CONSOLAÇÃO

Quando nas trevas de minha alma afflicta
A procella da dôr mais se encapella,
E o desalento, a dúvida, e a descrença
Co'as negras azas me escurece o dia,
A ti, ó Deus, a ti com mais esforço,
Através do infinito onde te escondes
Busco elevar-me, demandando auxilio;
E tu, Senhor, descendo a quem te chama,
Fulguras entre as sombras, e a tormenta
Que dentro d'alma rebramia fera,
Vae pouco e pouco serenando as iras.

*

Bem hajas! quem te procura
Jámais te procura em vão:
Tu desces, e a noite escura
Se volve em doce clarão;
Tu desces, e a luz da esp'rança,
Como estrella de bonança,
Brilha no mar da afflicção.

A vida é triste: no mundo
Soffremos até morrer;
Mas, Senhor, quem sonda a fundo
Mysterios do teu poder?
A vida é triste, mas breve;
E o futuro que se eleve,
Eterno, immenso ha de ser.
Mundos e mundos no espaço
Vão rolando á tua voz,
Prêsos em mystico laço
N'esses jardins sobre nós;
E tudo canta á porfia
Aquella grande harmonia
Que ensinam teus anjos sós.
Tudo folga: só na terra
Ha de o homem padecer?
Acaso tão pouco encerra
Seu fado? não póde ser.
Se o homem foi obra tua,
N'este mar em que fluctua
Ha de um porto emfim haver.

Bem hajas! a dôr e o pranto
Vem de ti, do teu amor;
São crysol augusto e sancto
Que nos apura em fulgor;
São a chamma, o fogo intenso
Que nos ergue como incenso,
E a teus pés nos vae depôr.
Tu sabes porque sombria
Vaga a noite na amplidão,
Porque a terra se anuvia,
E ruge irado o tufão:
É que o dia segue a noite,
E das procellas no açoite
Se esconde a florea estação.
Bem hajas, Senhor, bem hajas!
O teu poder nos conduz;
Se de luto um dia trajas,
Outro dia além reluz.
N'este gyro sempiterno,
Vem o estio apóz o inverno,
E apóz as sombras a luz.

Bem hajas! feliz no mundo
Quem tua face entrevê,
E d'este abysmo profundo
Se ergue nas azas da fé!
Feliz quem sorrindo ás vagas,
De olhos fitos sobre as plagas,
Espera, confia, e crê!