IX

Na Ericeira

N'esta bella Ericeira, á beira mar plantada, faltam principalmente duas cousas... além de outras muitas: não ha flores nem passeios.

Um namorado, se tem imaginação botanica, não encontrará facilmente, para offerecer á sua dama, nada melhor do que uma perninha de manjarico, como dizem os saloios.

Quanto aos passeios, são pouquissimos: a estrada de Cintra, incompleta; a de Mafra que, á sahida da Ericeira, é muito ingreme. Restam S. Sebastião e as Furnas, que são o pão nosso de cada dia, pela simples razão de não haver por onde variar.

Acontece que, sendo poucos os passeios, toda a gente se encontra marchando sobre o mesmo terreno,—como se estivesse fazendo sentinella.

Por isso, a cada momento esbarramos com os[{80}] mesmos adultos e com as mesmas creanças, sempre muitas creanças,—principalmente este anno.

Tenho, é certo, uma natural affeição pelas creanças, mas não posso deixar de dizer que ellas chegam ás vezes, quando são tão numerosas como aqui, a embaraçar a marcha governativa das praias.

As creanças são sempre opposição, sophysmam e conspiram.

Havia outr'ora uma arma para vencel-as: a dictadura paterna. Mas as dictaduras são sempre violentas, ainda mesmo quando exercidas paternalmente. De modo que, graças á brandura dos nossos costumes, como se diz em S. Bento, se as creanças de agora teimam, o governo cede sem querer sahir da constituição, e a opposição triumpha sem que a Carta seja desacatada... mais uma vez.

Ora a civilisação tem evolucionado profundamente a maneira de pensar das creanças.

Quasi se póde affirmar que já não ha creanças, pois que essas pequeninas creaturas, que eu por ahi vejo a toda a hora em tão grande numero, são antes espiritos adultos que povôam os corpos de verdadeiros cidadãos de Lilliput.

Na minha infancia, havia ainda creanças, moralmente fallando, e eu tambem o fui.

Até aos doze annos, divertia-se a gente em casa[{81}] fazendo theatros e egrejas. Eu fui actor e sachristão em minha casa; ou antes, eu só, no meu theatro, valia por uma companhia inteira, desde o emprezario até ao contra-regra, e, na minha egreja, cheguei ás vezes a ser uma collegiada inteira, incluindo o Dom Prior.

Muitas pessoas da familia imaginaram que eu teria vocação ecclesiastica, tal era o meu enthusiasmo pelos officios divinos e pela vida de sachristia.

Completa illusão!

Aquillo não era de mim; era do tempo. Todas as creanças foram então assim.

Quando uma vez por outra nos era concedido ir passar o serão n'uma casa amiga, o que nós faziamos, as creanças d'esse tempo, era entretermo-nos em adivinhações e joguinhos de prendas, a um canto do salão ou em qualquer outra sala onde os adultos não estavam.

As pessoas crescidas, como nós lhes chamavamos, dançavam, jogavam o whist, o voltarete ou conversavam simplesmente.

Os homens fallavam de politica: fallava-se muito n'aquelle tempo do marechal Saldanha, o heroe da Regeneração; principiava a fallar-se de Fontes Pereira de Mello, o ministro novo,—o ministro janota.

As senhoras fallavam de criadas e modas, como agora, como sempre.[{82}]

Não foram os adultos que mudaram moralmente, porque o thema de suas conversações continua a ser o mesmo,—para os homens a politica, para as senhoras as modas e as criadas: quem mudou foram as creanças.

Lembro-me muito bem de algumas adivinhações que então nos entretinham, pela maior parte difficilimas,—exemplo:

Serra na cabeça,
Foucinha no rabo.
Adivinha, tolo,
Que é gallo.

E esta, egualmente difficil:

Uma velhinha,
Muito encorrilhadinha,
Encostadinha
A uma tranquilha.
Passa, asno,
Passa é.
Adivinha o que isto é.

E ainda outras mais, todas do mesmo theor.

Que grande surriada quando qualquer de nós, pesar as palavras da adivinhação, mas attendendo[{83}] apenas ao seu conjuncto, bem merecia os epithetos de tolo e asno, não atinando com o conceito do enygma!

Então, os paes e as mães, interrompendo a sua conversação, recommendavam menos barulho.

E os pequenos obedeciam, porque, n'aquelle tempo, não eram ainda opposição, como agora.

Apesar da revolução ter derrubado os Cabraes, o regimen paterno pautava-se ainda pela tradição cabralina, que era por sua vez uma revivescencia do regimen miguelista: o pau decidia todas as questões em ultima instancia; era a suprema razão.

Perante o pau, o pau que era palmatoria ou bengala, o que para o effeito valia o mesmo, as creanças cediam, os paes triumphavam.

Os pequenos de hoje em dia já se não divertem do mesmo modo, mas, em desproporção com a sua altura, divertem-se um pouco... á grande.

São os adultos que lhes fornecem pretexto para divertir-se; mas são as creanças que realmente se divertem.

Lembra-me a este respeito uma anecdota authentica.

Na Ericeira ha dois cemiterios: um que está cheio, e por isso condemnado; o outro, de construcção recente.

Como seja preciso pagar a despeza feita com o[{84}] novo cemiterio, a contribuição parochial augmentou este anno.

Ha dias, uma mulher, indo pagar a sua contribuição, queixou-se, achou que era muito pesada.

Explicaram-lhe o caso: que era preciso pagar a construcção do cemiterio.

E vae ella respondeu;

—Uns são que pagam, e os outros que gosam.

Authentico, repito.

Póde applicar-se esta anecdota ás creanças da colonia balnear da Ericeira.

Quem paga para se divertir são os adultos; mas são realmente as creanças que se divertem.

No Club, os primeiros a tirar par e a collocarem-se no meio da casa, são os pequenos.

Mas como os pequenos sejam muitos, a direcção do Club viu-se forçada a recorrer a uma medida severa, e mandou affixar na porta do salão o seguinte aviso:

«As creanças que concorrerem ás soirées do Club apenas poderão dançar na sala de entrada, a fim de não prejudicarem a boa ordem das danças no salão».

Os pequenos leram o aviso, e não gostaram. Houve amuos, piadas, protestos. A direcção, severa como Catão o Censor, manteve a sua resolução. Tudo foi pelo melhor durante duas ou tres noites, mas as[{85}] creanças lá tinham a sua fisgada,—sem que se soubesse o que, na sua qualidade de opposição, haviam resolvido.

Aconteceu que um valsista foi escolher para parceira de valsa uma menina de treze ou quatorze annos.

Os pequenos, reunidos em grupo, cochicharam entre si.

Conspiravam; não havia duvida. Mas qual seria o seu plano? Mysterio!

Pouco depois toca-se uma quadrilha, e os chefes da opposição conseguem que algumas senhoras vão dançar com elles.

Então os supracitados chefes argumentam do seguinte modo, revolucionaria e logicamente:

—Se um socio do Club póde dançar com uma pequena, uma socia do mesmo Club póde dançar com um pequeno. O direito e a quota são eguaes perante os sexos.

A quadrilha dançou-se, os pequenos dançaram, e a revolta triumphou.

Foi uma especie de janeirinha, de revolução pacifica, feita sem sangue, apenas com as portas fechadas.

Os directores de sala pensaram gravemente na sua embaraçosa situação.[{86}]

Entregar o poder? Mas, segundo a logica das indicações constitucionaes, deveriam entregal-o aos vencedores. Teriamos pois um ministerio, quero dizer uma direcção de creanças.

Fugir á vergonha que os cobria? Mas os directores precisavam tomar banhos de mar, e não tinham ainda a sua conta.

Ficar, permanecer? Sim... talvez. Houve quem lembrasse que governar era transigir.

Para ganhar tempo, transigiu-se.

Um dos directores tomou para si o papel de duque de Avilla:

—Fiquemos, e conversaremos depois.

Entretanto, a revolta victoriosa campeava em pleno salão. Passavam rapidamente, nas voltas da valsa, por deante dos dois arcos da porta, meninas de dez annos bailando com meninos de doze. E os pares adultos passaram a ser n'essa noite verdadeiros pares de galão branco, tendo apenas as honras de valsistas, porque na realidade não pudéram dançar.

O boato da victoria dos pequenos correu rapidamente por todas as casas.

Creanças de dois annos fizeram perrice, choramigaram, gritaram que as levassem ao Club,—para valsar.

—Pelo amor de Deus! supplicavam os directores.[{87}] Que não venham mais creançcas! Isto é uma inundação de pequenos!

A sala da entrada do Club, que havia sido destinada ás creanças, estava deserta. E os revoltosos, embriagados com a victoria, continuavam a valsar no salão.

A direcção, como todos os vencidos, azoinava. Queria dar uma satisfação publica á sociedade, e a si mesma. Exercer represalias para com as creanças seria uma cobardia revoltante. Em todo caso, á sombra dos pequenos, já os grandes começavam a rir-se.

Era preciso uma idéa salvadora, uma sahida qualquer.

O pianista, sempre por ordem dos pequenos, principiava a tocar uma quadrilha. Então, por uma d'estas lembranças que passam rapidamente pelo espirito, illuminando como os meteoros, resolveu-se organisar uma quadrilha só composta dos paes, que foram dançar na sala de entrada, ao mesmo tempo que os filhos dançavam no salão, que era destinado aos paes. Esta inversão do papeis produziu geral hilaridade; salvara-se a situação com um epigramma, que é o unico desforço possivel nas situações perdidas...

Mas os heroesinhos vencedores tomaram gosto a essa especie de junta revolucionaria que haviam constituido e, não contentes com a posse do salão, principiaram[{88}] a inventar divertimentos por sua conta e risco.

Imaginaram uma toirada... platonica, isto é, uma toirada sem toiros, mas em tudo o mais a caracter.

Monteras, jalecas, capas, bandarilhas, tudo segundo o rigor tauromachico.

Mas, quanto aos toiros, esses, por intervenção de pessoas prudentes, foram substituidos por alguns garotos da beiramar, que se constituiram em curro para ir ganhar 100 réis por cabeça.

Eu encontrei na Praça do Jogo da Bola, conversando um com o outro, um toiro e um toireiro.

Andavam combinando as sortes a que um se prestaria e que o outro aproveitaria.

—Mas olhe lá, menino—dizia o toiro—olhe que se me chegar á pelle, eu marro-lhe a valer.

E o toireiro, fallando muito á mão, dizia ao toiro:

—Não tenhas medo, que eu só te ponho os ferros no fato.

Como se vê, são as creanças que estão dando as cartas e as toiradas, este anno, na Ericeira.

Decididamente, indubitavelmente: já não ha creança![{89}]