CANÇÃO PERDIDA
Halitos de lilaz, de violeta e d'opala,
Roxas macerações de dor e d'agonia,
O campo, anoitecendo e adormecendo, exhala…
Triste, canta uma voz na sincope do dia:
Alguem de mim se não lembra
Nas terras d'alem do mar…
Ó Morte, dava-te a vida,
Se tu lha fosses levar!…
Ó Morte, dava-te a vida,
Se tu lha fosses levar!…
Com o beijo do sol na face cadaverica,
Beijo que a morte esvae em palidez algente,
Eis a lua a boiar sonambula e chimerica…
Doce, canta uma voz melancolicamente:
O meu amor escondi-o
N'uma cova ao pé do mar…
Morre o amor, vive a saudade…
Morre o sol, olha o luar!…
Morre o amor, vive a saudade…
Morre o sol, olha o luar!…
Latescente a neblina opalica flutua,
Diluindo, evaporando os montes de granito
Em colossos de sonho, extasiados de lua…
Flebil, chora uma voz no letargo infinito:
Quem dá ais ó rouxinol,
Lá para as bandas do mar?…
É o meu amor que na cova
Leva as noites a chorar!…
É o meu amor que na cova
Leva as noites a chorar!…
A lua enorme, a lua argentea, a lua calma,
Imponderalisou a natureza inteira,
Descondensou-a em fluido e embebeceu-a em alma…
Triste expira uma voz na canção derradeira:
Ó meu amor, dorme, dorme
Na areia fina do mar,
Que em antes da estrella d'alva
Comtigo me irei deitar!…
Que em antes da estrella d'alva
Comtigo me irei deitar!…
Maio—91.