NOTAS

[1] Frontespicio linha 11 e pagina 4 linha 3.

Oito centos e tantos, deveria o autor dizer.

[2] Frontespicio linha 16.

Sessenta--Barbosa na Bibliotheca Lusitana diz--setenta.

[3] pagina 5 linha 10.

A chronologia indicada no titulo do presente opusculo é clara e positiva, mas como concilial-a com esta do texto? Como explicar tal divergencia em obra de tão pequeno folego? Em todo o caso, esta é a preferivel por mais explicita e naturalmente mais pensada. Assim teremos para data da colonisação referida o anno de 1525, aproximadamente.

[4] pagina 5 linha 10.

O padre Antonio de Carvalho na sua Corographia portugueza, tom. 1.o pag. 182, (2.a edic. Braga 1868) e tom. 1.o pag. 205 da 1.a edição tratando da Comarca de Viana, diz, a proposito da freguezia de S. Julião de Moreyra, concelho de Ponte de Lima, o seguinte:

«N'esta freguezia é a casa do Outeiro, solar dos Fagundes, cuja familia tem dado pessoas grandes de que descendem muitos fidalgos, e foram os primeiros que com gente de Viana descobriram a Terra Nova, e que n'ella tiveram fortificação de que eram senhores, e por sua conta corria a pesca do bacalhau em quanto Inglatterra a nao tomou.» Conforme o mesmo autor, os Fagundes alliaram-se com os Pereiras Pintos de Bretiandos. A pag. 14 do Theatro Geneologico de D. Tivisco Nazáo Zarco etc. igualmente se diz João Alvares Fagundes, Capitão da Terra Nova.

A representação d'estas familias está hoje no senhor conde de Bretiandos.

Existirão ainda no archivo d'esta casa memorias ou documentos relativos aos factos que aponta o autor supracitado?

[5] pagina 6 linha 1.

Sem pertender-mos alterar a denominação actual d'esta ilha, nem a esta indicar nova origem, lembraremos comtudo a proposito da palavra britão a seguinte passagem da Azurara, na Chronica de Guiné, pag. 304:

«E porque em terra eram tantos d'aquelles Guineus, que por nenhum modo podiam sahir em terra de dia nem de noite, quiz Gomes Pires mostrar que queria sahir entre elles por bem; e poz na terra um bollo e um espelho e um folha de papel no qual debuxou uma cruz. E elles quando vieram, e acharam alli aquellas cousas britaram o bollo e lançaram-no a longe, o com as azagaias atiraram ao espelho até que o britaram em muitas peças e romperam o papel, mostrando que de nenhuma d'estas cousas não curavam.»

[6] pagina 6 linha 6.

Ainda que o autor só genericamente diz que reforçaram a colonia alguns casaes tomados de passagem nas ilhas dos Açores, parece-nos que o seriam unicamente na ilha Terceira, pelas estreitas relações de familia e de commercio que então havia entre ella e Viana.

A provincia do Minho foi das que mais concorreram para a colonisação d'aquella ilha. Sam diversas as antigas familias terceirenses procedidas e ligadas com familias de Viana. D'ali veio Rodrigo Affonso Fagundes, da propria casa do Outeiro, e delle procedeu larga e mui distincta posteridade. Sua terceira neta Beatriz Fernandes de Carvalho, casou em 1546, com Pedro Pinto, de Viana; casa depois ali denominada da Carreira, e hoje representada pela exm.a senr.a D. Maria Izabel Freire d'Andrade, de Lisboa, que por via d'aquella alliança ainda hoje possue n'aquella ilha e na de S. Jorge uma grande casa.

O mesmo sr. conde de Bretiandos ainda hoje possue casa na Terceira, procedida de D. Maria de Souza mulher de Damião de Souza de Menezes, irmã de Gonçalo Vaz de Souza instituidor sem geração filhos ambos de Antonio de Souza Alcoforado e de Cecilia de Miranda da Ilha Terceira.

[7] pagina 7 linha 3.

João Affonso. É este nome bem conhecido na historia maritima de França, como marinheiro, hydrographo e geographo. Deixou uma Hydrographia ms., hoje existente na Bibliotheca Nacional de Paris. D'ella se publicou um extracto em 1559, tempo em que já era morto o autor, com o titulo de--Voyages aventureux du capitaine Jean Alphonse, Saintongeois.--Foi em Saintonge, perto de Cognac, que elle estabeleceu o seu domicilio; d'ahi o appellido de Saintongeois com que o vemos tratado depois de sua morte, qualificação que ficou servindo de titulo á pertenção franceza de o haverem por seu conterraneo.

Léon Guérin, tratando de João Affonso no seu livro intitulado--Les Navigateurs Français,--não occulta que Charlevoix «por falta de estudo a este respeito, e depois d'elle muitos autores francezes, dizem ser nascido em Portugal ou na Galliza, asserção esta, de que os estrangeiros e em particular os portuguezes, altivos por sua antiga gloria maritima, se assenhorearam para juntar este navegador aos que illustraram o seu paiz.»

Charlevoix viveu nos annos que decorreram de 1682 a 1761. As suas obras sobre as colonias e marinha de França demonstram bem que lhe não faltou estudo sobre a historia maritima do seu paiz. Não era elle homem que ignorasse a publicação das Viagens aventureiras de João Affonso, nem o tratamento de Saintongeois que no titulo d'ellas lhe deu o editor, e que de leve privasse a sua patria da maternidade de tão illustre filho.

Um escriptor mais recente, o sr. Pierre Margry, no seu trabalhado livro--Les navigations françaises--consagra a este navegador uma boa parte da sua obra. Nem um palavra, porém diz sobre a questão da sua nacionalidade. Para o autor, João Affonso é seu e todo seu.

Teve, porém, o sr. Pierre Margry o cuidado de informar de espaço os seus leitores da Hydrographia de João Affonso, exhibindo extratos e offerecendo juizos, que acceitamos, sobre os logares que João Affonso descreveu por observação propria. Por ali vemos que quanto diz respeito ao Mar Roxo, costas do Malabar e de Malaca, e mesmo além d'esta, foi felizmente percorrido, examinado, e descripto por João Affonso.

Ora, é de notar que João Affonso escreveu o seu livro nos annos de 1544 e 1545.

Até áquelles annos os nossos escriptores das cousas da India apenas mencionam a ida áquelles mares e regiões de tres navios francezes, no anno de 1527, procedidos de Dieppe; um aportou na ilha de S. Lourenço (Madagascar); outro commandado por Estevão Dias, o Brigas de alcunha, portuguez, que por travessuras que havia feito no Reino se havia lançado em França, chegou a Diu na entrada de junho d'aquelle anno, onde depois de obter seguro do mouro capitão da cidade, foi com todos os seus prezo e mandado ao Sultão Badur, acabando ali miseravelmente, como contam Barros, e Mendes Pinto na sua immortal «Peregrinação,» cap. 16 e 20.

A terceira, commandada por outro portuguez, o Rozado, natural de villa do Conde, foi perder-se na costa occidental de Çamatra em uma bahia perto de Panaajú, cidade do rei dos Batas, que d'elle houve alguma artilharia.

Nota a historia de França ainda, no anno de 1529, uma segunda expedição áquellas regiões, a qual sahida de Dieppe tambem, tinha por termo as Molucas, e por commandante João Parmentier que foi morrer na mesma costa do sul de Çamatra, pelo que ficou mallograda a expedição e o navio voltou d'ali a França.

Se a historia da nossa dominação no Oriente não fosse bastante, apontariamos o occorrido em Diu ao Brigas, para mostrar o perigo de qualquer navegação europea isolada e trato com os povos d'aquellas regiões, por aquelles tempos.

Por outra parte o zelo e vigilancia do Governo Portuguez em repellir d'ali o concurso de qualquer outra nação da Europa não podião então ser excedidos; as instrucções secretas e verbaes dadas a Nuno da Cunha ao ir governar a India assás provam o que levamos dito. Veja-se Sousa, nos Annaes de D. João III.

A passagem de Portuguezes conhecedores das nossas navegações e conquistas ao serviço de França era então mui frequente, uns por despeitados e mal premiados se passavam; outros captivos por corsarios francezes, que desde o reinado de D. João II, e por todo o de D. Manuel e D. João III infestaram as costas do reino e os mares dos Açores.

O governo Francez (em nome da liberdade dos mares!!) favorecia desfaçadamente taes actos.

O caso occorrido com D. Pedro Castello Branco e com Francisco I de França, narrado por Couto, mostra bem as ideas d'este monarca sobre taes actos. D. Pedro roubado por corsarios francezes ao voltar da India, foi a França reclamar a sua fazenda. Francisco I não teve pejo de uzar á vista d'elle d'umas estribeiras e d'uns anneis pertencentes á fazenda que fôra roubada. D. Pedro á vista das negativas e despejo d'el-rei, o teve tambem de lhe dizer que aquellas estribeiras de que elle usara no dia anterior, e aquelles anneis que elle tinha nos dedos, os mandara elle D. Pedro fazer e eram fazenda sua.

Por estes meios foram os francezes, desde o começo das nossas navegações longiquas, senhores dos nossos roteiros, cartas e diarios maritimos, marinheiros e pilotos.

Como dissemos, o sr. Pierre Margry reconhece que João Affonso descrevera por observação propria, o que o mesmo João Affonso confessa nos extractos offerecidos por aquelle sr., o Mar Roxo, as costas do Malabar e de Malaca.

Ora, perguntaremos em boa consciencia ao sr. Pierre Margry, fez João Affonso esses exames n'aquelles mares e regiões ao serviço de França? O que o levaria ao Mar Roxo, onde os nossos capitães só então iam com fins puramente militares? Acaso já teria então o seu Governo vistas sobre o córte do Suez e a navigabilidade d'aquelle mar?!!

Quem lhe daria a audacia de examinar no serviço de França, as costas do Malabar e as de Malaca, então os logares mais frequentados pelos portuguezes?

Nós não hesitamos, nem comnosco os que tiveram alguma idéa da nossa dominação na India por aquelles tempos, em affirmar que as navegações de João Affonso por aquellas regiões só poderiam ter logar ao serviço do Portugal, sua patria, e nunca jamais ao de França, onde depois se lançou. Tão longa, minuciosa, feliz e então ignorada e não sabida navegação ao serviço de França é inadmissivel e insustentavel.

João Affonso foi um portuguez lançado em França; assás o temos demonstrado.

A historia vem ainda em auxilio da nossa argumentação, mas a historia irrefragavel.

Não é nenhum escriptor vaidoso das nossas glorias maritimas que se aproveitasse da sinceridade de Charlevoix, quem nol-o affirma. É, nem mais, nem menos, o nosso querido frei Luiz de Sousa, escriptor muito anterior a Charlevoix, quem nol-o diz nas seguintes palavras, fallando, em suas memorias e documentos para os Annaes de D. João III, ao anno de 1533. «Por carta de Elrey, de 3 de fevereiro de 1533, consta de um João Affonso que andava levantado com francezes; e que no mesmo tempo andava Duarte Coelho com armada na costa da Malagueta, e que el-rei lhe mandava que viesse a esperar as naus da India».

Por aqui vemos mais que João Affonso se tinha ao serviço de França tornado respeitavel a Portugal. Na verdade as queixas do nosso Governo contra elle, chegaram a obrigar o Governo Francez a tel-o por algum tempo preso em Poitiers.

Fique, pois, João Affonso d'hoje em diante havido por portuguez, porém não na lealdade, e sirva a qualificação de Saintongeois, que elle jámais usou, mas que lhe foi dada depois de morto, apenas para indicar que elle tomára por patria adoptiva Saintonge; ou então sirva para mostrar o quanto os francezes de então, como os d'hoje, o ambicionavam seu, e o pouco escrupulo em forjar os meios de prova com que podessem sustentar suas aereas pertenções.

Terminando este artigo da presente carta, lembraremos a grande possibilidade de encontrar na propria Hydrographia manuscripta de João Affonso a confissão da sua qualidade de portuguez.

O silencio do sr. Pierre Margry, no extracto que d'ella offerece, á cerca dos portos e costas de Portugal, confessamos que nos parece bem suspeitoso.


Extracto da carta ao ex.mo redactor do--Jornal do Commercio--José Maria Latino Coelho, por João Teixeira Soares. Sobre a qualidade de portuguezes de tres grandes navegadores do seculo XVI; João Affonso ao serviço de França, João Fernandes e Pedro Fernandes de Queiroz, ao de Hespanha. Publicado nos folhetins do--Jorgense--n.os 90 e 91 de 1875.