SCENA XXIII

Corre, de braços abertos, para o espectro, que súbitamente se evapora. Relâmpago abrasador. Trovão medonho. Chovem os raios no castelo. O incêndio, num minuto, veste-o de lavaredas fabulosas. Estrondos de explosões, derrocamentos de muralhas, gritos de angústia, alaridos de pânico.

O DOIDO, triunfante, num regosijo de criança, vendo as lavaredas a brilhar:

Olha o palácio a deitar chamas dos telhados!…
A arder!… a arder!…
Lá arde o rei, o trono, a côrte, os cães… Ah, cães danados,
Ides morrer queimados!
Tudo a arder!… tudo a arder!…
Que lavaredas! Que esplendor! Ai, que alegria!
Parece dia!…
Vão os galos cantar
E trinar, de surpresa, a cotovia!…
Rolos de fumo em sangue pelo ar…
Desabamentos… vigamentos a estoirar…
Oh, que fogueira!… oh, que fogueira!… Ai, que alegria!
Que chamas d'oiro relumbrantes!… Andem vê-las…
Olha a subirem para o céu milhões de estrêlas.
Tantas estrêlas, tantas, tantas,
Que o castelo abrasado
Vai-nos deixar o céu azul todo estrelado!
Ó lavaredas d'oiro! ó lavaredas santas!
Subi! subi! subi!… dai luz e dai calor!…
Vós que não tendes fogo em vossas casas,
(Que lindas brasas! que lindas brasas!)
Vinde assentar-vos e aquecer-vos ao redor!
Oh, surdi de tropel, em alcateias,
Miseráveis, famintos, vagabundos!
Surdi das tocas negras das aldeias,
Dos matagais profundos,
Das pocilgas, dos antros, das cadeias,
E em turba-multa, em debandada, aos milhões, aos milhões,
Vinde aquecer as mãos neste braseiro,
Vinde aquecer as mãos, vinde aquecer os tristes corações!…
Já vai florir nas sebes o espinheiro,
Já vão florir nas bôcas virgens as canções!…
……………………………………………………
Dobram os sinos… dobram os sinos… Deixa dobrar!
Foi Deus que deitou fogo àquilo tudo…
Quem no há-de apagar?!…
Repica os sinos, meu sineiro campanudo,
Que à volta da fogueira as môças todas vão bailar!…
……………………………………………………
E eu vou ter, que prazer!
Mal sabeis… mal sabeis o que eu vou ter!…
A minha alma! a minha alma!… nova… nova,
Como um sol de aleluía a refulgir!
Ela estava ali presa numa cova…
Ardeu o rei, ardem os cães… e vai fugir!

O incêndio devorou o palácio. Ardeu tudo: mármore e madeira, rei e cortesãos, oiros e brocados, alfaias e baixelas. Salvaram-se os cães; nada mais. De entre os escombros, fumegando, ergue-se religiosamente, em ascensão eucarística, um vulto angélico de mulher. O corpo é de luar de opala, a túnica de luar de neve, e os olhos, fundos e dolentes, de luar de lágrimas. Peito manando sangue, olhos chorando estrêlas, caminha suspensa, direita ao doido, num sonambulismo vago e melancólico. Poisa em terra, com a graça aérea dum arcanjo. É a alma do doido. Trezentos anos sem se verem! Contemplam-se. Como estão mudados!…

O DOIDO, em frente da alma, já recuperando a lucidez:

Ó alma vagabunda, alma exilada,
Eis teu corpo infeliz, tua triste morada:
Vê, que abandôno e que pobreza!
Ninguêm te espera! nem candil na escada,
Nem banquete na mesa!
Vens tranzida de frio a tiritar?…
Não há lume no lar!
Vens morta de miséria e de aflição?…
Não há vinho, nem pão!
Vens fatigada repousar?… Porêm,
Não há leito tambêm!
Tua casa deixaste,
Teu albergue natal desamparaste,
Numa noite d'horror…
E os ventos e as procelas
Desmantelaram portas e janelas,
Desmoronaram tetos com furor…
Restam negras paredes lastimosas
Do teu ninho d'amor!…
Há cardos na varanda em vez de rosas,
Luto e morte nas salas pestilentes…
Na alcova onde dormias,
(Oh, mal dirias! mal dirias!)
Hoje dormem as c'rujas e as serpentes!…
E tu, ó alma triste, alma exilada,
Branca, da alvura mesta dos sudários,
De que prisões, de que galés, de que calvários,
Vens a rastros assim crucificada!
Quem te cobriu de lágrimas e sangue?
Quem trespassou teu coração exangue
De tanta dòr e tanta punhalada?!
Regressas ao teu lar, alma divina,
Para morrer aqui;
E no teu lar contemplas uma ruína,
E êle uma sombra em ti!…
………………………………………..
Entra no lar… entra no túmulo… descansa,
Alma pobre, varada de amarguras,
Alma sem fé e sem esp'rança!
Entra no lar abandonado… entra às escuras…
Deita-te a um canto sonolentamente,
E extinta e muda, vulto vago, informe,
Nunca mais abras teu olhar silente,
Dorme! repousa eternamente… dorme!
………………………………………..

A alma embebe-se-lhe no corpo.

Alma a expirar, clarão sombrio,
Porque vieste
Iluminar um túmulo vazio?!…
Porque vieste
Ressuscitar de novo, inda um momento,
A poeira do meu nada?!… Antes o vento
A sacudisse inânime e delida
Na eterna paz do eterno esquecimento!
Memória! espelho fúnebre da vida,
Porque me vens de súbito trazer
A apagada, a esquecida
Imagem tormentosa do meu ser!
Que despertar medonho
Da caótica noite do meu sonho!…
Antes o sonho louco, o sonho vão!
Cavaleiro magnânimo de outrora,
Contempla o teu retrato… olha-o agora…
Nem a ti próprio te conheces, não!
E és tu, és tu, ó cavaleiro antigo,
Êste pálido e trôpego mendigo,
Êste mendigo ensangùentado e nu!…
Nem semelhança leve achas contigo?
Repara bem… repara bem… és tu!…
…………………………………………………

Num ímpeto de orgulho e de vanglória:

E astros do céu, povos da terra, ondas dos mares,
Viram passar, como [~u]a águia ovante,
O meu pendão quimérico nos ares!
Retumbaram meus feitos de gigante
Pelo universo, em ecos seculares!
Cavaleiro e argonauta vagabundo,
Gravaram sôbre terra e mar profundo
Mil roteiros de luz os passos meus,
Como se houvera circundado o mundo,
Listrando-o a fogo, o Espírito de Deus!
Minha abrasada crença visionária,
Medindo o globo inteiro, achou-o estreito…
E a alma da humanidade, imensa e vária,
N[~u]a maré de assombros, tumultuária,
Bateu um dia junta no meu peito!
Vinham bandos de frotas portentosas
Páreas de reis trazer-me alegremente:
Maravilhas estranhas, caprichosas,
De longínquas cidades fabulosas,
Berços d'oiro do sol resplandecente!…
Nas mil tôrres, mais altas do que a Fama,
Do meu empório vasto olhando o mar,
Via-se o globo e a cruz como auriflama,
E sôbre globo e cruz, d'asas de chama,
Minha epopeia homérica a cantar!…
………………………………………
Ah, do sono da morte enregelado
Porque havias de, ó alma, despertar?!…
Que é da grandeza heróica do passado,
Que é das tôrres d'outrora olhando o mar?!…
Blocos no chão, vestidos d'heras,
Ameias, gárgulas, esferas,
Poeiras de sonhos, de quimeras,
Luto, nudez, desolação,
Eis os restos de tantos extermínios,
De tanta dôr e tanta maldição!…
Já nem cabe sequer em meus domínios
À magra sombra vã do meu bordão!
Régios palácios, fortalezas,
Mosteiros, campas, catedrais,
Orgulhosos padrões de mil empresas,
Conspurcados de lama e de impurezas,
Entre montes de entulho e silveirais!
Meus impérios distantes divididos,
Minha terra natal inculta e só!…
Loucos de dôr, em torvos alaridos,
Correm bandos de aldeões espavoridos,
Miseráveis tropeis de luta e dó…
Por mim passam atónitos, julgando
Ver um monstro maldito,
Um espectro soturno e formidando…
Da escuridão do nada ressuscito…
Abro os olhos na treva… estendo as mãos…
E de mim fogem com horror, clamando,
Meus parentes, meus filhos, meus irmãos…
……………………………………..
Deus, onde estás?!…
Deus! a mentira eterna!…
Algum lôbo voraz,
Mais piedoso que o céu que nos governa,
Pode emprestar-me um antro, uma caverna,
Onde se durma e se agonize em paz?!…
……………………………………..

Ao cabo dum longo e meditativo silêncio:

Oh justiça do Espírito divino,
Pensando bem, bem clara te revelas
Na trágica lição do meu destino!
Minhas glórias passadas!… É por elas,
Que eu hoje estou sofrendo e me crimino!
Minhas glórias!… infâmias e vergonhas
De ladrão, de pirata e de assassino!
Que bárbaras, que atrozes, que medonhas,
A escorrer sangue negro e pestilento,
As vejo em tôrno a mim neste momento,
Essas glórias nefandas, que eu supus
D'oiro e de luz!
A epopeia gigante!
Empresas imortais! feitos sublimes!
Grandeza louca dum instante…
Miséria eterna… meus eternos crimes!
…………………………………………….
Novos mundos eu vi, novos espaços,
Não para mais saber, mais adorar:
A cubiça feroz guiou meus passos,
O orgulho vingador moveu meus braços
E iluminou a raiva o meu olhar!
Não te lavava, não, sangue homicida,
Nem em mil milhões d'anos a chorar!…
Cruz do Gólgota em ferro traduzida,
Minha espada de herói, ó cruz de morte,
Cruz a que Deus baixou por nos dar a vida;
Vidas ceifando, desumana e forte,
Ergueste impérios, subjugando o Oriente,
Mas Deus soprou… ei-los em nada…
E te cravou a ti, vermelha espada,
Nesta alma de lôbo eternamente!
Ó espada de dôr, abre-me o peito!
Rasga de lado a lado o coração!
Rasga-o, meu Deus, e torna-mo perfeito,
Que eu te bemdigo e louvo e me sujeito,
Sem uma queixa, aos golpes da tua mão!
Seja feita, Senhor, tua vontade,
Venha o remorso igual à iniquidade,
Deus de justiça e luz, Deus de perdão!
……………………………………
Nunca nascido houvera o resplendor
Do dia, em que no abeto milenário
Pus o gume do aço com furor!

Antes aparelhara o meu calvário,
Antes a minha tumba silenciosa
Com o tronco do roble funerário!

Antes mil vezes, do que a aventurosa
Barca ligeira, que levou seu guia
Dos desastres à praia fabulosa!

E, a meus golpes crueis, eu bem ouvia
Uma alma no roble que chorava,
Um coração lá dentro que gemia!

Um coração de avô que perdoava,
Só com ais de amargura respondendo
A cada novo golpe que eu lhe dava.

Eu os traduzo hoje, eu os entendo,
Os merencóreos ais vaticinantes
Das lágrimas de fel que estou bebendo!

À sombra de teus ramos verdejantes,
Ó árvore formosa, bem quisera
Adormecer eu inda como dantes!…

Não abatessem minhas mãos de fera
O teu corpo sagrado, roble augusto,
Patriarca da lei vestido de hera!

Fôsse eu ainda o camponês adusto,
Lavrador matinal, risonho e grave,
D'alma de pomba e coração de justo!

Sentisse eu inda a música suave
Da candura feliz no peito agreste,
Qual em rórida brenha um trino de ave!

Em vez do mundo (fome, guerra e peste!)
Conquistasse, por única vitória,
Os tesoiros sem fim do amor celeste.

Nunca de feitos meus cantasse a História;
Ignorasse o meu nome a voz da Fama
E a minha sombra humilde a luz da Glória.

Vivesse obscuro e triste, erva da lama;
Nas alturas, porêm, fôsse contado
Entre os que Deus aceita, os que Deus ama.

No mundo, bicho ignoto e desprezado;
Mas, nos reinos là luz adamantina,
Um cavaleiro grande e sublimado.

Cai-lhe o livro das mãos. Erguendo-o e beijando-o com fervor:

E contudo, alma infame e libertina,
Em teu horror, esquálido e sangrento,
Uma luz existiu, que era divina!

Uma luz existiu, que num momento
Fez o dia mais claro e mais jucundo,
Pôs mais cêrca da terra o firmamento!

Ó lira d'oiro que abalaste o mundo!
Sonho d'astros!… ó fúlgida epopeia!
Canta, dá vida nova ao moribundo!

Da cólera do Eterno a maré cheia,
Naus, barbacãs, palácios, de imprevisto
Levou tudo nas ondas, como areia…

Levou tudo nas ondas… ficou isto!
Ficou na mão exangue a lira d'oiro,
E é por ela existir que eu inda existo!…

Lira de Orfeu! meu único tesoiro!
Bem como a voz do mar enche uma gruta,
Encheu o azul teu canto imorredoiro!

Pudesse eu, d'alma livre e resoluta,
Olhos no fogo da manhã nascente,
Erguer ainda os braços para a luta!

Não, como outrora, para a luta ardente
Da riqueza e grandeza, que é vaidade…
Da fortuna, que é sombra que nos mente…

Seja a hora do prélio a Eternidade!
E o globo estreito a arena, onde não cansa
A batalha do Amor e da Verdade!

Cavaleiro de Deus, ergue-te e avança!
Põe na bigorna os cravos de Jesus;
Bate-os cantando… É o ferro da tua lança!

Faz a hástea da lança duma cruz;
Vai, cavaleiro, de viseira erguida,
Dá lançadas magnânimas de luz!…

E hão-de estrêlas sangrar de cada f'rida,
Que em rosários, ardendo, chorarão
Uma a uma no Gólgota da Vida.

Ah, sonho de esplendor, que sonho em vão!
Põe os olhos em ti, alma de hiena,
Em teu rebaixamento e escuridão!…

Como nascer em pútrida gangrêna,
Sob os olhos de Deus, a flor de encanto,
Vaso de ideal, a mística açucena!

Como? chorando; derretendo em pranto
As máculas do crime; e o criminoso,
Vestido de esplendor, ficará santo.

A Dôr, a eterna Dôr, eis o meu gôzo.
O pão do meu banquete, cinza escura,
E o meu vinho jovial, fel amargoso.

É a Dôr quem liberta a criatura:
Ou em miséria humana ande encarnada,
Ou em tigre feroz ou rocha dura.

Oh, abrasa-me a alma envenenada,
Faz em carvão meu coração perverso,
Dôr temerosa, Dôr idolatrada,

Ó Dôr, filha de Deus, mãe do universo!

Longo silêncio. Transe-lhe a alma, de repente, um frémito de
angústia. Adivinha no escuro, marchando, a Fatalidade inexorável.
Suor de Agonia. Com um ai cruciante:

A hora grande, a hora imensa,
Já por um fio está suspensa…
Não tarda muito que ela dê!…
Carne medrosa, porque tremes?…
Ó alma ansiosa, porque gemes?…
Porque?!…
Arde na Dôr, carne maldita!
Revive em Dôr, alma infinita!
Na Dôr bemdita espera e crê!…

Marcha de tropel, na escuridão, um bando de corsários, gigantes espadaúdos e membrudos, rosto sanguíneo, cabelos de oiro fulgurando. Entoam, epilépticos de alcool, uma canção infrene e vagabunda. Relampeiam as armas, à claridade vermelha dos archotes. O andar é deliberado e resoluto, como o de quem trilha, às escuras, uma vereda já sabida. É que na dianteira, a escaminhá-los, Iago e Judas trotam sombrios e ofegantes. Um dos marinheiros, brincando, meteu o Veneno no bôlso. Os cães, pelo instinto, levam a horda temerosa em direcção ao doido. Apenas o descobrem, estacam de súbito, ladrando raivosos e covardes, como a dizer:—Ei-lo! Aí o tendes.—O vélho herói, pálido de morte, fita-os soberanamente desdenhoso. Rodeiam-no, tumultuando e clamorando. Brilham adagas, lâminas frias de cutelos. Deitam-lhe algêmas, dão-lhe bofetões, insultam-no, mascarram-no de lôdo, cospem-lhe na cara. E a face do herói sobre-humanamente resplandece, como zurzida por estrêlas. Em meio de chufas e labéus o arrastam ao alto da montanha, onde a cruz negra e sanguinolenta lhe estende os braços para a Dôr. Com vilipêndio o desnudam, por escârnio lhe cingem uma tanga de cafre, e, a marteladas truculentas, desumanos o pregam no madeiro bárbaro. Ao tôpo da cruz, desenhada a sangue, esta ironia:—Portugal, rei do Oriente!—Expele o seio do mártir um ai agudo, lança angustiosa de varar infinitos. E a Dôr o exalta, a Dôr o diviniza: É de alabastro o corpo macerado, as longas barbas ondeantes de luar choroso, e os olhos fundos e proféticos, duas cavernas de noite, com estrêlas. Á volta, os verdugos tripudiam e cantam. Bôcas aguardentadas rugem blasfêmias e sarcasmos. Atiram-lhe pedras, que se convertem em rosas. Atiram-lhe estêrco, e chegam-lhe lírios e açucenas. Os cães, furibundos, pulam em vão, desaustinados, a ver se o mordem; e, insaciáveis, abocanham o toro do madeiro, lambendo ávidamente o sangue fresco a gotejar. Depois, escumantes de raiva, ladram à cruz, hienas possessas e diabólicas. Varreu a tormenta. A noite desmaia. Já os aventureiros, levando os cães, embarcam na galera. Os olhos do moribundo pairam em volta, suplicantes. Cemitério deserto. Ninguêm. Campos revoltos, carcavões tenebrosos, ossadas de penedias, um castelo derruído fumegando, esqueletos de gente em esqueletos de árvores, terra de pavor, terra de morte, onde a única vida, bruxoleante, é uma agonia numa cruz. Quási a expirar, soltando um gemido:

Pranto, que manas dos meus olhos,
Bemdito és!
Bemdito és, porque és o mar de pranto
Que os meus crimes verteram pelo mundo…
Sangue a correr das minhas f'ridas,
Bemdito és!
Bemdito és, porque és o mar de sangue
Do meu orgulho e minha iniquidade…

Súbito, numa visão interior, descobre em roda dele as nações armadas, cêrco de lôbos à volta duma presa. Já no estertor, agonizando:

Deus! abandonas-me!…

Expira. Clareia, roxa, a manhã de Novembro, triste lençol de misericórdia, a que limpassem forcas ou calvários. Um aldeão senil e vagabundo, caminha ao longe, trôpegamente, como um fantasma, em direcção à cruz. Rôto, cheio de lama e de sangue, no bordão aos ombros uma taleiga, e, escondida no peito, aninhada nos braços, uma criancinha forte e luminosa. Vélho e doente, perdeu-se de noite na debandada trágica, não alcançou o navio, já o não enxerga… onde irá êle!… onde irá êle!… Por montes e mares circundeia os olhos, enublados de horror, desorbitados de loucura… Ninguêm! ninguêm! ninguêm! Campos desertos, ondas sem uma vela, e nos bosques, mirrados, sem uma fôlha, carcassas pútridas… ninguêm!… Dum povo exilado ficára êle só, cadáver ambulante, espectro bisonho, a chorar num ermo, com o seu netinho nos braços. Aproximando-se da cruz, reconhece o doido, o estranho doido inofensivo, que a horas mortas vagueava, ululando, por cerros e quebradas, e a quem êle tantas vezes, benignamente, dera agasalho e dera pão. Quem o crucificou?!… Porque seria?!… Mete mêdo e respeito… Que estatura de homem!… que gigante!… Morto, semelha um Deus!… E, fronte descoberta,—Avé-Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bemdita sois vós entre as mulheres…—E os olhos da criança devoram a cruz, estrêlas inocentes, cheias de angústia e cheias de alma… Há naquele olhar uma inconsciência misteriosa, que adivinha… Luz enigmática, vem de longe, do fundo do passado, morrendo ao longe, em sonho, nas obscuridades do porvir… Esse vélho fantasma, com êsse menino ao colo, lembra a derradeira árvore dum bosque, árvore núa e carcomida, com uma florinha última no tronco. Flor de morte!… flor d'esp'rança!… Nasceu dum cadáver, e dela se hão-de gerar, talvez, os rumorosos bosques de àmanhã!… O aldeão, assombrado, meio louco, procura o castelo do rei… evaporou-se… já o não avista. Em frente, na montanha, só lavaredas e ruínas. Vai descendo, descendo, descendo, e lá ao fundo estaca de improviso, inclina-se, e vê no chão, abandonada, uma arma guerreira. É o montante de Nunalvares. Empolga-o a custo. Os braços da criancinha estendem-se com avidez, numa alegria doida… Nobre montante, qual o teu destino? Sulcarás, relha de arado, a gleba deserta dêsse camponês? Nas mãos dessa criança, um dia homem, brilharás acaso, espada de fogo e de justiça? Mistério… mistério… Invisivelmente, saùdando a luz, as cotovias gorgeiam…

FIM