Manifesto anti-Dantas e por extenso / por José de Almada Negreiros poeta d'Orpheu futurista e tudo
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Manifesto não teria sido possível sem Marinetti. Sem o clima de insurreição contra as belas-letras cultivadas pelas academias, naquele ambiente morno em que as imagens sediças têm um viço de esmalte e de pintura à pistola.
Sempre esses cenáculos em que pontificam caducos literatos de graves ademanes senis e de frases brunidas, medidas pelo diapasão dos clássicos que o tempo ressequiu, foram considerados os templos da Literatura e da Arte consagrada e definitiva.
Sempre também os que vieram ao mundo com algo para dizer de novo, reagiram contra esses colégios de eruditos e de artistas aposentados na glória, essa glória capitalizada em duas ou três obras de sofrível sucesso, elevadas pelo panegirico dos confrades do elogio mútuo a sensacionais obras primas de expressão mundial.
Mas escola nenhuma rompera tão desabridamente com as reverências do velho mundo das letras, refugara as glórias da tradição e da vida oficial, como esse Futurismo, que Marinetti projectara no mundo, com o ardor, a combatividade, a diabólica juventude dum libertário.
A Civilização material representada pelo industrialismo, a potência criadora do homem vista através das energias mecânicas, o dinamismo e a vertigem como expressão dum novo estado de alma trouxeram novos ritmos à epopeia através do verbo poético de Whitman, o grande poeta da democracia, e de Verhaeren, o cantor das grandes urbes tentaculares, em que a vida ganha uma expressão colectiva, como até aí só episòdicamente alcançara nos breves momentos das cruzadas ou das expedições militares.
Mas é o Futurismo que proclama a revolta do homem. E porque é muito mais um acto de rebelião e, portanto, um acto impossível de controlar racionalmente, do que um movimento literário ou estético que trás, por adição, ao património literário uma contribuição nova, no seu âmago estuam todas as contradições e germinam os grandes conflitos que pirotècnicamente deflagraram depois sobre o mundo, ensombrando de inquietação a face do nosso tempo.