SCENA IV
*O rei, Opiparus e Ciganus*, acudindo
OPIPARUS:
Meu Senhor!…
CIGANUS:
Meu Senhor!…
O REI, alucinado:
Vão-no prender!… vão-no prender!… Um salteador…
Tragam-mo aqui aos pés, de rastros, maniatado!…
Tragam-no aqui!…
OPIPARUS, à parte:
El-rei endoideceu, coitado!
CIGANUS:
Meu Senhor! meu Senhor, que indignação!… Dizei,
Alguem desacatou a pessoa d'el-rei,
Por acaso?
O REI:
Um fantasma louco entre o arvoredo…
OPIPARUS:
Um fantasma?!… Ilusão… O ar atordôa…
CIGANUS:
Mêdo
De que? de agoiros infantis, de sonhos vagos?
Com ministros leais e escudeiros bem pagos,
Que teme el-rei?!…
O REI:
Não foi vertigem, não foi sonho…
Um brutamontes alienado, um gigante medonho
Que me não deixa… Quero vê-lo… Ide prendê-lo… andai…
CIGANUS:
Mas que fantasma é êsse aterrador?
O REI, levando-os ao balcão e apontando:
Olhai!
Alêm!… alêm!… alêm!…
CIGANUS:
Strambótica figura!…
É singular… é singular…
OPIPARUS:
Crime ou loucura…
Por certo um doido…
O REI:
Há já três noites, sem descanso,
Uivando loas sôbre loas…
OPIPARUS:
Doido manso…
O REI:
Ide prendê-lo!… amordaçai-o, maniatai-o!
Não me larga esta insónia há três noites!… Um raio
Dum profeta a grunhir cantochões de defuntos!…
Boa carga de pau… bom marmeleiro aos untos…
Mas vejam lá que o diabo às vezes, com a telha,
Não arme algum chinfrim… Peguem-no de cernelha!