Panegyrico de Luiz de Camões
Em 9 de junho de 1880
PELO SECRETARIO GERAL
J. M. LATINO COELHO
LISBOA TYPOGRAPHIA DA ACADEMIA 1880
Senhores.--Quando o viajante, ao cursar as ermas e dilatadas planicies, onde entre o Eufrates e o Tigre, em seculos remotos floreceram as grandes e conquistadoras monarchias asiaticas, collossos na amplitude e no poder, revoca á mente scismadora as magnificas memorias d'aquelles soberbissimos imperios, encontra em redor de si a aridez e a solidão. Mas as ruinas monumentaes dos antigos e majestosos edificios nos logares hoje desertos, onde outr'ora pompearam as cidades babylonias e assyrias, lhe estão ainda ensinando com a mudez eloquente das ruinas venerandas, a imagem da grandeza que passou.
Tudo é pequeno e transitorio n'este mundo, excepto a humanidade, a cadêa ininterrupta, por onde as successivas gerações umas ás outras vão transmittindo, accrescentado, o thesouro da commum civilisação.
Nascem, crescem, avigoram-se, florecem, decaem, e sepultam-se para sempre no tumulo da historia as nações e os heroes, por mais procéras e giganteas, que o destino lhes talhasse a estatura e as proporções.
Quando, após os esplendidos triumphos,--que em sua comparação, bem poderam envergonhar de pequenas e obscuras as celebradas conquistas e expedições dos povos dominadores na antiguidade,--volvemos os olhos para o que fomos, e caimos na contemplação do que de tanto poderio hoje nos resta, o espirito lastimado pela ingrata confrontação se entristece e se lamenta, de que passasse tão veloz a edade heroica de Portugal. Como ao viandante solitario nos plainos da Mesopotamia, parece-nos que sómente em volta se nos deparam saudosas e melancolicas as memorias do glorioso imperio portuguez.
Onde está Ceuta, em cujas muralhas o rei cavalleiroso e os seus esforçados paladinos, renovando com melhor fortuna e discrição o antigo duello entre a christandade e o islamismo, hastearam seguramente o estandarte portuguez? Onde está Arzilla, e Tanger, e Azamor, e Mazagão? Dentro d'aquelles muros, cujas pedras são ainda hoje insignes testemunhos do heroico valor de Portugal, resôa apenas o seu nome, envolto na penumbra da gloria e do terror. Onde está Malaca, em cujos padrões ainda vivem as façanhas de Affonso de Albuquerque? Onde Cochim, onde Meliapor, onde Bombaim? Onde este vasto littoral, em cujas abras e enseadas as naus e os galeões de Portugal, ao som das horrisonas bombardas dictavam a lei ás temerosas gentilidades? Onde está a India, que Portugal, a custo de façanhas inauditas, navaes e bellicosas, abriu ao tracto e ao commercio das nações occidentaes? Onde está a India? Oh! não repitamos a lastimosa interrogação, que nos pode ouvir, animada por um momento de redivivo e heroico patriotismo, aquella ossada gloriosa do immortal navegador, que hontem fomos depositar no grandioso monumento, consagrado aos nossos descobrimentos pelo rei emprehendedor. Onde estão os archipelagos, a que nós demos nome e senhorio? Onde estão esses mares procellosos e afastados, onde as quinas passeavam triumphantes, fazendo do Oriente mais remoto o feudo de Portugal? Aonde? aonde? Pisam extranhos mais felizes, não mais bravos, as terras que para a Europa soubemos conquistar. De todo o immenso imperio portuguez já não ha a circundar-nos mais do que melancolicas ruinas. Mas n'esta solidão ainda ha para confortar-nos e engrandecer-nos uma voz eloquentissima, que resume nos seus magicos accentos a altivez e a gloria de Portugal.