SCENA XX

O ESPECTRO DE D. MARIA II:

Inclina um rei perante um rei (somos iguais)
A realeza. Perante um vassalo, jàmais!
O monarca ao monarca (é irmão com irmão)
Dobra o orgulho sem infâmia; o rei ao povo, não!
Assina, e já! Príncipe vil, que se amedronte,
Usa, mas sem direito, um diadema na fronte.
Povo em rebelião, não é povo, é canalha.
Beija-te os pés?—indulto. Ergue o braço?—metralha.
Faltam soldados e clavinas? Pouco importa:
El-Rei de Espanha os mandará; tem-los à porta

Desaparece.

O DOIDO, na escuridão:

Tremia a raínha de me ouvir cantar…
Oh, loucura minha, desventura minha!
Cantigas são asas, fazem-nos voar…
Mandou-me prender, mandou-me espancar.

E eu desatei a rir, eu desatei a rir,
E três dias cantei com mais três noites a seguir!…

Não dormia a raínha de me ouvir cantar…
Oh, loucura minha, desventura minha!
Cantigas são graças para não chorar…
Mandou-me prender, mandou-me enforcar.

Chegaram as tropas e eu, desarmado,
Zás! desbaratei-as com o meu cajado!

E pus-me a cantar! e pus-me a cantar!

Tremendo, a raínha disse então ao rei:
«Emquanto o não matem não descansarei.
Com teus cavaleiros vai-mo tu buscar,
Traz-mo aqui de rastros para o degolar.»

Veio o rei à frente dum grande estadão,
Zás! desbaratei-o com o meu bordão!
É de temer, é de temer
Um doido varrido com um pau na mão!…

E sempre a cantar! e sempre a cantar!

Então a raínha, vileza traiçoeira!
Chamou inimigos d'alêm da fronteira…
E tantos! e tantos!… Que havia de eu fazer?…
Quebrei de raiva o meu bordão e deixei-me prender…

Levado de rastros aos pés da raínha,
Cuspiu-me na cara!
Oh, vergonha minha! por fortuna minha,
Melhor me matara!… melhor me matara!…
O gôsto que teve durou-lhe bem pouco…
Foi ela que morreu!… foi ela que morreu!…
Vi-a passar já no caixão, ia a enterrar…
E sabeis o que eu fiz? (o que é ser louco!… o que é ser louco!…)
Desatei a chorar!…