VIII
Mau é brincar com fogo: o incendio irrompe.
O amigo da casa começou a fazer reparo nas graças da menina, e achou que tinha os dentes alvissimos, os olhos formosos, os cabellos soberbos.
A menina, por sua parte, entrou de deixar-se influenciar agradavelmente pela amena eloquencia do unico homem estranho que fallava n'aquella casa.
Era elle o unico orador dos serões intimos; a unica voz que sobrepujava o fremito das cartas na mesa do voltarete.
Depois a menina lisongeava-se de que um homem, que tinha corrido o mundo, e conhecido mulheres celebres por talento e formosura, a conceituasse intelligente e gentil.
Estava-se preparando n'aquelle seroar despreoccupado a ruina de Troya.
O apartamento é um mau systema de educação. A borboleta, que não conhece o perigo da chamma, arroja-se á luz.{34}
Era melhor tel-a avisado para que demorasse a morte quanto lhe fosse possivel.
Após as amabilidades vieram os galanteios, e após os galanteios as confidencias.
A menina ouviu e acreditou.
Começou-se a dizer por fóra que a menina era amada pelo morgado.
Só não o diziam, nem ouviam, os pais da menina e a esposa do morgado.
Decorreu tempo, e a menina deixou de sahir a passeio; ao mesmo tempo o morgado deixou de ser assiduo.
A menina fez-se triste; o morgado andava preoccupado.
Luctavam ambos com a resolução do mesmo problema: encobrir uma vergonha commum.
Foi n'essa epocha que o morgado teve de ir ao Porto por causa de pleitos que se ventilavam nos tribunaes.
Pediu-lhe a menina que a tirasse da casa paterna, antes que rebentasse o escandalo.
O morgado prometteu demorar-se apenas alguns dias no Porto, e voltar depois de recolhidas grossas quantias, cujo embolço dependia da solução do pleito, a seu vêr bem encaminhado, para se passarem ambos a Hespanha.
Houve porém uma camponeza que os viu estarem-se despedindo em logar afastado. Contou-o á noite á lareira. A revelação da camponesa espalhou-se. Chegou aos solares, e aos ouvidos da desventurosa esposa do morgado.
Pensou a infeliz senhora que poderia ainda atalhar o incendio, e mandou um portador com uma carta á mãe da menina.
Faltaram-lhe as forças para ir pessoalmente.{35}
Chegava o mensageiro a tempo que a menina estava chorando á janella do seu quarto.
O coração, que é sempre feiticeiro, adivinhou.
O mensageiro, que trazia recommendação, não fez caso.
Sahiu-lhe a menina ao encontro. Pediu-lhe com lagrimas nos olhos e na voz que lhe entregasse a carta e fosse dizer á morgada que a havia depositado nas mãos de sua mãe.
—Veja que me perde, podendo salvar-se com uma simples mentira! Se tivesse uma filha, seria mais clemente.
O mensageiro era pae: entregou-lhe a carta.
A menina leu-a, e cuidou morrer d'afflicção e vergonha.
Dizia a morgada que as senhoras da terra,—as quaes eram amantes de varios morgados casados,—já não levantariam o olhar, se a encontrassem nos caminhos, para a amante de seu marido.
Era um modo de dizer que o escandalo tinha estrondeado, e que Jesus Christo não voltaria mais ao mundo, porque nenhuma das voluntarias peccadoras se arreceiava de ser a primeira a apedrejar a peccadora incauta.
De feito, Christo ainda não voltou, nem já agora voltará, porque ainda os vendilhões da honra alheia entram ao templo da familia, e as mulheres adulteras erguem vozes e pedras contra a que resvalou para o abysmo em que ellas estão.
A menina tratou de emmassar as cartas do morgado e de metter no seio o bilhetinho que já tivemos occasião de lêr.
Esperou que fosse noite, e metteu-se a caminho.
Onde ia a pobresinha?
Procurar o morgado ao Porto.
Foi andando, andando, rasgando os pés nas burguas{36} das serras, rompendo a escuridão, arquejante, timida do menor ruido, resoluta da coragem que dá o desespero, até que, cerca das onze horas da noite, cahiu extenuada ao sopé das Victoreiras.
N'este lance entronca a minha primeira carta bastante a explicar o mais que se passou.
Como se vê, o morgado não estava prevenido da fuga da menina e sob a afllicção da surpresa escrevera as ameaças da primeira carta que recebi.
A gentil desconhecida, como a principio eu lhe chamava, tornou em si depois de empregados muitos esforços para reanimal-a. Meu tio padre, chamado por mim precipitadamente, encarregou-se do piedoso encargo de recolher a menina em sua casa, e de negociar a sua entrada no convento de *, onde se enclausurará depois que seja mãe.
O morgado, lendo casualmente no Porto uma das minhas cartas, publicadas no Primeiro de Janeiro, escreveu-me a impensada missiva e logo se deu pressa em partir, e em me convidar á entrevista que acceitei.
Tomará conta do filho, logo que nasça, e aproveitará decerto esta tremenda lição.
Ainda agora me não parece dislate repetir a pergunta: Morta ou viva?
Viva para si mesma, e morta para o mundo.
Que desgraça!
Ah! Christo não voltará outra vez; a ter de voltar, já se haveria amerciado de tantas miserias humanas!
FIM.