As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-10/11) - Unknown - Livro

As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-10/11)

RAMALHO ORTIGÃO—EÇA DE QUEIROZ
CRONICA MENSAL DA POLITICA DAS LETRAS E DOS COSTUMES
3.º ANNO
Outubro a Novembro de 1873
VOLUME XX
Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder, da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande universo, e da adoração de mim mesmo.
P.J. PROUDHON
SUMMARIO
Leitor querido—Depois de uma longa abstenção de tres mezes—os mezes do verão— As Farpas voltam a apparecer no teu banquete ao mesmo tempo a que recomeçam a servir-se tambem as ostras.
Á similhança dos mariscos, qu não é bom comerem-se nos mezes que não teem r, estas paginas condimentosas e estimulantes, se abusasses d'ellas no tempo quente, amigo, far-te-hian, talvez, furunculos.
Além de que, o verão tem influencias de expansibilidade que desconcentram a vida da esphera das suas condições normaes. É a epoca das viagens, dos banhos, das estações do campo. Abandona cada um o interior da sua casa, os seus habitos, as suas occupações, a sua hygiene, o seu trabalho. Fórma-se uma existencia interina, transitoria, supplementar. Está-se em uma casa alugada por dois mezes como hospede de uma noite n'uma estalagem. Não se reside; pernoita-se apenas, e passam-se os dias. Com a supensão do trabalho esterilisam-se tambem as idéas, porque todo o trabalho é uma fecundação da intelligencia. Assim todo o ser humano temporariamente transplantado da parte de solo, de atmosphera moral, em que ordinariamente exerce a sua actividade, emurchece. O portuguez, que sempre lê pouco, no verão então não lê nada. Achei-me por muitas vezes durante a estação finda a bordo dos pequenos vapores que fazem o transporte dos banhistas entre Lisboa e as praias. Os setenta minutos d'estas breves viagens eram o tempo consagrado por cada um para, por meio da leitura, pôr as suas idéas em relação com os interesses intellectuaes e moraes do resto do mundo. Fóra do convez dos vapores de Belem ninguem nas praias lê, ninguem tem comsigo um livro. Isto não é uma simples hypothese, é uma observação positiva. Em Pedroiços, por exemplo, a vida—toda de porta da rua—é transparente: vê-se o que cada um faz, quasi que tambem se vê todo quanto cada um sente e quanto cada um pensa. Pois bem, nas viagens dos vapores de Belem, unico lapso de tempo destinado pelos banhistas ao estudo, observámos durante o periodo de tres mezes consecutivos que ninguem lia senão almanachs, collecções de cantigas ou de charadas, e os periodicos de noticias. Que elementos para, a educação intellectual de alguns milhares de cabeças: darem mergulhos no Tejo, aprenderem nos livros que nasceu o dente do sizo ao sr. Alexandre Herculano, e saberem pelos jornaes que o sr. commendador Santos foi á Outra Banda em partida da recreio, com os seus amigos, comer um safio!

Unknown
Содержание

О книге

Язык

Португальский

Год издания

2005-01-06

Темы

Portugal -- Politics and government -- Periodicals; Portugal -- Civilization -- Periodicals; Portugal -- Social life and customs -- Periodicals

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