Musa Velha
MUSA VELHA
Porto: 1883—Typ. de A. J. da Silva Teixeira 62, Rua da Cancella Velha, 62
FRANCISCO PALHA
MUSA VELHA
PORTO ERNESTO CHARDRON, EDITOR 1883
Virgem dos olhos negros, se em tua alma memoria inda conservas d'outro tempo, só tu entenderás porque este livro ousa ás trevas fugir, e o sol encara; mas como quem escreve e quem publica não perde tempo, nem dinheiro gasta para teus ocios entreter sómente, deixa-me vêr se á força de assignantes, de venda avulsa, exemplares de mofo, ha mais no mundo quem me entenda e leia.
Deu na tonta de entrar na minha escada á Dona Morte um dia. A pobre anda estafada do continuo ceifar desde que ao nada por divinaes processos da alchimia a terra foi roubada. Da comprida queixola desdentada esta sentida nenia lhe saía: —Senhor! forte estopada! Sem poisar a caveira o mundo corro. Em toda a parte estou. A toda a hora prostro alguem a meus pés, e geme, e chora por minha culpa alguem! Nenhuma aurora, de luz nenhuma o jorro, as orbitas vazias me alumia!... Nunca uma esp'rança! nunca uma alegria! Á dôr alheia pondo um suave termo só a minha o não tem!... Só eu não morro emquanto o mundo não tornar um ermo!... Á obra! Á obra!— E lepida subindo tocou a campainha: um lugubre tocar que dava medo; que não mais deixarei de estar ouvindo, e fez com que eu então, muito em segredo, rezasse a ladainha. Era um simples aviso, pois que a porta por si se escancarou e deu entrada áquella feia ossada de vermes revestida, e negra, e torta, de mim ha longo tempo enamorada. —Senhora Morte, viva!— disse ao vêl-a, fingindo animo forte; mas cá por dentro, como a sensitiva n'haste as folhas retráe que lh'as não córte quem d'ella se aproxima e levemente a mão lhe põe por cima, cá por dentro a minh'alma, em pasmo estranho por vêr-se em tão cruel extremidade, foi-se encolhendo até ser do tamanho d'um reles feijão frade! —Desculpe a impertinencia— continuei.—Como é que usam tratal-a? Por tu? Por Excellencia como é hoje tratada toda a gente?— «A mim é-me indifferente. Não faz ninguem de tal miseria gala no reino onde eu impero.» Esta resposta me deu a Dona Morte, e junto ao leito, onde eu espreguiçava a mandrieira, chegou; puxou cadeira; sentou-se gravemente, sobreposta uma rótula n'outra. Com effeito mau é vêl-a!... peior á cabeceira! E poz-me a fria mão aqui no peito. «Que bons pulmões tens tu! e como pulsa na tua idade o coração ainda pelas paixões mundanas agitado!» —Então...—volvi com voz menos convulsa— inda tenho a viver um bom bocado?!— «Conforme. Tudo finda quando me apraz e breve.» —Se ao teu lado para afastar-te eu não chamar a Siencia.— «Dou-te um dôce que a chames! Cáe tu n'essa! descobriste a maneira, tem paciencia, de eu carregar comtigo mais depressa.» —Banal! Banal! Cuidei que era outra coisa— rosnei com meus botões.—Um vende bolas, um palurdio qualquer vindo de Loiza, da Lourinhã, do inferno, esta sandice ancho diria qual a Morte a disse. Ella no entanto, um pé bamboleando, co'as phalanges dos dedos descarnados batendo sobre a tibia, ia soltando uns sons de castanholas com que sóe convocar gatos pingados ás grandes, funerarias cabriolas. Após pequena pausa de subito se ergueu. «Não ha remedio! Deixar-te vou por causa d'uns ganchitos que tenho aqui no predio. O cónego não dorme ha tres semanas. Rouba-lhe o ar a suffocante angina que o peito dilacera. Tem esgotado as provações humanas. Na longa vida santamente austera fez jus, coitado! á compaixão divina. Melhor que o da morphina, premio á virtude, um somno lhe preparo brando, quieto, sereno como um lago. Apanha o padre agora! e apanha, é claro, quem lhe abichar na Sé o logar vago. O conego aviado, tenho uns planos de ir tocar no ferrolho ao conselheiro. Quero abater-lhe a prôa!... Setenta annos e sóbe inda lampeiro outros tantos degraus!... Então córado! redondo!... Uma cereja!... E como se espenneja quando vae pela rua engravatado, para as moças olhando ás furtadellas como quem diz: Assim quisessem ellas! Chucha um pisco ao jantar; um pisco á ceia. Por não dormir de tarde nem trazer nunca a barriguinha cheia considera-se livre do meu jugo e d'isso faz alarde! Pois tu vaes vêr, fradinho de sabugo!» Travou da arqueada foice; disse-me:—«Adeus! Eu volto. Eu volto. Espera»: virou a espinha, e foi-se. Sim, que te espero! Aqui te aguardo, ó fera! Mal passado um minuto, instantes, penso, portas a abrir-se, gente que subia resmoneando latim, e cheiro a incenso. o opoponax da velha liturgia. Desci. Curvei-me. Bemaventurado aquelle que tem fé! Como um soldado, firme em seu posto o conego morria. Volto a casa. Corri logo á janella. Nos amplos ceus azues esmorecia a luz d'um sol d'abril. Do floreo seio perfumes exhalava a Primavera fallando-me por modo que a entendia. Quanto distava, quão diversa que era da outra scena aquella! Então clamei: Em ti, meu Deus, eu creio! Um mez depois alguem contar-me veio: —Lá puxou o visinho aqui do lado! Hontem, depois do chá e o rol escripto, saíu da mesa, deu-lhe uma tontura, rodopiou, caíu na sepultura co'a paz na consciencia e o palito no canto inda da bocca!— No outro dia foi-se o bom conselheiro, encaixotado, direito ao cemiterio. Na turba que o seguia havia quem dissesse: Um homem sério! E tudo era acabado. Chega-me agora a vez. Prompto! Presente! Prompto sou a marchar!... mas descontente. Não que eu tema morrer. Quem morre inteiro? Aquillo que me assusta, o que me aterra é sómente a lembrança de que á terra, tal qual se semeasse fava ou trigo, o bruto do coveiro cantarolando, atirará commigo! Eu, que respiro ao sol da liberdade, fechado n'um segredo humido, immenso, frio, escuro, por toda a eternidade! Preso... amarrado ali! Meu nome inscripto n'um livro negro, em folhas côr d'ict'ricia, como se inscreve em notas de policia o nome do gatuno a quem o apito tranquillo não deixou bifar um lenço! Numerado inda em cima! numerado como um grilheta!... O cento e trinta e cinco. de cestos de cal virgem carregado p'ra todo o sempre n'um caixão de zinco!... Não estou pelos autos. Não!... Protesto. Quando a morte vier por este resto, d'homem... de coisa... nem eu sei ao certo isso que fui, que sou, para o que presto: quando ella pois vier, e virá cedo... e vem... que a sinto perto, ordeno que me estendam n'um penedo da minha amada Cintra. Redivivo, á luz serena e pura dos puros ceus, o misero captivo reabrirá seus olhos porventura! Inda lá teu amor, tua belleza, a força me darão, tres estrellinhas , para affrontar a idade, a natureza, e triumphar do Eterno! Com certeza que nem sequer, leitor, tu adivinhas, nem eu jámais direi de quem se trata. Bem o desejas tu, lingua de prata! Era um maná! Ó sombra que fugiste, que sem cessar procuro em toda a parte e não encontro nunca, porque é que tu não voltas, e d'est'arte de saudades a Dôr, teimosa, junca o meu caminho triste?! Agora ao menos, anjo expatriado, em que eu por ti resumo n'uma lagrima só as que hei chorado dês que te dei minh'alma até est'hora, porque é que tu não vens mostrar-me o rumo do ninho teu d'outr'ora?! Vem! e guia-me tu n'este momento á dôce paz do suspirado porto! Foste na vida o meu maior tormento... Ai! Sê na morte o meu maior conforto!