A Pata da Gazella: romance brasileiro.
Estava parada na rua da Quitanda, proximo a da Assembléa, uma linda victoria, puxada por soberbos cavallos do cabo.
Dentro do carro havia duas moças; uma dellas, alta e esbelta, tinha uma presença encantadora; a outra, de pequena estatura, muito delicada de talhe, era talvez mais linda que sua companheira.
Estavam ambas elegantemente vestidas, e conversavam a respeito das compras que já tinham realizado ou das que ainda pretendiam fazer.
—Daqui aonde vamos? perguntou a mais baixa, vestida de roixo claro.
—Ao escriptorio de papai: talvez elle queira vir comnosco. Na volta passaremos pela rua do Ouvidor: respondeu a mais esbelta, cujo talhe era desenhado por um roupão cinzento.
O vestido roixo debruçou-se de modo a olhar para fóra, no sentido contrario aquelle em que seguia o carro, emquanto o roupão, recostando-se nas almofadas, consultava uma carteirinha de lembranças, onde naturalmente escrevêra a nota de suas encommendas.
—O lacaio ficou-se de uma vez! disse o vestido roixo com um movimento de impaciencia.
—É verdade! respondeu distrahidamente a companheira.
Estas palavras confirmavam o que aliás indicava o simples aspecto da carruagem: as senhoras estavam á espera do lacaio, mandado a algum ponto proximo. A impaciencia da moça de vestido roixo era partilhada pelos fogosos cavallos, que difficilmente conseguia soffrear um cocheiro agalloado.
Depois de alguns momentos de espera, sobresaltou-se o roupão cinzento, e conchegando-se mais ás almofadas, como para occultar-se no fundo da carruagem, murmurou:
—Laura!... Laura!...
E como sua amiga não a ouvisse, puxou-lhe pela manga.