SOCRATES

Já proximo do occaso vae descendo

O sol ao mar inquieto,

Os moribundos raios estendendo

Nas alturas do Hymeto;

E Socrates, sentado sobre o leito,

Inda aos alumnos falla,

No silencio geral notando o effeito

Da razão que os abala.

A verdade sublime lhes revela

Em palavras ignotas,

Suaves como a voz de Philomela,

Ou do cysne do Eurotas.

Cebes, o proprio Cebes emmudece,

Simmias já não duvida:

Nos olhos do inspirado resplandece

Um Deus e a eterna vida!

Mas o sol expirava: era o momento

Que Athenas decretára:

Cumpre os deuses vingar: o sabio attento

Á morte se prepara.

Os discipulos tremem contemplando

O dia já no resto;

Eis o servo dos onze entra chorando

No carcere funesto.

O circulo cruzando, a bronzea taça

A Socrates estende;

O philosopho a empunha com a graça

Que nos festins resplende.

«Ergamos, disse, nossa prece Áquelle

«Que ao longe nos convida,

«Por que seja feliz por meio d'Elle

«A viagem temida.»

E aproximando intrepido e sereno

A liquida cicuta,

Como nectar a esgota, e do veneno

Entrega a taça enxuta.

Um lamento geral, um só transporte

Percorre em torno o bando

Dos alumnos fieis, chorando a sorte

Do mestre venerando.

Apollodoro geme; succumbindo,

Criton lhe corresponde;

Phédon abaixa os olhos, e carpindo

No manto o rosto esconde.

Elle sem vacillar, elle sómente,

Sorrindo á turba anciada;

«Amigos, que fazeis? um sol fulgente

«Me luz em nova estrada.

«De presagios felizes rodeemos

«Os ultimos instantes!

«Chore quem não tem fé: nós que já crêmos,

«Nós sejamos constantes!»

Disse, e deixando o leito em que jazia

Sereno move o passo,

Que o veneno lethargico devia

Obrar pelo cansaço.

Das grades se aproxima, olha o Parthénon,

Olha os muros d'Athenas,

O Phaléro, o Pireu e as que lhe acenam

Regiões são serenas;

Olha os céos, olha a terra, a luz do dia

Expirando nas vagas,

E de harmonias taes se ergue á harmonia

De mais ditosas plagas.

Depois, volvendo ao leito, diz a tudo

O adeus da déspedida;

Cobre o rosto c'o manto, e aguarda mudo

O instante da partida.

O veneno progride, e já do effeito

Redobra a intensidade;

Dos membros se apodera, sobe ao peito,

E o coração lhe invade.

Estremeceu! do gelido trespasse

Era emfim a agonia...

O executor lhe descobriu a face:

Socrates não vivia!

Triumpha, cega Athenas, ao martyrio

O sabio condemnaste,

E d'olympicos deuses no delirio

A razão engeitaste;

Á voz do Areopágo, á voz de ferro

Suffocaste a doutrina:

A verdade succumbe, a sombra do erro

No mundo predomina.

Mas que estrella futura se levanta

Rasgando a escuridade?

Que palavra resôa, e o mundo espanta

Prégando a alta verdade?

É elle, é elle, o promettido ás gentes

Na voz das prophecias!

Curvae, ó gerações, curvae as frentes

Ao verbo do Messias!