo passais, chorae ao lê-lo! Sòmente a vossa dor de Torturados Pode, talvez, senti-lo... e compreendê-lo... Este livro é p'ra vós, Abençoados Os que o sentirem, sem sêr bom nem belo! Bíblia de tristes... Ó Desventurados, Que a vossa imensa dôr se acalme ao vê-lo! Livro de Máguas... Dôres... Ansiedades! Livro de Sombras... Névoas... e Saudades! Vai pelo mundo... (Trouxe-o no meu seio...) Irmãos na Dôr, os olhos razos de agua, Chorae comigo a minha imensa mágua, Lendo o meu livro só de máguas cheio!...
Sonho que sou a Poetisa eleita, Aquela que diz tudo e tudo sabe, Que tem a inspiração pura e perfeita, Que reúne num verso a imensidade! Sonho que um verso meu tem claridade Para encher todo o mundo! E que deleita Mesmo aqueles que morrem de saudade! Mesmo os de alma profunda e insatisfeita! Sonho que sou Alguem cá neste mundo... Aquela de saber vasto e profundo, Aos pés de quem a terra anda curvada! E quando mais no ceu eu vou sonhando, E quando mais no alto ando voando, Acordo do meu sonho...
E não sou nada!...
Eu sou a que no mundo anda perdida, Eu sou a que na vida não tem norte, Sou a irmã do Sonho, e desta sorte Sou a crucificada... a dolorida... Sombra de névoa ténue e esvaecida, E que o destino amargo, triste e forte, Impele brutalmente para a morte! Alma de luto sempre incompreendida!... Sou aquela que passa e ninguem vê... Sou a que chamam triste sem o sêr... Sou a que chora sem saber porquê... Sou talvez a visão que Alguem sonhou, Alguem que veio ao mundo p'ra me vêr, E que nunca na vida me encontrou!
Altiva e couraçada de desdem, Vivo sòsinha em meu castelo: a Dôr! Passa por êle a luz de todo o amôr.... E nunca em meu castelo entrou alguem! Castelã da Tristêsa, vês?... A quem?!... —E o meu olhar é interrogadôr— Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr... Chora o silêncio... nada... ninguem vem... Castelã da Tristêsa, porque choras Lendo, toda de branco, um livro de oras, Á sombra rendilhada dos vitrais?... Á noite, debruçada p'las ameias, Porque rezas baixinho?... Porque anseias?... Que sonho afagam tuas mãos reais?...

Florbela Espanca
Страница

О книге

Язык

Португальский

Год издания

2006-01-25

Темы

Poetry

Reload 🗙