Napoleão no Kremlin
NAPOLEÃO
NO KREMLIN
POR
J. DA S. MENDES LEAL
LISBOA
TYPOGRAPHIA DA GAZETA DE PORTUGAL
26, Travessa da Parreirinha, 26
1865
Philósopho, poeta, obreiro do futuro, Qual és, benigno acceita o canto que murmuro, Ante as urnas da historia, á minha solidão, Da tua ethérea luz á sombra estende a mão!
Sic fata voluerunt.
Era a collina sancta, e em volta a gran-cidade! Revolvera o cabeço uma audaz tempestade De granito e de bronze, arremeçando aos ceus Por ondas bastioens, por vagas coruchéus! Era nova Babel, soberba e formidavel; Tudo o que é oppressor; tudo o que é implacavel; Das impostas pendendo os anneis dos grilhoens; Sétteiras nos jardins; nos eirados canhoens; Cem vigias de pedra em cada miradoiro; Ao rez grades de ferro; em cima tectos d'oiro; Uma pompa violenta, uma anciosa mansão, Que dirieis romper da bocca d'um vulcão! A espaços, coroando a tétrica cerviz D'um torreão firmado em rudes alcantis, Metalico zimborio esplende ao astro esquivo, Como o élmo que aperta a fronte de um captivo. Emmaranham-se á vista arcadas e quarteis, E os grossos revelins, e os rendados maineis. A um tempo Europa e Asia, opprobrio e maravilhas; N'um reducto um bazar; as áras nas bastilhas; Abrolhando o recinto um selvoso espessor De agudos campanis—e no todo o terror! Era a suspeita armada, eterna sentinella, Por dentro Pantheon, por fóra cidadella! Era, ao dubio alvorar que precede a manhan, O poema d'Igôr em torno á cruz d'Ivan; Revolta construcção d'um Encélado novo; Garra adunca e brutal sobre o peito d'um povo; Funesta allegoria, affronta da razão, Que intenta dizer: gloria! e diz: escravidão! Era a ameaça feroz na túrbida grandeza; Templo, ergástulo, paço, erario, e fortaleza! Era o alcaçar do Norte, o seu sanctuario, emfim A acrópole augural do Scytha—era o Kremlin!
No mais alto mirante um vulto grave e mudo, Todo nevoas o ceu, na terra immovel tudo, Contempla vagamente as vagas solidoens. De força e de grandeza inda não satisfeito, Aspira o espaço e a noite—a dextra sobre o peito Como para conter a furia das paixoens. A metrópole immensa, adormecida ou morta, O immenso pedestal, que rendido o supporta, As planuras que ao longe ondulam como um mar, As hostes, os tropheus, a conquista, os portentos, Nada d'isto ja vê; taes são seus pensamentos, Tam alta a mente foi, tam fundo é seu scismar. Quem é elle? O que faz? D'onde vem? Com que fito? Incansavel obreiro interroga o infinito; Paz não tem; lei não quer; vai, vai; não conta os sóes; E se instantes parou, quando a fortuna o prova, É para meditar alguma audacia nova, Na attitude que toca aos Numes e aos heróes! D'onde vem? Attentae. Correi; segui-lhe o rasto. Nunca sulco mais fundo em terreno mais vasto! Manda: o Occidente afflue.—Que estrugir! Que avançar! Que longo! Que voraz! Que enorme! Que terrivel! Esta chamma? Hontem era um castello invencivel. Esta cinza? Era ha pouco arrogante solar. O facho precursor alonga um ermo aberto. Investe a legião, defende-se o deserto. D'Átilla a grande sombra, ao ver os capitaens Violar da patria selva os não cursados trilhos, Pensativa procura, afastando seus filhos, Um tumulo que sirva aos filhos dos Titaens Quem é? O homem-cratéra; emblema, sphinge, arcano; Tanto como um propheta, e mais que um soberano. Um dia o viu reinar mal outro o viu surgir. Sam-lhe os povos degraus; o imperio foi-lhe ensaio; Na larga fronte um Deus; nos olhos d'aguia um raio; Pelas trevas se entranha, e elabora o porvir. De Karl, o Invicto, o Magno, o Imperador espectro, Tomou nas fortes mãos o gladio, o globo, o sceptro; Co'a tunica viril das desprendidas greys Tam amplo manto fez, que esconde, dilatado, D'um lado os Pyrenéus, os Alpes d'outro lado, E nas sobras talhou dez purpuras de reis. Quem é? Seu grande nome o espanto e o ardor espalha, Como o som d'um clarim n'um dia de batalha. Ha muito o Austro o acclama. Hoje o Septemtrião Atérrito o escutou no horror de Borodino... A Historia escreverá: «chamava-se o Destino!» Á voz dos seus canhoens troou: «Napoleão!» No humilhado frontal das basilicas nuas Levantam-se-lhe aos pés, velando, as aguias suas, As aguias triumphaes, as aguias d'Austerlitz. Volve acaso o semblante. Olhou. Mira a victoria Nos amados pendoens, que inflamma tanta gloria, E o coração trasborda, e rompe o verbo, e diz: