NOTAS DE RODAPÉ:

[51] Em os numeros de 7 e 8 de abril de 1901.

[52] Estas iniciaes são as do nome de Diogo Henriques Bettencourt.

[53] Os ciganos de Portugal, pag. 221.

[54] Os excentricos do meu tempo, pag. 289.

[55] Amores de Vieira Lusitano, pag. 129.

[56] Pag. 237.

[57] Photographias de Lisboa, pag. 64.

[58] Vol. 13.ᵒ, vocabulo Vimioso.

[59] Estes factos foram por mim recolhidos da tradição oral e contados n’um folhetim do Diario de Noticias, de 12 de junho de 1893,

[60] C. Castello Branco, Sentimentalismo e historia, pag. 70.

[61] Hist. Gen. tomo X, pag. 756-757.

[62] Por carta regia de 10 de março de 1716. Hist. Gen., tom. X, liv. X, cap. XI.

[63] Tom. III, pag. 27.

[64] Francisco José Freire escreveu o elogio do 2.º marquez de Valença. Foi publicado em 1749.

[65] Dic. Bibl. tom. V, pag. 74. Entre as outras obras merece especial menção a Instrucçam que dá a seu filho segundo D. Manuel José de Portugal, fundado nas acções christãs, moraes e politicas dos ecclesiasticos que teve a sua familia. Lisboa, 1744.

[66] Dicc. Pop., vocab. Vimioso.

[67] Dicc. Pop., vocab. Vimioso.

V
Fados de nomenclatura—Fados litterarios

Sobre esse fundo de singeleza e espontaneidade, que tanto caracterisa a lettra e a musica da maior parte dos nossos Fados, lembraram-se alguns trovistas de bordar complicados floreios de palavras, procuradas com esforço e artificio, laboriosamente.

Assim como o rythmo musical foi asiaticamente ornado com variações pretenciosas, que rendilharam de laçarias difficeis a ingenuidade inicial do Fado, tambem a lettra, a glosa, se enredou em extravagancias e boleios exoticos de linguagem, parallelamente.

O espirito humano parece enfadar-se da simplicidade, que se lhe torna um ramerrão fastidioso, e d’ahi provéem os excessos e requintes com que arrebica as modas e exaggera os figurinos, tanto para vestir o corpo como o pensamento.

Os amphiguris, que ainda estavam em voga quando o Fado, singelo e corrido, os rechaçou como velharias[68], vieram mais tarde a reproduzir-se, em differente métrica, mas com o mesmo intuito de jogos malabares de phrase, nos Fados exdruxulos, nos Fados enygmaticos, nos Fados de trocadilho e nos Fados tautophonicos (repetição).

É claro que toda a naturalidade da poesia popular foi estrangulada n’estas tentativas de habilidosa gymnastica, algumas mais felizes do que outras; mas a alma de um povo não se torce facilmente, como vara tenra, nas manifestações da sua sentimentalidade espontanea e nativa.

Essas tentativas passam, e a indole fundamental do Fado permanece a mesma.

Os Fados exdruxulos, bem como todos os outros em que o artificio predomina, podem ser admirados quando o mereçam, como esforço de paciencia; mas só isso, porque não encontram ecco dentro do nosso coração, nem affectuosa adhesão no nosso espirito e memoria.

Pode achar-se-lhes mais ou menos graça, mas não se lhes encontra sentimento, e a poesia do povo só vive á custa das suas proprias emoções.

Exemplo de Fado exdruxulo:

Eu zombo d’homens teutonicos,

Eu zombo dos argentarios,

Eu zombo dos pythagoricos,

Eu zombo dos uzurarios.

Eu zombo dos dialeticos,

Eu zombo até dos sophisticos,

Eu zombo dos casuisticos,

Eu zombo já dos magneticos;

Eu zombo dos cynegeticos,

Eu zombo dos bons euphonicos;

Eu zombo dos sons harmonicos,

Eu zombo dos bons topasios,

Eu zombo dos taes pascasios,

Eu zombo d’homens teutonicos.

Eu zombo já dos grammaticos,

Eu zombo dos elegiacos;

Eu zombo d’esses syriacos,

Eu zombo dos esquipaticos;

Eu zombo até dos didacticos,

Eu zombo dos santanarios;

Eu zombo dos proletarios,

Eu zombo dos economicos;

Eu zombo dos pobres comicos,

Eu zombo dos argentarios.

Eu zombo dos privilegios,

Eu zombo dos sacrificios;

Eu zombo dos artificios,

Eu zombo dos sortilegios;

Eu zombo dos sacrilegios,

Eu zombo dos taes historicos;

Eu zombo dos allegoricos;

EU zombo até já dos clinicos;

Eu zombo dos proprios cynicos,

Eu zombo dos pythagoricos.

Eu zombo dos pathologicos,

Eu zombo dos fidelissimos;

Eu zombo dos modestissimos,

Eu zombo dos mythologicos;

Eu zombo dos pedagogicos,

Eu zombo dos breviarios;

Eu zombo dos perdularios,

Eu zombo dos cabalisticos;

Eu zombo dos humoristicos,

Eu zombo dos uzurarios.

Exemplo de Fado enygmatico, em que é preciso interpretar o sentido das cacophonias:

Minha T-O-L-A.

Só tu és minha nini!

Manda carta p’lo correio

P’ra o teu querido K-H-I.

Dois é bis, potes bem juntos;

Não faças como o judeu...

Que por-K, gallos me deu,

Em lugar dos taes presuntos.

Despresa, pois, os assumptos

Da do-O, mais do-H;

Bem vês que, muito não ha,

Por te ver dias seguidos

Me constipei dos ouvidos,

Minha T-O-L-A.

Bem deves conjecturar,

Não sou nenhum-O-I-S,

Que eu te fiz d’amor a prece,

A ti só quero adorar.

Não te deixes ingrolar

P’lo francez do G-U I;

Meu amor é só p’ra ti.

Manda á fava o-R-I-R;

Muito embora o-M berre,

Só tu és minha nini.

Peço-te que a mal não leves

Se te escrevo p’la-B-U;

V-A-L conheces tu...

Bastantes penas lhe deves.

Entre questão d’almocreves,

Do teu porte não descreio;

Se o-K-I te dá receio,

Toma conta no-Q-V;

Não o dés ao-D-K-D,

Manda carta p’lo correio.

Põe p’ra amor sómente um-A,

P’ra conselhos um-C só,

P’ra doçuras põe um-Dó,

P’ra lamentos põe um-Lá,

P’ra familia põe um-Fá,

P’ra o que te respeita-Mi,

P’ra situação põe um-Si,

P’ra que não te façam-Ré,

Põe-n’a com Sol-de-Loulé,

P’ra o teu qu’rido-K-H-I.

Exemplo de Fado em trocadilho de homonymos:

P’ra que sinta bem a cinta

Não só no acto em que a ato,

No fio d’ella me fio...

Pois sou mui fatuo no fato.

Quem aos sessenta se senta

(Como a ama que não ama)

A chamma d’amor não chama,

Quando aos setenta se tenta;

Se venta, funga-lhe a venta

Quando pinta qualquer pinta:

Se eu fôr, na quinta, p’r’a quinta

Verei se a serra se cerra

P’ra que sinta bem a cinta.

A vella fez-se p’ra vella;

De massa se fez a maça;

Cobre-se a caça com cassa,

Na propria cella se sella:

Alguem p’la péla se pélla;

Eu cato os picos do catto.

Se mato as lebres no matto.

Sem anda tambem se anda;

Pois trago a banda p’r’a banda,

Não só no acto em que a ato.

Dou-lhe um laço muito lasso,

Da cota bem pago a quota:

E a bota que peso bota?

Asso o peito em peito d’aço;

A passo vou par’o Paço

Muito pio, sem dar pio;

Rio até do proprio rio;

Sou como o cura sem cura.

Se a dura espada me dura,

No fio d’ella me fio.

Carece o lente da lente,

Quando fita qualquer fita,

Se teve a dita da dita

Patente, que traz patente;

Se minha mente não mente,

O Tatto tem muito tacto;

Retrato-o, e não me retracto,

Pois papa as honras do Papa

Quem me capa mais a capa,

Pois sou muito fatuo no fato!

Exemplo de Fado tautophonico sem que a rima seja obrigada a exdruxulos:

Respeito o poder do gallo,

Respeito a voz do leão,

Respeito as têtas da vacca,

Respeito a pelle do cação.

Respeito o ferrão d’abelha,

Respeito as pennas do pato,

Respeito as unhas do gato,

Respeito as cans d’uma velha;

Respeito o vello da ovelha,

Respeito o nobre cavallo,

Respeito o rim-rim do rallo,

Respeito o fim da baleia,

Respeito a voz da sereia,

Respeito o poder do gallo.

Respeito o mau papagaio,

Respeito o bom pintarroxo,

Respeito a fórma do mocho,

Respeito o verde do gaio,

Respeito o fino garraio,

Respeito as pernas do anão,

Respeito os pés do pavão,

Respeito a velha serpente,

Respeito a lingua da gente,

Respeito a voz do leão.

Respeito a côr da rolinha,

Respeito o zum do bezoiro,

Respeito as armas do toiro,

Respeito o fel da pombinha,

Respeito o pôr da gallinha,

Respeito o mal da macaca,

Respeito o pello da alpaca,

Respeito a tal cegarrega,

Respeito o bico da pega,

Respeito as têtas da vacca.

Respeito as azas do grillo,

Respeito a feia minhoca,

Respeito o berro da phoca,

Respeito o vil crocodilo,

Respeito o curso do esquillo,

Respeito o ser tubarão,

Respeito os dentes do cão,

Respeito os coices da mula,

Respeito o gosto da lula,

Respeito a pelle do cação.

Entre os Fados de repetição merece menção especial o seguinte, que é, no genero, dos melhores e por ventura o mais litterario que conhecemos:

Alecrim é rei das hervas,

O ouro, rei dos metaes;

Rosa, rainha das flores;

Leão, rei dos animaes.

Deus é rei universal;

Homem, rei da creação;

Rei dos sabios, Salomão;

Rei dos sabores o sal;

Rei das mattas o pinhal;

Capitão, rei das catervas;

Virgem, rainha das servas;

Romã, rainha dos fructos;

O trigo é rei dos productos;

Alecrim é rei das hervas.

É o mar o rei das fontes;

Cruz, das armas é rainha;

Baccho é rei de toda a vinha;

O Sinai é rei dos montes;

O navio é rei das pontes;

Foi Adão o rei dos paes;

Coral rei dos mineraes;

Rei de amarguras o fel;

Rei dos doces é o mel;

O ouro, rei dos metaes.

Rei da riqueza o trabalho;

Aguia, rainha das aves;

Dó é rei dos sons suaves;

Rei dos martellos o malho;

Rei dos dentes é o alho;

O vinho, rei dos licores;

Cupido, rei dos amores;

Rei dos poetas foi Dante;

Rei das pedras o brilhante;

Rosa, rainha das flores.

Rei dos ventos é o norte;

É o sol o rei dos astros;

O traquete é rei dos mastros;

Rainha do pranto, a morte;

Rei dos dons é o bom porte;

Pena, rainha dos ais;

O ponto, rei dos signaes;

Rei das cannas o alcaçuz;

Rainha das cores, a luz;

Leão, rei dos animaes.

Lembrou, naturalmente, aos que procuravam esta estrondosa orchestra de palavras, que os glossarios ou nomenclaturas lhes podiam fornecer uma abundante mina, e trataram de exploral-a com os minguados recursos technologicos de que dispunham.

Exemplo de Fado mythologico:

Apollo o jogo talhava

N’uma casa de batota;

Cupido alugou um trem,

E bateu p’ra a Porcalhota.

Baccho estava sem dinheiro,

E combinou com Silvano

Para irem com Vulcano

Visitar qualquer banqueiro;

Foi o rancho galhofeiro,

Ao que mais perto ficava,

E quando na sala entrava

O ranchinho reinador,

Estendia-se o alvor,

Apollo o jogo talhava.

Minerva um cêrco fazia

Sobre um valete d’espadas,

Venus dobrava as paradas,

Sileno só recebia;

Neptuno sempre perdia,

Fauno fazia risota,

Marte saltou n’uma sôta,

Phebo jogava ao acaso.

Estava emfim todo o Parnaso

N’uma casa de batota.

Titão joga n’um valete,

Mercurio joga no az,

Cliópe só cêrcos faz,

Euterpe joga n’um sete.

Jove uma parada mette,

Plutão arrisca um vintem,

Esculapio já ganho tem,

E abandona a banca logo.

E co’o dinheiro do jogo,

Cupido alugou um trem.

Saturno vendo uma quina,

Saltou-lhe logo nos pés,

E fez cêrco sobre um trez,

Que lhe saiu papafina;

A Juno como é ladina

Não gostava da batota;

Deus Baccho, todo janota,

Contratou uma tipoia,

Deu o braço á lambisgoia,

E bateu p’ra a Porcalhota.

Exemplo de Fado botanico:

Nos espinhos d’uma rosa

Se feriu meu coração;

Não soltei nem uma queixa!

Muito póde uma paixão!

Eu sou bom floricultor,

Sou o rei dos jardineiros,

Tenho lá, nos meus canteiros,

Toda a casta, pois, de flôr.

Co’o meu grande regador

Lhes dou rega cuidadosa,

Quando a noite está calmosa,

Sem nenhuma m’escapar,

Mas senti-me espicaçar,

Nos espinhos d’uma rosa.

Caso novo foi p’ra mim,

Tal descuido desgraçado!

Tanta flôr tenho regado,

Sem jámais vêr coisa assim!

Com meu sangue, do jardim

Fui pingando todo o chão;

E, com folhas d’ensaião,

Estancava a hemorrhagia,

Pois, quem visse, julgaria

Se feriu meu coração!

Madre-silvas se sorriam,

De me vêr em tantas maguas;

E as devassas das anáguas

Grande troça me faziam!

Os chorões, esses carpiam,

Murmurando a sua endeixa,

Os geranios buscam reixa

Com seu riso impertinente;

Porém eu, por mais prudente,

Não soltei nem uma queixa!

Os martyrios suspiravam,

Tristes sempre, contrafeitos;

E os gentis amor’s-perfeitos,

Sempre bons, me lamentavam.

Por vingança já esp’ravam

Que eu, pegando no alvião,

Sem mais dó, nem compaixão,

Arrazasse todo o herbario,

Porém eu,—bem p’lo contrario!

Muito póde uma paixão.

Exemplo de Fado zoologico:

Faz o pombo—rú, tu, tú!—

Na certã enfarruscada.

É preciso ser bem má,

Nem me dás uma trombada!

Todo o gato faz—miau!

Quando chama p’la gatinha,

E, p’la fresta da cosinha,

Responde ella— renhaunhau!

Faz na rua o cão—bau, bau!—

O perú faz—glú, glú, glú!—

Só p’ra mim não fazes tu,

Por meu fado, e por meu mal,

O que á pomba, no pombal,

Faz o pombo—rú, tu, tú!—

Se a gallinha faz—cró, cró—

Logo o gallo arrasta-lh’ a aza,

E co’a crista toda em braza

Canta após—kó, kó, ró, kó!—

Dando ao rabo anda o tótó,

Atraz da cadella amada,

Só a mim não fazes nada,

Nem sequer uma omelêta

—Por que eu dou a pecholêta—

Na certã enfarruscada.

Vê tu bem como no estio,

Quando chega a noite escura,

’Té no meio da espessura,

Faz o triste môcho—pio!—

Espanando-se no rio

Faz o pato—quá, quá, quá!—

A perdiz faz—cá, cá, rá!—

Todos cantam seus amores,

Tu p’ra mim só tens rigores,

É preciso ser bem má!

Até mesmo o villão burro,

Nas manhãs de muita calma,

Á jumenta da su’alma,

Diz amor co’o triste zurro!

O javardo mais casmurro,

Chafurdando na enxurrada,

Faz—rom, rom!—e a porca amada

Animando vae co’a tromba!

Só teu peito de mim zomba,

Nem me dás uma trombada!

Esta especie de Fados valorisou-se pela intervenção de um estudante bohemio que, dispondo dos conhecimentos scientificos que ia adquirindo nas aulas, de veia poetica e de graça espontanea, lhes deu um caracter de rigorosa technologia ao mesmo tempo que um sainete espirituoso, alteando-se sobre as composições corriqueiras com que o povo pretendia invadir os dominios da sciencia.

Chamava-se Luiz Filippe Ferreira d’Almeida Mello e Castro, e era filho de Bernardino Antonio Ferreira e de D. Maria José d’Almeida Mello e Castro.

Nasceu em Lisboa a 21 de abril de 1844.

Um seu contemporaneo e amigo, Urbano de Castro,[69] traçou-lhe á penna o seguinte retrato, a meu pedido:

«Luiz d’Almeida era de estatura acima do regular; a não ser nos dias de desalento, que não eram muitos para o seu espirito naturalmente despreoccupado e alegre, desempenava a figura, e attraia a attenção das mulheres pelo seu porte garboso.

«Os olhos pardos tinham scintillações tão vivas, que muitos olhos negros os invejariam. Graciosissimo o sorriso, onde brincava a ironia. Raras vezes recorria ao sarcasmo. O seu coração era bom de lei.

«O bigode, castanho, não era propriamente o que se chama uma bigodeira, mas tinha alguma coisa de petulante, com as suas guias retorcidas, agudas, como pontas de lanças.

«A gesticulação era viva como a de um puro meridional.

«A voz agradavel, e punha-lhe um tic especial de graça o carregado do r.

«Quando lhe dava para janota, nenhum official o excedia no brilho do uniforme, na elegancia do porte, etc.»

Luiz d’Almeida matriculou-se na Escola Polytechnica em 15 de outubro de 1859.

Estouvado e folgasão, deu pouca attenção ao estudo das disciplinas que ali ia buscar para seguir o curso militar na Escola do Exercito.

Assim foi que ficou reprovado na 1.ª cadeira (mathematica) e que não fez exame da 5.ª cadeira (physica) nem do 1.º anno de desenho.

Sem embargo, tanto os seus professores como os seus condiscipulos reconheceram-lhe desde logo uma intelligencia penetrante e, tambem, um fina graça natural, que o tornava querido e procurado dos outros estudantes, os quaes o acclamaram chefe da bohemia academica.

Em 1860 repetiu o anno na Polytechnica, tendo obtido 12 valores em mathematica e 10 em desenho. De physica não fez exame.

Em outubro de 1862 matriculou-se na Escola do Exercito, como ordinario, com destino ao curso de infantaria.

Em 1863 fez exame da 1.ª cadeira a 22 de junho, e foi approvado com a classificação de sufficiente; exame de topographia, em 11 de julho, com igual classificação; e de sabre em 30 de julho, sendo approvado pela maior parte.

Matriculou-se pela segunda vez na Escola do Exercito em 14 de outubro de 1863, na mesma classe de ordinario, e fez exame do 1.º anno de desenho, obtendo a classificação de sufficiente.

Em 1865 voltou á Escola Polytechnica, onde se matriculou nas aulas de calculo, chimica mineral e economia politica.

O gosto pela bohemia havia-o empolgado completamente. Era o mais endiabrado dos estudantes nas folias do carnaval. E como guitarrista, nas serenatas ao luar, não havia quem o excedesse a cantar Fados de sua mesma composição, Fados scientificos, feitos com a nomenclatura das disciplinas em que se tinha matriculado, e de que elle apenas parecia disposto a colhêr a flor da graça.

Perdeu na Polytechnica, successivamente, trez annos lectivos, de 1865 a 1868.

Em 1869 pôde finalmente vêr-se livre do calculo, da chimica mineral e da economia politica, ficando approvado com 10 valores em cada uma d’estas cadeiras.

Mas não conseguira ainda desembaraçar-se do 2.º anno de desenho, em que ficou reprovado.

Relativamente ao anno de 1869, diz a nota que solicitei da Escola Polytechnica:

Matricula em 14 de outubro:

3.ª cadeira (mechanica) exame em 6 de julho de 1870: reprovado.

5.ª cadeira (physica) exame em 26 de julho: approvado com 10 valores.

Geometria descriptiva (1.ª parte) não fez exame.

Analyse e chimica organica, exame em 6 de maio: approvado com 10 valores.

Desenho (2.º anno) exame em 30 de julho: approvado com 10 valores.

Em outubro de 1871 voltou a frequentar a cadeira da mechanica, ficando approvado com 10 valores.

Tambem fez exame da 1.ª parte de geometria descriptiva, sendo classificado com 11 valores.

Intencionalmente publicamos estas indicações escolares, porque ellas mostram eloquentemente a feição bohemia de Luiz de Almeida.

Quando se propunha dar alguma attenção aos compendios, ainda que pouca, logo conseguia aproveitar o anno lectivo, sem cuidar de que outros menos intelligentes lhe passasem adeante com melhores classificações.

Mas, adeus livros, adeus aulas, quando a vida alegre e irrequieta o tentava, e os condiscipulos lhe punham entre as mãos a guitarra para que cantasse os seus Fados, que adquiriram grande voga entre todos os estudantes de Lisboa.

D’esses Fados, que merecem ficar archivados n’este livro, vamos dar trez specimens, em que esfusia a graça brilhante de Luiz de Almeida, e que representam a alliança da poesia popular com o vocabulario da sciencia n’uma expressão rigorosamente technica.


Fado mechanico

A gentil velocidade

Pôz-me o peito em movimento,

Ficando sempre constante

N’este intervallo de tempo.

Andava um ponto no espaço,

Pela calçada da Gloria,

Sem saber da trajectoria,

Com um V 0[70] pelo braço.

Vão ao Terreiro do Paço,

Affectando gravidade;

E encontram, ó f’licidade!

No caminho escuro e só,

A mulher do v² ρ[71],

A gentil velocidade.

Eis o plano projectado!

«Se não vem o F¹,[72]

N’um dôce impulso lhe imprimo

O meu amor retardado.

Vê lá tu, que espaço andado

Ella tem, n’este momento!

Lá vae... no prolongamento

D’aquella diagonal!

«Que pureza inicial!

Poz-me o peito em movimento!

«Pára, agora, em m...[73]

Ah! meu Deus, se ella me vê!

Ó cousa! espera um dt,[74]

Não te affastes d’esta linha.

«—Senhora, deusa, rainha,

D’este amôr, só, resultante,

Dê-me attenção n’este instante!...

—Então, senhor! o meu esposo!...

Deixe-me estar em repouso,

Ficando sempre constante.

«—Ai! meu Deus! que resistencia,

Que attracção, que força viva!

Gosto de a vêr pensativa...

Dá-me um beijo, v. ex.ᵃ?

—Senhor ponto, que insolencia!

De onde parte o seu intento?»

«—Senhora, o meu elemento

Nunca mudou de sentido

Eis que apparece o marido

N’este intervallo de tempo!


Fado chimico

O H nascente[75]

Decompoz a H²O[76] mãe.

Vejam que typo esquisito

N’uma familia de bem!

Sentiu-se a Ag[77] pejada,

E um sal precipitado

Quiz matar o namorado

Com quem estava combinada;

A K²O[78] electrisada

Diz que o corpo é innocente,

O CL,[79] já meio quente

Em presença d’uma hulha,

Faz sair com grande bulha

O H[80] nascente.

Assim que o gaz maganão

Se encontrou livre no ar,

Tratou logo de chamar

Perna torta a um syphão.

Houve grande reacção

Nos metaes, gente de bem!

Indo a cousa por além,

O que fez o tal demonio?

Foi buscar o Sb,[81]

Decompoz a H²O[82] mãe.

Não parou n’isto o tratante:

Com provas de malvadez,

N’uma retorta de grés

Prende o gaz oleificante;

Toma o poder descórante,

Ataca um hyposulphito,

De um tubo faz, logo, apito,

D’uma caldeira faz bumbo,

Dissolve as cam’ras de Pb[83]...

Vejam que typo esquisito!

Perguntava o sal marinho

«—Quem é este rapazote?»

«—É filho do pae Az,[84]

E tem o rabo em cadinho

«—Não ves n’aquelle focinho

A cara do pae, tambem?»

«—Mal sabe a prenda que tem,

Tendo um filho comburente,

Que serve de reagente

N’uma familia de bem!»


Fado mathematico

Um polynomio estranho

Foi o melhor da soirée,

No dia do baptisado

Da raiz do P. A. B.

Na funcção ás 10¹⁄₂

Apparecia o infinito

Vestido como um palmito

—Casaca, sapato e meia.

Uma curva muito feia

Pedia ao numero inteiro

Para servir de parceiro

Na partida ao voltarete

Á mulher do 3 × 7,

Polynomio extrangeiro.

O festim era imponente:

Tocava um factor commum

1, 2, 3, n + 1

Na corda d’arco tangente.

Valsava toda contente

A mulher do D. V. D.

Por signal passa-lhe o pé,

Escorrega e cai no chão.

Diz uma nimia fracção:

—Foi o melhor da soirée!

—Minha constante arbitraria,

Diz o termo tão ratão

Á gentil dona Equação

D’uma formula imaginaria:

«Que faz aqui solitaria

Com esse rosto córado?

Eu por si fico elevado

Ao 5.º grau de potencia.

Que valor tem Vossa Excellencia

No dia do baptisado!»

Uma differença finita

Polkava com todo o esmero;

Fazia tender p’ra zero

Um delta todo catita.

Uma esphera mui bonita

Mostrava a perna e o pé,

Emquanto o T e o Z,

Recostados n’um sophá,

Conversavam co’ o papá

Da raiz do P. A. B.

Este Fado appareceu no Almanach de Lembranças para 1890, pag. 472, assignado por José Carlos Lagrange (Lisboa).

Mas todos os contemporaneos e amigos de Luiz de Almeida lh’o attribuem.

Um d’elles, Urbano de Castro, veiu á imprensa reivindicar para esse inolvidavel bohemio, que tinha a especialidade dos Fados scientificos, a paternidade d’este Fado.

Essa reivindicação foi feita no Correio da Manhã, a cuja redacção pertencia então Urbano de Castro, que pessoalmente me confirmou este facto.

Luiz de Almeida tambem compoz um Fado dos vinhos, de que apenas conheço uma quadra, o mote:

O Collares foi-se casar

Com a genebra de Hollanda.

O Torres, que a namorava,

Ficou de ventas á banda

Sobre a vida airada de Luiz de Almeida são muito interessantes as informações que me forneceu o illustre professor, e meu amigo, Luiz Feliciano Marrecas Ferreira.

Recorto de uma sua carta os seguintes periodos:

«Namorou-se de uma rapariga, que andava n’um baile de mascaras, vestida á Luiz XV—a Peregrina—levou-a para casa, mas, como o dinheiro, mal chegando para o indispensavel, não era elastico, não lhe pôde dar outro fato, resultando d’ahi o ella ter de ir ao talho, ao vinho... ao diabo! invariavelmente vestida á Luiz XV.

«Teve amores com uma outra, que era hespanhola, e, como não soubesse a significação de varias palavras do idioma d’ella, resolveu-se a comprar um diccionario. N’um bello dia a mulher foge, elle quer-lhe ir no encalço, junta o pouco dinheiro que tinha e o que pôde realizar. Lá foi o diccionario para o prégo!

«Mostrando aptidão devéras para o estudo das cadeiras, que devia frequentar, pouco estudou durante largos periodos. Chegando a certa altura do anno, abandonava qualquer d’ellas e fazia um fado, onde revelava sempre com bastante espirito algum conhecimento do assumpto, não se lhe tendo nunca apontado um erro.

«Inventou a seguinte reacção chimica: «o alcool em presença do ether vinico perde uma molecula de agua e toma uma de vinho.» Se o alcool realmente toma, ou não, os sabios que digam, elle é que nunca deixava de tomar varias vezes por semana com uma frequencia bem assignalada pela policia e pelos numerosos amigos e companheiros.

«Depois de lauta ceia em casa de um titular, bastante conhecido (visconde de Trancoso?) foi passear com um amigo e já de madrugada recolheu a penates. Deu-lhe para molhar toda a gente, que passava pela rua, e da saccada do segundo andar, defronte da Polytechnica, foi deitando agua até que se lhe acabou—n’esse tempo não havia canalisação, vivia-se em pleno regimen de barril e aguadeiro—e elle foi-se resignando a assistir a sêco ao transito da rua. N’isto passa o antigo bando dos toiros: campinos a cavallo, uma charanga de barulho ensurdecedor, arruaça, garotos e não garotos a apanhar cartazes.

«Luiz de Almeida lembra-se de que ainda poderia haver alguma agua no fundo do pote, foi n’um pulo á cosinha, tira-o do poial e tral-o para a janella, onde o sacudiu a vêr se deitava alguma coisa, até que se lhe escapa das mãos indo cahir com grande estardalhaço n’um intervallo dos cavallos, partida esta que o levou á Boa Hora.

«Felizmente ninguem ficou ferido, e o pote, tambem como a taça do celebre rei de Thule, mereceu as honras de uns versos.

«No primeiro andar d’essa casa moravam as Manas Perliquetetes, n’essa época gente séria e recatada e só deixaram de o ser quando ao L. de Almeida passou pela cabeça—o que realizou—tornar-se seu perceptor.

«Quando não vivia em faux ménage, arranjava uma républica de rapazes, sendo então um verdadeiro inferno para os senhorios.

«No pequeno largo, entre a R. do Telhal e a de Santo Antonio dos Capuchos, morava n’um primeiro andar com o Alves (que morreu capitão de artilheria); o Anthero, do Porto; e o Thomaz Malheiro (engenheiro civil já fallecido). N’uma manhã põe escriptos nas janellas, apesar de nenhum d’elles ter feito tenção de se mudar; batem á porta, vae abrir a uns sujeitos que não conhecia, mostra-lhes a casa e leva-os para a cosinha depois de longo discurso sobre as vantagens e inconvenientes do que iam vendo, até que pôde fechal-os á chave. Os homens berraram, era uma bulha dos demonios na cosinha, os companheiros d’elle riam a bandeiras despregadas e o Luiz de Almeida vae pôr-se á janella a assoprar n’um apito até que veiu a policia libertar os presos, pregando com estes e com aquelle no Carmo.

«Já official de artilheria e no polygono de Vendas Novas deu largas á veia poetica e folgazã fazendo versos a tudo e a todos.

«Alli havia por esse tempo um tal Rodarte, com mania de caçador, mas sem a destresa necessaria para esse sport, o qual á volta do campo trazia sempre, ou quasi sempre, alguma caça comprada a um ferrador, que existia no caminho. Fez-lhe um dia varias quadras, sendo a primeira:

Ó Rodarte, Rodartinho,

Ó Rodarte, ó meu amôr,

Quando fôres caçar perdizes

Busca á volta o ferrador.

Como todos os bohemios, Luiz d’Almeida morreu em plena mocidade, crêmos que pouco depois do verão de 1872, sem que possamos designar com segurança a data do seu fallecimento.

Na academia de Lisboa, elle foi o mais completo exemplar do estudante-menestrel, errante de bairro em bairro, de rua em rua, a cantar o Fado ao som da guitarra dolente, por noites de luar, n’umas férias sem fim.

Sempre os moços souberam canções, porque amam as mulheres, a liberdade e a alegria, e porque, n’uma palavra, são moços. Os estudantes teem por si a tradição de poetas e namorados, que tambem é uma recommendação suggestiva. Lá diz a trova:

Se houver de tomar amores

Ha de ser com um estudante:

Ainda que não tenha dinheiro,

Tem o passear galante.

As suas canções (estudantinas), muito sentimentaes, prestam-se facilmente ao rythmo mavioso do Fado, para o qual elles compõem quadras de fino sabor litterario, que contrastam, pela elevação dos conceitos e pela belleza da fórma, com o Fado popular.

Em algumas localidades ha Fados escolares de classe, como, por exemplo, o Fado dos estudantes açorianos, que foi recolhido no Cancioneiro de musicas populares[85].

N’outras localidades, principalmente em Coimbra, cada estudante poeta dá largas ao lyrismo individual em quadras de Fado, que vão passando de guitarra em guitarra até se generalisarem na classe e depois no paiz.

HYLARIO

Hylario foi moderadamente o grande aédo do Fado escolar coimbrão.

Depois de Luiz d’Almeida não tinha apparecido ainda entre a classe escolastica de Portugal um mais notavel e mais errante cantor de Fados litterarios.

A sua vida foi ephémera, segundo a lei fatal dos bohemios; mas o seu nome ficou ligado indissoluvelmente á tradição nacional do Fado.

Chamava-se Augusto Hylario Costa Alves; mas o seu nome de guerra foi simplesmente «Hylario».

Elle conquistou a celebridade que dispensa appelidos e avós.

Era natural de Vizeu e surprehendeu-o a morte quando, através as delongas proprias da vida esturdia, frequentava o 3.º anno da faculdade de medicina em Coimbra[86].

Tinha sido nomeado aspirante a medico do ultramar.

Matou-o, na sua terra natal, uma doença do figado, cremos que cyrrhose, aggravada por um ataque de grippe.

Falleceu, estando em férias de Paschoa, no dia 3 de abril de 1896.

A sua morte causou sensação em todo o paiz, e o seu funeral teve aquella pompa solemne que costuma derivar da celebridade do morto.

Dizia um telegramma de Vizeu, dando conta d’esse triste acontecimento:

«VIZEU, 4, ás 7 h. 35 m. da t.—Hylario, o estudante bohemio que todo o paiz conhece, principalmente pelo seu fado popularissimo, soffria do figado. Foi essa a doença que o matou, consequencia de um ataque de influenza.

«O seu corpo foi velado em casa da familia, onde morreu, por academicos.

«O seu enterro realizou-se ás 6 horas da tarde de hoje. Vestiram-lhe o uniforme de aspirante de medico naval. Acompanharam varias irmandades e a banda de musica de infantaria 14, sendo a chave do caixão entregue ao coronel do mesmo regimento. Ás borlas pegaram os officiaes, sendo o feretro conduzido pelos estudantes do lyceu de Vizeu e dos cursos superiores das differentes escolas do paiz, que aqui tinham vindo passar as ferias da Paschoa.

«No cemiterio foram depostas oito corôas, sendo uma da familia, outra do curso do terceiro anno medico e as restantes de varios academicos e pessoas amigas do inspirado guitarrista.

«Pronunciaram discursos, quando o corpo baixou á terra, um estudante do lyceu d’esta cidade, dois estudantes de Coimbra e o advogado Alberto Ponces.

«A guarda de honra, porque o finado tinha honras militares como aspirante a medico naval, foi prestada á porta do cemiterio por uma força, que deu as trez descargas do estylo.

«A morte do pobre rapaz foi muito sentida em Vizeu.»—M.

Na população de Coimbra, habituada a ouvil-o, a manifestação de sentimento foi ainda maior talvez do que em Vizeu.

Um telegramma d’aquella cidade dizia:

«O academico Hylario era muito conhecido em todo o paiz pelos seus popularissimos fados. Em Coimbra deixa saudosas recordações. Seu genio jovial e tendencias bohemias deram-lhe grande prestigio e ascendencia na actual mocidade academica. Em Coimbra é sentidissima a sua morte.»

Todos os jornaes diarios do paiz se referiram largamente ao Hylario; alguns publicaram o seu retrato, esse conhecido retrato em que elle, de capa e batina, cabeça ao lado, olhos em extasi, dedilha na guitarra um dos seus Fados dolentes.

Lisboa conhecia-o, tinha-o ouvido; mas os seus Fados haviam chegado á capital primeiro do que elle.

Um jornal da epoca relembrou n’estes termos a sua vinda a Lisboa:

«Occorreram as festas em honra do João de Deus. Com a academia de Coimbra veiu Hylario a Lisboa.

«O rythmo inédito do seu fado ia então ter o ensejo de lançar o vôo e popularisar-se como se popularisaram os versos do grande poeta.

«A poesia e a musica do povo abraçavam-se ali, por um decreto do acaso, tendo surgido com o intervallo de trinta annos.

«Todos iriam decorar o fado do Hylario como haviam decorado as quadras adoraveis de João de Deus.

«O destino como que quizera tambem consagrar o grande poeta do amor inventando este bohemio legitimo, authentico como os dos lendarios tempos de João de Deus, para fazer perdurar, por uma musica grata ao povo, a lembrança d’aquella festa sympathica da mocidade.

«E assim foi.

«Durante trez noites Lisboa ouviu, altas horas, os accordes tristes da guitarra do Hylario e a sua voz potente a que elle imprimia um tom de melancolia estranha:

«Foge, lua, envergonhada,

Retira-te lá do céu;

Que o olhar da minha amada

Tem mais brilho do que o teu.

«Um dia, quando morreres,

Ó pomba dos meus anhelos,

Consente que eu vá beijar

As tranças dos teus cabellos.

«Da rua passou ao theatro. A não ser nas peças puramente academicas, estava deslocado n’aquelle meio. Tão legitimamente bohemios eram os seus fados, a sua maneira de cantar, que o effeito falhava todo como falharia um trecho de Mozart tocado n’uma baiuca de camareras.»

Em Vizeu sahiu a 12 de junho de 1896 o primeiro numero de um semanario imparcial, intitulado Hylario.

Declarava no artigo do fundo que o seu programma, alem de ser «uma consagração á memoria do que pode dizer-se o ultimo bohemio portuguez» era, conservando uma feição accentuadamente litteraria, empregar como armas de combate a satyra e a critica, com firmeza, mas com moderação.

Estampou o retrato de Hylario na 1.ª pagina, o seu retrato de estudante e de bohemio; e varios artigos commemorativos da sua morte.

Não sei se este semanario tem continuado, mas possuo o 1.º numero.

Quero ainda referir-me á saudosa necrologia entoada nos jornaes do paiz, para transcrever as palavras com que um d’elles rematava a apologia do mallogrado Hylario:

«É menos um doido no mundo, dizem as pessoas graves e de circumstancia. Mas essas pessoas graves não farão verter, muitas d’ellas, á sua despedida d’esta vida, senão lagrimas de cerimonia, ao passo que esse doido é a esta hora sinceramente pranteado por muitos corações juvenis das filhas do Mondego, que, fascinadas pela sereia da sua guitarra, corriam em Coimbra apoz elle como as antigas virgens romanas apoz os seus heroes, offerecendo-lhe o óbolo do seu primeiro amor.

«Meu coração é quadrante,

Quadrante do meu desejo:

Nas horas em que te vejo

Não marca mais que um instante.[87]

«Vivo de ti separado,

Escravo da minha dôr.

Com prazer manietado

Por élos do teu amor.

«Pobre Hylario! Parece que tinhas a previsão do teu fim tão rapido quando perguntavas:

«...E passo a vida tristonho

A cantar por não saber

Se a vida está só no sonho

E a realidade em morrer![88]

«O destino acaba de te dar resposta.»

Hylario cantava quadras suas e de outros poetas, taes como Guerra Junqueiro, Antonio Nobre, Fausto Guedes Teixeira, etc.

Proprias ou alheias, avultavam no seu cancioneiro estas lindas trovas galantes:

Nossa Senhora faz meia

Com linha feita de luz.

O novello é a lua cheia,

As meias são p’ra Jesus.[89]

O mar tambem tem amante,

O mar tambem tem mulher!

É casado com a areia,

Dá-lhe beijos quando quer.[90]

A minha capa velhinha

Tem a côr da noite escura.

N’ella quero amortalhar-me

Quando fôr p’ra sepultura.[91]

Ave Marias são beijos,

Padre Nossos são abraços.

Rosario dos meus desejos,

A cruz é abrires-me os braços.[92]

Tuas mãos são branca neve,

Teus dedos são lindas flores;

Teus braços cadêas de ouro,

Laços de prender amores.

Eu queria ser como a hera

Pela parede a subir,

Para chegar á janella

Do teu quarto de dormir.

Olhos verdes côr d’esp’rança,

Inconstantes, côr do mar.

Quem tem amor é creança,

Sou creança por te amar.

Ao lançar dos olhos meus

A rêde dos meus desejos

No lago dos labios teus,

Eu trago-a cheia de beijos.

N’esse teu labio vermelho

Ha risos do sol de agosto:

A alvorada é um espelho

Onde se mira o teu rosto.

Um canto ao vento fluctua,

Começa a aurora a cantar:

Ó vate, vai-te deitar,

Rasga o pandeiro da lua.[93]

Anda o luar prateando

Os ribeiros palradores.

O ar é quente, a seara

É como um ninho de amores.

Foge, lua, envergonhada,

Retira-te lá do ceu;

Que o olhar da minha amada

Tem mais brilho do que o teu.[94]

Tem o brilho das estrellas

E o fulgor dos arreboes.

Quem me dera com dois beijos

Apagar tão lindos soes!

Não ha saphiras mais bellas

Na grande concha dos ceus.

Pois se Deus quiz ter estrellas,

Roubou-as dos olhos teus!

Á porta do Infinito,

A traços largos, profundos,

A mão de Deus tinha escripto:

«Os teus olhos são dois mundos.[95]

Os teus olhos são escuros

Como a noite mais cerrada.

Apesar de tão escuros,

Sem elles não vejo nada.

Serve-te a madeixa negra

De moldura ao rosto franco,

Como se uma toutinegra

Pousasse n’um lirio branco.[96]

A lua tranquilla dorme

Na amplidão celestial,

Tal como perola enorme

N’uma concha colossal.

Ouvi dizer ao luar

Com trinados na garganta:

«Quem canta seu mal espanta.»

E eu puz-me então a cantar.[97]

Eu quero que o meu caixão

Tenha uma forma bizarra:

A forma de um coração,

A forma de uma guitarra.[98]

Guitarra, minha guitarra,

Solta teus ais, minhas queixas.

És tu a unica amante

Que por outro me não deixas.

Vai alta a lua, vai alta,

Brilha nos ceus, branca lua.

Vem tu vel-a, minha amada,

Illuminando esta rua.

A lua, onde os olhos fito,

A face em nuvens recaia,

Como lagrima de prata

Na palpebra do Infinito.[99]

Ás vezes quando, indeciso,

Me curvo p’ra o teu olhar,

Vem n’uma lagrima um riso:

Raio de Sol sobre o Mar.

Pequenas da minha terra,

Dou-vos canções, dai-me beijos.

A quem sua alma descerra,

Vai-se-lhe a alma em desejos.

Tenho já sêca a garganta.

E como é que isto é não sei.

Quem canta seu mal espanta...

Puz-me a cantar... e chorei!

Tu és o pomo vedado

Do Éden da minha vida;

Triste illusão do passado

Ao meu porvir transmittida.[100]

Ha malmequeres pelo ceu

—Esse azulino canteiro.—

A lua dá-lhes a côr.

É o sol o seu jardineiro.

Na noite do meu soffrer

Cheia de nuvens sombrias,

Ha o canto das nostalgias

Da minha alma a envelhecer.

Uma noite, no theatro do Principe Real, do Porto, Hylario improvisou esta quadra ás damas:

Ai! que lindas pombas brancas

Ha no Principe Real!

Quem me dera ser o pombo

Da que não tenha casal!

Depois conservou esta quadra no seu cancioneiro, modificando assim o segundo verso:

Vejo n’aquelle pombal!

Nas quadras que acompanham o Fado Serenata, publicado no Porto por Eduardo da Fonseca, vem uma que não é do Hylario, nem dos poetas seus contemporaneos:

Os teus olhos negros, negros,

São gentios da Guiné:

Da Guiné por serem negros,

Gentios por não ter fé.

Esta quadra é popular, e mais antiga. Já tinha saido no Cancioneiro de Theophilo Braga em 1867.

Ouvi cantar o Hylario no theatro da praia de Espinho, no verão, por occasião de uma récita de caridade que ali se organizou.

Cabeça pendida sobre o lado esquerdo, como para ouvir melhor o que dizia o coração, a sua voz soluçava requebrada n’uma especie de arroubo illuminado de inspiração.

Assistia a esse espectaculo uma menina portuense (J. L. R.) vestida de preto e toucada com uma rosa; Hylario improvisou em sua honra a seguinte quadra:

Ao vêr-te meiga e formosa

Nas tuas roupagens negras,

Eu cuido vêr uma rosa

N’um bouquet de violetas.

Hylario tencionava colligir as suas canções n’um volume com o titulo de Guitarrilhas.

É-lhe attribuida a musica de varios Fados.

O Catalogo geral alphabetico do Cancioneiro de musicas populares dá-lhe a paternidade de cinco, o que me parece exigir alguma correcção.

Indica os seguintes:

I—Cancioneiro, fasc. 16, «As Estrellas» 1.º fado. Recolhido em Coimbra, 1890.

II—Cancioneiro, fasc. 13, «A filha do Guadalquivir».

É com leves alterações o Fado que nós em Lisboa chamamos «do Roldão». O Catalogo diz ser o 2.º Fado do Hylario, mas o Cancioneiro annota a respectiva melodia dizendo: «Parece que a musa teutonica inspirava o melodista, que não temos o gosto de saber quem é[101]

III—Cancioneiro, fasc. 23. Fado serenata. Traz a designação de: Musica de Augusto Hylario.[102]

FADO SERENATA

[[audio/mpeg]] | [Download MXL]

Foi este que ouvimos ao proprio auctor em Espinho, e o que, de todos que elle indubitavelmente compoz, se tornou mais popular. Reproduzimol-o na pagina anterior.

IV—Cancioneiro, fasc. 34, «O Ultimo Fado», com a designação de—Musica de Augusto Hylario—e a seguinte nota: «Quando nas férias de 1895, Hylario se hospedou em uma dependencia do escriptorio da nossa Empreza, offereceu-nos esta composição dizendo-nos que era o seu ultimo fado, mas que tencionava addicionar-lhe algumas variações, e que reservassemos a publicação para quando elle as tivesse composto definitivamente.»

Tambem se popularisou este Fado, e por isso o reproduzimos.

O ULTIMO FADO

[[audio/mpeg]] | [Download MXL]

V—Cancioneiro, fasciculo 68. «Fada pósthumo do Hylario» com a seguinte annotação: «Este fado foi recolhido em Sinfães pelo ex.ᵐᵒ sr. dr. M. M. Castro Côrte Real, que nol-o enviou com a seguinte nota: «Fado do Hylario (ultimo). O fado (IV) que vem no Cancioneiro com a designação de ultimo é anterior a este. Este é que é geralmente conhecido pelo ultimo; sempre assim o ouvi designar aos estudantes coevos do grande bohemio. A lettra é do ex.ᵐᵒ sr. Luiz Osorio.»

Ora este Fado é o mesmo que no Porto foi publicado com o titulo de Fado do 28.

Pessoa auctorisada, por ser muito competente na materia, diz-me d’aquella cidade que o auctor foi o rapaz cego a quem me referirei no capitulo VI quando tratar do Fado do 28.

No Cancioneiro, fasciculo 60, vem outro Fado relacionado com o nome do Hylario: é dedicado á sua memoria e acompanhado da seguinte lettra:

Oh! Hylario, oh! Hylario,

Teu nome me dá paixão.

O teu fado faz vibrar

As cordas do coração.

Guitarra, minha guitarra,

Solta gemidos e ais;

Que os dias passam voando

E os prazeres não voltam mais.

Guitarras andam de luto,

Que o Hylario já morreu.

Seu corpo guarda-o a campa,

Sua alma voou ao ceu.

Oh morte, tyranna morte,

Eu de ti tenho mil queixas:

Quem has de levar não levas,

Quem has de deixar não deixas.

Diz a nota respectiva: «Este fado acha-se vulgarisado por todo o paiz com diversa lettra.»[103]

Na collecção de glosas de Fados modernos, vendida em Lisboa nos kiosques, sahiu um Fado para o Hylario, pranteando a sua morte.

Transcrevemos a ultima quadra:

Calem-se os sons da guitarra

Porque o Hylario morreu

E foi cantar serenatas

Ás virgens brancas do ceu.

O Hylario deixou escola em Coimbra, onde tem tido distinctos continuadores do Fado academico.

Um d’elles é o sr. Candido de Viterbo, que em 1899 compoz a serenatella para o Auto da sebenta, impressa (Coimbra, casa da viuva Paula e Silva) com outros Fados, a saber: Fado do Penedo da Meditação, Fado da Quinta das Lagrimas, Fado do Penedo da Saudade, Fado da Lapa dos Poetas, Fado da Fonte da Serêa.

O frontispicio, em lithographia, representa, alem de alguns trechos da cidade de Coimbra, o sr. Candido de Viterbo, de capa e batina, dedilhando a sua guitarra, sentado no alto de um penedo.

A lettra d’estes Fados pertence aos seguintes academicos: Augusto Gil, Lopes Vieira, Gomes Lopes, Antonio Macieira, Guedes Teixeira (Fausto Guedes), Teixeira de Paschoaes, Severo Portela, Humberto de Bettencourt, Pereira Barata, Marques dos Santos, Alberto Pinheiro, Mario Esteves e Dom Thomaz de Noronha.

Vamos dar alguns specimens:

De Augusto Gil:

Teus olhos, contas escuras,

São duas Ave-Marias

D’um rosario d’amarguras

Que eu reso todos os dias.

Canta mais devagarinho,

Viterbo, ao seu postigo.

Não sei porquê, adivinho

Que está sonhando comigo...

Donzellinhas, tomai tento,

Meninas, não vos fieis.

Cantigas, leva-as o vento,

Cartas d’amor são papeis.

Olhos negros de velludo

Heis de fazer-me doutor.

Sois os meus livros d’estudo

Na faculdade do amor.

Guitarra de luxo

De Lopes Vieira:

Adeus, rio, choupos, serra,

Adeus tudo, tudo emfim!

Donzellinhas d’esta terra,

Lembrai-vos por cá de mim.

Cantarei, na despedida,

P’ra onde me leva a sorte,

O fado da minha vida,

O fado da minha morte.

De Antonio Macieira:

Andam teus olhos perdidos,

Dizes, de tanto chorar.

Pois eu perdi os sentidos

De os andar a procurar.

De Fausto Guedes:

Deus que nos vê lá de cima,

Alma d’esta alma, querida,

Juntou-nos: somos a rima

Da linda quadra da vida.

De Teixera de Paschoaes:

Sepulturas de desejos

São teus labios ideaes,

Onde vão chorar os beijos

Mal empregados nas mais.

De Severo Portela:

A trança que tu me deste

É negra como o carvão.

De luto tu me vestiste

Dos olhos ao coração.

De Humberto de Bettencourt:

Perdido todo o juizo,

Ia morrendo d’amores:

Pôde mais um teu sorriso

Que a sciencia dos doutores.

De Pereira Barata:

Não tenho de ti reserva

Pelo mal em que me deixas:

Por mais que se pise a herva,

Nunca á herva se ouvem queixas.

De Marques dos Santos:

Ó minha santa madrinha,

Isabel de Portugal,

Heis de me dar a mézinha

Que me livre do meu mal.

Dos Olivaes Santo Antonio,

Lá no alto idolatrado,

Fazei com que as lindas moças

Me tenham todas de agrado.

De Alberto Pinheiro:

Ó Senhora da Bonança,

A quem eu reso a chorar:

Olhai pela minha amada,

Que anda sobre aguas do mar.

Dos meus anneis o mais lindo

Vos darei quando voltar,

E em vossa capella branca

Com ella me irei casar.

De Mario Esteves:

Senhora da minha vida,

A trança deitai-a ao vento,

Que quanto mais desprendida

Mais me prende o pensamento.

De Dom Thomaz de Noronha:

Nos teus seios de luar

Derrama-se o teu cabello,

Como uma aurora a brilhar

Sobre montanhas de gêlo.

Foi Coimbra que deu ao Fado a alta cotação litteraria, que elle tem hoje nas serenatas academicas.

Muitas d’essas quadras, que ahi ficam relembradas, são poemas encantadores, doloras suavissimas, verdadeiras obras d’arte em miniatura.

Não conheço na poesia popular dos outros paizes, e não a conheço mal,[104] perolas de mais subida concepção poetica do que a maior parte d’essas quadras que pareciam sair da bocca do Hylario como um bando de queixumes estonteados, que algum temporal de amor tivesse desaninhado da alma dos poetas.

De mais a mais o Fado, transplantado litterariamente para Coimbra, não soffreu uma deslocação violenta como quando entrou, producto exotico, nas salas de Lisboa, e passou da guitarra ao piano.

Em Coimbra elle tem conservado toda a sua amargura dolente, continua a ser, na voz dos estudantes, o hymno da desgraça, não da que se debate em abysmos de miseria social, mas em tormentos, certamente exagerados, de amor e de saudade.

Prevalece integral no Fado de Coimbra a mesma feição psychica de soffrimento e angustia com que nasceu o Fado de Lisboa.

Não tem a desnatural-o a garridice frivola das salas, a inconsciencia musical com que elle é martelado nos pianos alfacinhas sem uma parcella minima de senso esthetico e de vibração emotiva.

Em Lisboa alguns poetas «novos» teem seguido o exemplo dos de Coimbra, dando ás coplas do Fado uma expressão accentuadamente litteraria.

Guitarra commum

Do sr. Ribeiro de Carvalho citarei os seguintes.