III

Alcobaça

Quando eu escrevi a Porta do Paraiso, que tão boa fortuna alcançou, como prova o facto de estar hoje em terceira edição, foi na villa de Alcobaça, á sombra do vetusto mosteiro cisterciense, que localisei o principio da novella, a qual depois se desdobra em Lisboa.

Clarinha era d'ali, d'Alcobaça, de cujos vergeis floridos eu fallei sem os ter visto. Foi em Alcobaça que lhe desabrochou no coração o primeiro amor, primeiro e unico de toda a sua vida, o que já então era raro e hoje é rarissimo. Eu não tinha visto os coutos pittorescos de Alcobaça, abundantes de fructas e aguas, de sombras e frescura, mas conhecia-os pela Alcobaça illustrada de Frei Manuel dos Anjos e pela descripção[{26}] oral, muitas vezes repetida, sempre calorosamente, de um rapaz que era d'ali natural e estava desempenhando no Porto o cargo de guarda-livros da Companhia Viação, a Entre-Paredes.

Ha quinze annos eu conhecia pouco o paiz: um bocado do Minho, outro bocado do Douro, e mais nada. O scenario de que podia dispôr era, pois, muito resumido, acanhado. Depois d'isso é que me pude dar o prazer de touriste, e hoje, com excepção do Algarve, conheço menos mal o paiz. A paizagem agreste do Douro abundava já nos meus primeiros livros, de modo que, posto curasse por informações, foi por amor da variedade que eu desferi vôo para Alcobaça a fim de pendurar nos seus arvoredos a minha novella, como um ninho de tristezas brandas, que a minha imaginação, timida andorinha, se propunha fabricar...

Quando se abre o livro, está-se em Alcobaça; assiste-se a um serão de Clarinha: o tio a um lado, a outro lado o primo revolvendo livros.

Não me demorei em pormenores de paizagem; descrevi-a em dois traços, de fugida, porque o que eu queria era achar um sitio de eleição, que fosse ameno e formoso, e cujo nome bastasse ser indicado para que se comprehendesse que n'esse meio geographico não podiam gerar-se caracteres abominaveis.

Eu sempre detestei... o abominavel, então e agora.[{27}]

Rodaram annos, estive de passagem n'outras localidades, bem menos agradaveis por certo, e sempre me ficava no fundo da alma, como uma violeta antiga, perdida entre as paginas d'um livro, o desejo saudoso (deixem-me dizer saudoso...) d'essa villa opulentamente fradesca, onde eu só mentalmente havia estado alguns dias, com Clarinha, com seu tio e com seu primo, assistindo em espirito a esses doces serões de provincia.

Foi só agora que pude apagar a saudade d'esse desejo.

Quando nas Caldas o revelei ao meu velho amigo Carrilho, elle, que tinha estado poucos dias antes em Alcobaça, disse-me com a sua habitual energia:

—Homem, amanhã, no comboio do meio dia, partimos ambos para Alcobaça.

—Mas lá perdemos nós uma tarde de aguas, e foi para tomar as aguas que eu vim ás Caldas.

Elle replicou:

—Tomaremos as aguas de manhã; de tarde tomaremos Alcobaça. Á noite estaremos a jantar nas Caldas, de regresso. Um passeio que se faz por gosto, vale por um bom remedio.

Fomos. Já tinhamos ido á Nazareth, o que quer dizer que já conheciamos a linha da Figueira até á[{28}] estação do Vallado. A surpreza, para mim, começava d'ahi por deante.

A planicie verdejante do Vallado, essa immensa campina plana como a palma da mão,—propriedade do snr. Manuel Iglesias,—era para mim o bello prologo da viagem a Alcobaça pela linha da Figueira.

O Vallado é realmente um sitio delicioso, vasto, lavado de um puro ar saudavelmente temperado com o oxygenio dos campos e o iodo do mar, que não fica longe. Principia ahi o grande pinhal de Leiria; uma guarda avançada de bastos pinheiros faz sentinella ao chalet encarnado onde reside um fiscal da matta. Ao longe, dominando a estrada da Nazareth, o morro de S. Bartholomeu, phantasiosamente recortado, com a sua ermidinha entalada entre rochedos, parece olhar desdenhosamente para a planicie infinita que se lhe desenrola aos pés, timidamente, longamente...

Do Vallado para Alcobaça ha diligencias, a tostão por pessoa. É preciso deixar passar o comboio para podermos atravessar a linha. Esperam-se cinco minutos, o comboio parte, e a diligencia do Gallinha parte logo depois do comboio.

A estrada é graciosa, alegre como um sorriso luminoso da natureza, feito de claridade e de verdura. A breve trecho estamos na Fervença, cujo nome provém[a]{29}] das suas aguas sulphurosas, e onde um velho portico de propriedade nobre me enleiaria o olhar, se não tivesse de voltar-me logo para vêr o edificio da fabrica de fiação e tecidos, estabelecida alli em 1874.

Sombras, frescura, agua, a flux,—uma estrada que mais parece uma avenida de recreio cortada atravez de uma floresta banhada por nascentes abundantes.

Avista-se Maiorga, avistam-se casaes alvejantes, frescos e claros, brilhando na palpitação suave da verdura, levemente batida por uma pontinha de ar refrigerante. A agua corre nos campos, em ondas de abundancia, entornando diamantes ao saltar de pedra em pedra, como uma princeza louca, que vae estragando thesouros. E o arvoredo põe no solo branco e crú grandes manchas de sombra, que parecem ligar-se caprichosamente pelos seus contornos irregulares, phantasticos.

Surge-nos á margem da estrada outra fabrica, de louça, dando-nos a conhecer que vamos entrando n'um concelho vitalisado pela industria, laborioso e rico. Depois as primeiras casas da povoação, brancas e baixas, enfileiram-se em linha, correndo a par da diligencia, e um palacio, dominador e vasto, abre á luz sobre a estrada as suas janellas em longas series parallelamente dispostas.

Vejo, de relance, sobre um cunhal de muro o letreiro[{30}] que diz: Rua de Frei Fortunato. E penso n'este nome. Emquanto a diligencia roda, lembro-me que aquella rua memorará frei Fortunato de S. Boaventura, alcobacense, miguelista acerrimo, polygrapho fecundo, author da Historia chronologica e critica da real abbadia de Alcobaça. E d'ahi talvez não seja; mas aposto que será esse mesmo, o de S. Boaventura.

A diligencia entra n'um triumpho de estrondo e poeira—egual a todos os outros triumphos—no Rocio de Alcobaça, e á nossa esquerda, como um leviathan de pedra, ferido pelo arpéo do vandalismo, o mosteiro avulta na sua vastidão enorme, fria e dura, remendado, propinado, cuspido na face vetusta pela antiguidade e pelo progresso.

A egreja, encravada no mosteiro, exhibe n'uma confusão chaotica os seus numerosos estylos architetonicos, especie de bric-á-brac de todas as grandezas de um passado extincto, e por entre as pedras e as imagens que negrejam como carvões contrastam remendos de cartão branco, farrapos de pedra nova, fazendo lembrar uma capa de pedinte pendurada do alto das torres, e aberta ao sol.

Imaginem que visitando um dia a feira da ladra se recordaram subitamente de D. Affonso Henriques ao vêr um capacete de armadura posto sobre uma farda de soldado da guarda municipal.[{31}]

Foi o que me aconteceu.

D. Affonso Henriques passou por ali, e plantou um mosteiro. Mas veio depois a invasão de Miramolim, e derrubou-o. Poz-se uma estaca á arvore partida, e a arvore renasceu. Vieram ainda depois os caprichos realengos, os accrescentos anachronicos, os terremotos, os raios, e D. Affonso Henriques, se voltasse a este mundo, não conheceria a sua bella arvore de pedra, plantada em honra de Nossa Senhora, por memoria do feito de Santarem.

Aberta a porta do templo, talhada em arcos ogivaes, as suas vastas tres naves alongam-se n'uma fria extensão silenciosa, e ao fundo a capella mór, em semi-circulo como todas as charolas das grandes basilicas, esfuma-se n'um como nevoeiro, que duvidosamente deixa entrever columnas e imagens.

Á esquerda, uma porta abre sobre a chamada casa dos reis, que se nos patentêa com os seus altos azulejos allegoricos, o seu caldeirão bojudo de Aljubarrota e as suas estatuas grotescas, de reis antigos, presididas por Affonso Henriques, recebendo a corôa, curvado aos pés de S. Bernardo, essa montanha de santidade, como lhe chamou frei Luiz de Souza.

Á ilharga de Affonso Henriques, n'uma prateleira, um pequeno busto, em gesso, de D. Pedro V, põe n'essa galeria de antigas estatuas de reis, modeladas[{32}] ao natural, uma nota acre do contraste moderno, mostrando como os reis teem ido perdendo na grandeza da sua exhibição...

Tudo o que em Alcobaça é moderno, é atroz: especialmente o vandalismo.

É verdade que os francezes roubaram todas as alfaias valiosas do mosteiro; que abriram sacrilegamente os tumulos de D. Pedro e de D. Ignez, para arrancar aos cadaveres as suas ricas vestes reaes; mas, em nome da liberdade, os indigenas foram depois roubando, a exemplo dos francezes, as reliquias e as pedras, indifferentemente, os santos e as cantarias; a verdade é que os governos do fim do seculo não são menos vandalos do que os francezes do principio d'elle, porque não tardará muito, talvez, que toda a abobada do templo, já fendida, desabe.

Aquelles dois tumulos que, entre outros, se encontram n'uma capella do cruzeiro, estão immensamente divulgados pela photographia, pela gravura, pela poesia, mas hão de ser eternamente o assombro de quem visitar Alcobaça, porque tudo n'elles é grandioso e sublime, desde o mais subtil pormenor dos arabescos até ao doce perfume de amor que parece exhalar-se desses dois sarcophagos, como do calix de dois lyrios brancos sempre frescos...[{33}]