Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume II)
BIBLIOTHECA UNIVERSAL ANTIGA E MODERNA
POR
FRANCISCO RODRIGUES LOBO
VOLUME II
16.ª SERIE—NUMERO 63
LISBOA COMPANHIA NACIONAL EDITORA Successora de DAVID CORAZZI e JUSTINO GUEDES 40—Rua da Atalaya—52 FILIAES: Praça de D. Pedro, 127, 1.º andar, PORTO 38, rua da Quitanda, Rio de Janeiro 1890
LISBOA TYPOGRAPHIA DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA 309, Rua da Rosa, 309 1890
(Continuação)
—De maneira (disse D. Julio) que temos averiguado que falar vulgar, e propriamente, é falar bem: e na verdade, da boa linguagem a principal parte é a clareza; e o mais d’ella consiste em fugir d’esses atoleiros. Mas ainda eu tenho por peior de todos o da prolixidade, de cujas partes se tocou o principal na noite passada.—Ha muitos homens (proseguiu Leonardo) tão palavrosos, que vos não deixam tomar carta na conversação; e são tão amigos de levarem um comprimento até o fundo, que nem com o silencio vos defendeis dos seus; e é vicio, de que se ha de fugir como de peste da discrição. E já me occorreu por que razão chamariam aos faladores paroleiros , ou homens de parola ; que posto que a phrase seja italiana, lhe acho uma mais secreta galanteria; e é que, como a lingua de Italia é mais copiosa, ornada, e comprida nas razões; aos que na nossa falam muito, áquella semelhança chamaram homens de parola , como se lhe chamaram italianos .—Boa está a derivação (tornou o fidalgo) porém vamos á brevidade, que eu me não atrevera a culpar, se agora vos não ouvira.—Não sou eu o primeiro (respondeu elle) que o disse; que já o poeta se queixou que quando queria ser breve ficava escuro. E verdadeiramente a pratica comprida não a comprehende a memoria; e a mais breve do necessario cega o entendimento; e ha muitos, que, por abreviarem o que dizem, não declaram o que querem: que posto que a brevidade seja louvada, e por ella se avantajassem os laconicos na linguagem dos outros gregos, o cortezão nem ha de dizer as cousas em tres palavras, nem em trezentas.—Dizeis bem como em tudo (accudiu o doutor) que ha alguns, que, por quererem atar tudo em um feixe (como disse o proverbio) desconcertam o que com poucas palavras mais podia ser bem dito: e muito se me parece esse erro de abreviar com o de enfeitar as palavras, que é como perder um por carta de menos, outro por a ter de mais. Posto que o mesmo vicio (proseguiu elle) se tratou a noite que falámos das cartas, não o deixarei passar agora sem outra lembrança, porque é um trabalho não sómente escusado, mas odioso, que a pratica artificiosa embaraça aos que sabem pouco, e não agrada mais ao discreto, e serve de nevoa para as cousas que se tratam; que com o ornamento das razões se perde muitas vezes o sentido principal d’ellas: e é tão culpavel o feitio, que n’isso se perde, como o que as mulheres usam em desmentir as graças da natureza com fingida formosura, que nunca aos bem entendidos pode parecer verdadeira. E deixando esta parte, passemos á principal, e que mais pertence ao discreto, que é não se descuidar com a confiança; porque ha muitos, que de confiados em sua sufficiencia, falam por si, e não pesam as palavras com o receio, que para bem ha de ser sempre a balança d’ellas. E assim hora dizem algumas pouco decentes á honestidade da conversação; outras, escandalosas a algum dos ouvintes; outras, que, por serem fóra de tempo, perdem o logar, e elle na opinião dos que escutam o que com muitos outros tem alcançado.