A confissão de Lucio,: Narrativa.
... assim eramos nós obscuramente dois, nenhum de nós sabendo bem se o outro não era êle-proprio, se o incerto outro viveria ...
FERNANDO PESSOA Na floresta do alheamento
Cumpridos dez anos de prisão por um crime que não pratiquei e do qual, emtanto, nunca me defendi; morto para a vida e para os sonhos; nada podendo já esperar e coisa alguma desejando—eu venho fazer emfim a minha confissão: isto é: demonstrar a minha inocência. Talvez não me acreditem. Decerto que não me acreditam. Mas pouco importa. O meu interesse hoje em gritar que não assassinei Ricardo de Loureiro, é nulo. Não tenho familia; não preciso que me reabilitem. Mesmo, quem esteve dez ânos preso, nunca se reabilita. A verdade simples, é esta. E àqueles que, lendo o que fica exposto, me perguntarem: «—Mas porque não fez a sua confissão quando era tempo? porque não demonstrou a sua inocencia ao tribunal?»—a esses responderei:—A minha defesa era impossivel. Ninguem me acreditaria. E fôra inutil fazer-me passar por um embusteiro ou por um doido... Demais, devo confessar, após os acontecimentos em que me vira envolvido nessa época, ficara tão despedaçado que a prisão se me afigurava uma coisa sorridente. Era o esquecimento, a tranquilidade, o sono. Era um fim como qualquer outro—um termo para a minha vida devastada. Toda a minha ansia foi pois de ver o processo terminado e começar cumprindo a minha sentença. De resto, o meu processo foi rapido. Oh! o caso parecia bem claro... Eu nem negava nem confessava. Mas quem cala consente... E todas as simpatias estavam do meu lado. O crime era, como devem ter dito os jornais do tempo, um «crime passional». Cherchez la femme. Depois, a vitima um poeta—um artista. A mulher romantisara-se desaparecendo. Eu era um heroi, no fim de contas. E um heroi com seus laivos de misterio, o que mais me aureolava. Por tudo isso, independentemente do belo discurso de defesa, o juri concedeu-me circunstancias atenuantes. E a minha pena foi curta. Ah! foi bem curta—sobretudo para mim... Esses dez ânos esvoaram-se-me como dez meses. E que, em realidade, as horas não podem mais ter acção sobre aqueles que viveram um instante que focou toda a sua vida. Atingido o sofrimento maximo, nada já nos faz sofrer. Vibradas as sensações maximas, nada já nos fará oscilar. Simplesmente, este momento culminante raras são as criaturas que o vivem. As que o viveram ou são, como eu, os mortos-vivos, ou—apenas—os desencantados que, muita vez, acabam no suicidio. Contudo, ignoro se é felicidade maior não se existir tamanho instante. Os que o não vivem, têem a paz—pode ser. Entretanto não sei. E a verdade é que todos esperam esse momento luminoso. Logo, todos são infelizes. Eis pelo que, apesar de tudo, eu me orgulho de o ter vivido. Mas punhamos termo aos devaneios. Não estou escrevendo uma novela. Apenas desejo fazer uma exposição clara de factos. E para a clareza, vou-me lançando em mau caminho—parece-me. Aliás, por muito lucido que queira ser, a minha confissão resultará—estou certo—a mais incoerente, a mais perturbadora, a menos lucida. Uma coisa garanto porem: Durante ela não deixarei escapar um pormenor, por minimo que seja, ou aparentemente incaracteristico. Em casos como o que tento explanar, a luz só pode nascer duma grande soma de factos. E são apenas factos que eu relatarei. Desses factos, quem quiser, tire as conclusões. Por mim, declaro que nunca o experimentei. Endoideceria, seguramente. Mas o que ainda uma vez, sob minha palavra de honra, afirmo é que só digo a verdade. Não me importa que me acreditem, mas só digo a verdade —mesmo quando ela é inverosimil. A minha confissão é um mero documento.