Queixumes do Pastor Elmano Contra a Falsidade da Pastora Urselina / Egloga
Produced by Tiago Tejo
LISBOA: Na Officina de SIMÃO THADDEO FERREIRA.
Com Licença da Real Meza da Comissão Geral sobre o Exame, e Censura dos Livros.
Metido tenho a mão na Consciencia, E não fallo senão verdades puras, Que me ensinou a viva experiencia.
Seu manto desdobrava a Noite escura, E a Rã no charco, o Lobo na espessura Vociferando, os ares atroavão; Do trabalho diurno já cessavão Os rudes, vigorosos Camponezes: O Vaqueiro, cantando atraz das Rezes, Após as Cabras o Pastor cantando, Hião para as Malhadas caminhando, Tudo jazia em paz, menos o triste, O desgraçado Elmano, a quem feriste, Oh pernicioso Amor, cruel Deidade, Flagélo da infeliz Humanidade: Tudo, emfim, descançava, excepto Elmano, Que a mão do Fado, universal Tyranno, Sentia sobre si descarregada; Que, longe da Paterna Choça amada, Dependente vivia em Lar estranho, Sendo os desgostos seus o seu rebanho. Honrados Maioraes o Ser lhe derão Lá junto ao Sado ameno, e lhe fizerão Das Artes cortezãs prezar o estudo: As Musas o encantárão mais que tudo, Ateando-lhe n'alma o Fogo santo, Que estúpidos Mortaes desdenhão tanto. Inflammado com elle, ao som da Lira Quebrava dos Tufões a força, a ira, E o venerando Téjo socegado, A cuja fresca praia o trouxe o Fado, Mil vezes, para ouvir-lhe as ternas mágoas, A limosa cabeça ergueo das Agoas. Cégo, convulso, pállido, e sem tino Entrava na Cabana de Francino O desditoso Elmano. Entre os Pastores Geral estimação, geraes louvores Francino com justiça disfrutava: Alto saber, o Espirito lhe ornava, Na vasta Capital fôra creado, E por expertos Mestres cultivado. Doce nó de Amizade os dois unia, Concorrendo a Razão, e a Sympathia Para tão bella, e placida Alliança. Notando, pois, a fúnebre mudança, Que no aspecto do Amigo apparecia, Assim Francino a causa lhe inquiria:
Que tens, Elmano? Que fatal desgosto Banha de tristes lagrimas teu rosto? Tu, que, ainda ha brevissimos instantes, Te acclamavas feliz entre os Amantes, Logrando mil carinhos, mil favores De Urselina gentil, dos teus Amores, Vens tão choroso, tão afflicto agora! Ah! Conta-me a paixão, que te devora, Das ancias tuas o motivo explica: Communicado o mal, mais brando fica.