II

DE VOLTA

(Crepusculo, Novembro. Pela encosta fria e desnudada vae andando, esfarrapado e exangue, um pobresinho triste, arrimado ao bordão.)

Um Lavrador

(de cem anos, ainda robusto, à porta do casebre)

Mendigo d'olhos sem esp'rança,
Vaes-te perder na escuridão…
Entra em meu lar; dorme, descança…

O Pobresinho

(andando sempre)

Quem dera a paz divina e mansa,
Velho, que tens no coração!…

Uma Velhinha

(a resar à porta do moinho)

Mendigo d'olhos sem ventura,
Dentro da azenha ha um enxergão;
Terás lençoes, terás fartura…

O Pobresinho

(andando sempre)

Eu só quizera essa candura,
Irmã da Graça e da Ilusão!…

Uma Camponeza

(que vem da vindima)

Mendigo d'olhos d'engeitado,
Na nossa casa ha vinho e pão;
E ha leite fresco; e ha mel doirado…

O Pobresinho

(andando sempre)

Tua alegria sem cuidado,
Eis o que eu busco… em vão! em vão!…

Uma Pastorinha

Mendigo d'olhos de coveiro,
Trago a merenda no surrão;
O queijo é bom, mas é grosseiro…

O Pobresinho

(andando sempre)

Dá-me o teu riso feiticeiro,
Lirio do monte inda em botão!

Um Pedinte

Mendigo d'olhos na agonia,
Dou-te o meu manto e o meu bordão;
Nada mais levo… a noite é fria…

O Pobrezinho

(andando sempre)

Apenas ai! desejaria
Tua cristã resignação!…

A Estrella Vesper

Ó sonhador louco d'outrora,
Teus sonhos lindos onde estão?!
Ebrio da luz, rico d'aurora,
Vi-te partir… e vejo agora
Um morto erguido d'um caixão!

Teus olhos fulvos namorei-os
De dia e noite, da amplidão:
Vi-os sorrir entre gorgeios,
Vi-os cantar e vi-os cheios
De pranto e febre e indignação!
Regressa emfim, é teu destino,
Á paz obscura, á submissão…
E outra vez meigo e pequenino
Deixa dormir, como um menino,
Teu velho e exhausto coração!…

O Pobresinho

(chorando)

Só tu, estrella, me conheces
Em minha dor, minha aflição!…
Só tu não dormes, não esqueces…
Só tu ouviste as minhas preces…
Bemdito, estrella, o teu clarão!

Setembro—91.