O PASTOR
Sinos a defuntos! ai, quem morreria!
Olha, foi o pobre do Ti Zé-Senhor!…
Velho tão velhinho nenhum outro havia…
P'ra cumprir cem anos lhe faltava um dia,
Ha noventa e quatro que era já pastor.
Zagalzinho alegre, desde tenra infancia
Já de surrãosito cheio a tiracol,
A escalar montanhas com ardor, com ancia,
Por pastagens bravas d'auroral fragancia,
Branqueadinho a neve e doiradinho a sol!…
A deserta, imensa, rustica paisagem,
Cordilheiras, campos, astros d'oiro, luar,
Tudo se invertera, por continua imagem,
Em heroica, em livre candidez selvagem
Na extasiada flor do seu ingenuo olhar.
Ordenhado o leite, cantarinho cheio,
Ala para a aldeia, por manhãs sonoras,
Mordiscando a codea do seu pão centeio,
Arrancando á frauta um pastoril gorgeio,
Rapinando ás sebes chupa-meis e amoras.
Fez-se moço e grande pelas serras brutas,
Onde as aguias pairam, onde o roble medra,
E onde os fragaredos barbaros, com grutas,
Se encastelam crespos, infernaes, em lutas,
Tal como tormentas de trovões de pedra!
Cada serrania alcantilada e brava,
Sob o azul d'Agosto, côr de fogo e pó,
Recozida a febre e atordoada em lava,
Lagrimeja apenas d'uma rocha cava
Pranto, que o bebera uma ovelhinha só!
E por essas fulvas, ingremes ladeiras
Pastoreava o gado, quasi morto já:
Só rochedos tristes, nus como caveiras,
E zambulhos, zimbros, tojos, cornalheiras,
Acres como pragas d'uma boca má!
E depois as torvas, negras invernadas,
Noites formidandas, lobos a ulular,
Desmoronamentos, temporaes, nevadas,
Carcavões abertos pelas enxurradas,
Troncos de sobreiros de raiz ao ar!…
Oh, as noites tristes, alapado e quedo,
N'um covil de feras, ou algar deserto!…
E dormia ao lume sem temor, sem medo,
Pois Nossa Senhora, Virgem do Degredo,
Na ermidinha branca lhe ficava perto…
Mas no mez de Março pincaros maninhos,
Montes cenobitas, d'ossos e burel,
Vestem-se de trevos e de rosmaninhos,
Com sorrisos d'oiro que alvoroçam ninhos,
E distilam favos de inocencia e mel!…
Era então alegre como o sol nascente,
Mais feliz nos campos do que Deos no altar!
Anhos e cabritos, leite rescendente,
Pastos tão mimosos, que quizera a gente
Transformar-se em ave para os não calcar!
Tanto Abril florido, tanta calma adusta,
Tantas inverneiras, sem pesar ou dor,
Tinham-lhe gravado na expressão robusta
Como que uma sombra de grandeza augusta,
Junta a uma inocencia matinal de flor.
Que importavam gelos, ventanias, feras?
Peito nu, aberto; construção de touro!
Quasi me admirava que nas primaveras
D'esse peito rude não brotassem heras,
Margaridas, lirios com abelhas d'ouro!
Ao relento a cama no orvalhado pasto,
Cerca dos carneiros e dos bons lebreus;
Que divino leito primitivo e casto,
Todo embalsamado de serpol, mentrasto,
Sob a paz imensa do perdão de Deos!…
E esse gigantesco latagão corado
Era, como os santos ermitões, frugal:
Duas azeitonas, queijo do seu gado,
E de rala escura meio pão migado
N'um caldeiro d'agoa com azeite e sal.
Não jantava morte, assassinato, dores,
Hecatombes tristes que jantamos nós;
E por isso ria como riem flores,
Atrahindo em bandos aves de mil cores,
Feiticeiro simples, com o olhar e a voz!…
Sua rude frauta de pastor ouvindo
Na misteriosa luz crepuscular,
Iam-se as estrellas uma a uma abrindo,
E desabrochava pelo azul infindo
Soluçante a lua como um nenufar!…
Que trinados vivos, d'argentino encanto
Ai, missa do galo, lhe inspiravas tu,
N'essa frauta, quando de cajado e manto
Ia deitar loas ao menino santo
No altar-mór da egreja sorridente e nu!
Fôra lá creança, magica ventura!
Centenario quasi a derradeira vez…
E gorgeava a frauta com egual candura,
Pois a alma virgem, luminosa e pura,
Conservara-a sempre como Deos a fez.
N'ella penetrava, n'ella se embebia
Tudo que é inocencia, riso, amor, clarão:
Fremito de pomba, voz de cotovia,
Canticos dos montes ao nascer do dia,
Lagrimas dos astros pela escuridão!…
Longe dos Pecados de raivosas presas,
Belzebuths famintos d'olhos de metal,
Longe das horriveis tentações acezas
No torpor dos leitos, na embriaguez das mezas,
Pululantes larvas, vibriões do Mal,
O pastor ditoso envelheceu ridente
Por despenhadeiros, alcantis, calvarios,
E na fronte augusta de ermitão, de crente,
Lhe geavam anos luminosamente,
Como as pombas brancas sobre os campanarios!
Das ovelhas meigas,—intimas heranças!—
Recolhera toda a abnegação christã:
Oh, sejaes bemditas, ovelhinhas mansas,
Que com vosso leite sustentaes creanças,
E vestis os pobres com a vossa lã!
Aos noventa anos, festival, risonho,
Alamo gigante d'agoa viva ao pé;
Sim! inda na boca risos de medronho,
E nos olhos lentos, a tremer em sonho,
Dois miosotis virgens de candura e fé!
Com seu manto branco de burel grosseiro,
Cans de puro arminho, baculo na mão,
Alembrava um santo feito pegureiro,
Que eu desejaria sobre o altar cruzeiro
D'uma ogiva d'astros, em adoração!
Centenario quasi, recordava aspectos
De lendario tronco n'um feliz vergel,
Moribundo em meio de seus verdes netos,
Com a Providencia a agasalhal-o em fetos,
Com abelhas d'ouro inda a nutril-o a mel,
E que surdo á voz dos ledos passarinhos,
E que cego ao ether de esplendor ideal,
Com o ai extremo lança dois raminhos,
A chamar ainda por canções de ninhos
E a dizer aos astros um adeos final!
Tal o pastor santo, já de vez cahido,
Já corcovadinho, flebil, quasi morto,
Arrimado ao velho baculo torcido,
Nada ouvindo, nada, com o duro ouvido,
Vagamente olhando com o olhar absorto,
Ia pelos montes na tristeza infinda
D'um coração ermo, com a morte aceite,
A pedir aos anjos para ouvir ainda
Badalar ovelhas n'uma noite linda,
Quando a lua os campos alagasse em leite!…
Seu bisavô fora guardador de gado,
Guardador de gado seu avô, seu pae;
Creou filho e netos como foi creado,
E morreu ditoso porque o seu cajado
Seu rebanho ainda pastoreando vae!
Candido, na paz das solidões dormentes,
Ignorando o mundo rancoroso e vil
Aos cem anos inda, com a fé dos crentes,
Punha olhos claros, simples, inocentes,
Na estrellinha d'alva das manhãs d'Abril!
Levará no esquife para os ceos a palma
Da grandeza mansa, da virtude austera.
Realisou no mundo a perfeição da Alma:
Porque foi bondoso como a lua é calma,
Porque foi um santo sem saber que o era!…
Vós, ó semideuses do entremez da Gloria,
Cesares, tiranos, capitães, heroes,
Epicas figuras de imortal memoria,
Que de serro em serro iluminaes a historia
Como crepitantes, tragicos faroes,
Na região do Imenso, no Infinito puro,
Onde me deslumbra, como um sol, Jesus,
Não sois mais que larvas a tremer no escuro,
Que ninguem conhece, que eu em vão procuro
Com meus olhos calmos n'esse mar de luz!
E o pastor d'ovelhas, que comeu centeio,
Que viveu nos montes, que dormiu nas grutas,
Tão asselvajado, cabeludo e feio,
Que dissereis quasi que esse monstro veio
Da matriz da terra, como as pedras brutas,
Já liberto agora da Ilusão do mundo
Fez-se em anjo branco, inda outra vez pastor:
Milhões d'astros seguem seu olhar jocundo,
São rebanhos d'almas pelo azul profundo
As ovelhas novas do Ti Zé-Senhor!…
90-91.