V
Em Obidos
Ha muitos annos que eu conhecia de nomeada o Padre Antonio das Caldas.
Ouvia dizer que, sem menospresar os seus deveres sacerdotaes, era um homem de sociedade, amavel e jovial, intelligente e insinuante.
As senhoras que voltavam das Caldas da Rainha vinham contar agradabilissimas impressões d'esse homem estimadissimo, cujo talento se repartia por multiplices aptidões:
Padre Antonio orador sagrado;
Padre Antonio valsista;
Padre Antonio cantor;
Padre Antonio poeta.
Eu fui este anno para as Caldas com um grande[{42}] desejo de conhecer este bom Padre Protheu, que se fazia estimar de toda a gente pelas variadas modalidades do seu talento.
Quarenta e oito horas depois de eu ter chegado ás Caldas da Rainha, um amigo meu, acompanhado por outro cavalheiro, ia a balbuciar algumas palavras de apresentação, quando esse outro cavalheiro, para mim desconhecido, o interrompeu dizendo:
—Nós somos amigos desde creanças: Eu sou o Padre Antonio das Caldas. Teriamos nós dez para onze annos quando nos encontrámos pela primeira vez, na Foz do Douro, em casa de Joaquim Corrêa de Oliveira, de S. Pedro do Sul. Lembra-se? Nunca mais me esqueceu a sua physionomia. Vi-o uma vez em Lisboa, em S. Bento, e você acabava de sahir justamente no momento em que eu o ia procurar. Dê cá os seus ossos.
Encantado com a surpreza, dei-lhe os meus ossos, e a minha amisade. Uma hora depois, estávamos de pedra e cal,—para a vida e para a morte.
Padre Antonio, com ser das Caldas, vive em Obidos, onde tem capellania.
Sabendo isto, fallei-lhe logo de Obidos e dos quadros da celebre Josepha de Ayalla, que eu desejaria vêr.
Padre Antonio respondeu:[{43}]
—Isso arranja-se. Você vae almoçar comigo um dia d'estes, e eu mostro-lhe Obidos de fond en comble.
E como eu hesitasse, acrescentou:
—Sim, snr. Você vae almoçar comigo e eu dar-lhe-hei para almoçar a vacca e riso de frei Bartholomeu dos Martyres. Serve-lhe?
—Serve-me que apenas me mande servir a supradita vacca e o sobredito riso do sobredito arcebispo. N'essas condições, acceito.
—Está tratado.
Padre Antonio quiz dar-me para esse almoço um excellente companheiro: o meu velho amigo Pereira Carrilho, com quem em menos de quinze dias fiz uma larga serie de passeios: á Nazareth, a Alcobaça, á Figueira, á Foz do Arelho e a Obidos.
E, note-se, não perdemos um dia de aguas. Digo isto aqui para que o meu medico, e tambem velho amigo, dr. Ferrer Farol, não ralhe comigo na volta a Lisboa. Não, snr. Eu tomei sempre a minha agua, eu tomei sempre o meu banho, e não perdi occasião de passeiar,—para de algum modo coroar a obra therapeutica do dr. Farol.
Se fosse n'outro tempo, ter-me-ia custado ter que abandonar á noite o club das Caldas, onde a valsa era adorada com idolatria.
Mas com trinta e oito annos ás costas—o peso[{44}] de uma cruz!—a valsa seria para mim um tour de force incomportavel, um calix de agonia.
Nada d'isso. Nas Caldas da Rainha não provei d'esse calix, nem do chá do club. Não ingeri lá outros liquidos além da agua da Copa e do vinho das Gaeiras.
Quanto a solidos, já não posso dizer outro tanto, pois que prestei, como devia, gastronomica homenagem ás cavacas das Caldas.
E, ao comel-as, reconheci que ainda vale muito, n'este mundo, ter uma lenda.
É que as cavacas das Caldas teem mais lenda do que assucar.
Nós, os dois convidados para o almoço de Obidos, recebemos da mão do honorable Sebastião da Copa o nosso copinho de agua das Caldas, e, entrando para um trem, partimos caminho d'Obidos.
A manhã estava serena, como se dizia nos romances antigos. A neblina matinal levantava vôo do alto dos montes, como se fosse um bando de aves transparentes, de grandes azas abertas. E dos campos vinha esse cheiro sadio a ervas verdes e viçosas, que faz a delicia dos pulmões. A estrada é excellente, se bem que nem sempre plana. Obidos fica muito elevada, dentro das ruinas do seu famoso castello: a estrada sóbe colleando como uma serpente.[{45}]
Avistava-se já a muralha do castello, que era enorme, rota em muitos lanços, alguns dos quaes escancaravam para o azul da manhã a sua hyante goella de pedra.
Horisontalmente, desenhavam-se, ao longe, os arcos do extenso aqueducto de Obidos, atravez dos quaes a luz passava como n'uma vista de scenographia.
E em baixo, á beira da estrada que iamos seguindo, cada vez se avisinhava mais de nós a egreja do Senhor da Pedra, denunciando logo na sua construcção a mão dadivosa de D. João V.
E o nosso apetite, espicaçado pela agua das Caldas, ia cantando gloria antecipada em honra do almoço de Padre Antonio.
Não era assim, Carrilho?
Entrámos a velha porta do castello, que conserva o seu feitio antigo.
E logo o estrondo do trem attrahiu ás janellas dos predios, arrimados contra a muralha ou encravados n'ella, caras curiosas, petrificadas de surpreza, justificada surpresa n'aquella solidão montanhosa, que raros touristes visitam, áquella hora, especialmente.
O nosso trem parou um pouco ao acaso. E nós dissemos ás caras das janellas e ás caras das portas que iamos alli sobrescriptados para o snr. Padre Antonio.[{46}]
Então uma voz, cahindo do alto de uma janella, disse:
—O snr. Padre Antonio foi caçar perdizes para os senhores almoçarem.
A minha consciencia bradou mentalmente:
—Maroto! O que elle nos tinha promettido era a vacca e riso de frei Bartholomeu dos Martyres; nunca as perdizes de Padre Antonio d'Almeida!
E o meu apetite, que tem bom ouvido, replicou do lado:
—Deixa lá! Não ha, para almoçar, como uma perdizinha fresca. O Padre sabe disto...
Apeiámo-nos, e entramos na primeira egreja que se nos deparou aberta. Em Obidos ha, principalmente, egrejas e ruinas. Além d'isto, ha tambem bellas perdizes, que Padre Antonio caça. Mas isso fica para logo...
Ora n'essa egreja havia muitos e grandes quadros.
—Cá estão elles, dissemos nós, os quadros da Josepha!
E eram. Estavamos, sem o saber, na egreja de Santa Maria Maior.
Assumptos sacros, que foram os que mereceram a predilecção de Josepha d'Ayalla. As suas duas maneiras, antes e depois da viagem a Italia, estão[{47}] bem accentuadas n'esses quadros. A segunda maneira,—depois da viagem,—accusa um sensivel progresso pela imitação dos pintores italianos da Renascença. Pelo menos, pareceu-nos isto.
Josepha de Obidos tem decerto defeitos como artista. Mas as cabeças das figuras dos seus quadros estão, por via de regra, excellentemente tratadas. Era uma habil retratista, que sabia tocar as physionomias com grande verdade e expressão.
Áquella hora, a luz não nos ajudava muito; a melhor hora, disse-nos depois Padre Antonio, seria o meio dia. Ainda assim, estudamos os quadros durante longo tempo.
Uma mulher que estava rezando, levantou-se para dizer-nos:
—Quem sabe explicar tudo isto é o snr. Padre Antonio, mas elle foi caçar perdizes para uns hospedes, que talvez sejam os senhores.
Que sim, que eramos nós; e que as perdizes e Padre Antonio já iam tardando... todos.
—E aquelle tumulo? De quem será aquelle bello tumulo, de tão primorosos ornatos, que alli está mettido na parede?
A beata:
—Que o snr. Padre Antonio, quando viesse com as perdizes, explicaria tudo cabalmente.[{48}]
E então, n'um reccanto do templo, dentro de um caixãosinho de madeira, deposto sobre um banco, vi o cadaver de uma creança, os braços magrinhos encruzados, um lenço branco sobre o rosto, flores aos pés e no vestido.
O cadaver do uma creança! Pois póde haver nada mais triste do que o espectaculo d'uma creança morta?! Que se morra cançado da vida, vá. Mas fazer palpitar tres corações, os dos paes e o do filho, para ferir todos tres de um só golpe, chegaria a ser cruel, se Deus não fosse infinitamente bom!...
N'isto sentimos passos; voltámos-nos. Era Padre Antonio que chegava, em fato de caçador, com dois cães que o farejavam.
—Que as perdizes já estavam a cosinhar-se, tenras e gordas. Era o melhor almoço que um caçador podia dar. Tinha promettido, confessava, a vacca e o riso do frei Bartholomeu dos Martyres. Da vacca tinha mandado fazer beefs. O riso trazia-o alli, nos labios, e era patriarchal de hospitalidade sincera, como no Oriente... Mas as perdizes quizera-as ir caçar n'aquella manhã o seu amigo caçador Antonio de Almeida, para mandal-as ao Padre, que esperava hospedes para o almoço. Elle não tinha culpa de que o seu amigo caçador, apesar de lhe estar dentro da propria pelle, se lembrasse de lhe fazer um presente de[{49}] perdizes para o almoço e como Padre Antonio, que fôra quem as recebera, tinha gente de fóra para almoçar, pedia licença para mandal-as pôr na mesa com molho de villão. E que depois lambessem os beiços... Estava certo d'isso.
Padre Antonio explicou tudo: os quadros, o tumulo, a historia d'aquella egreja, tudo.
E a mulher:
—Que ella bem nos tinha dito que não havia para explicar Obidos inteira como o snr. Padre Antonio!
E Padre Antonio:
—Que ficasse com Deus, que nós iamos ao castello.
Fomos ao castello, subimos á torre de menagem.
Padre Antonio explicava todas as ruinas, a lettra de todas as inscripções apagadas, a historia de todas as pedras cahidas.
E, no alto da torre de menagem, estendendo o braço direito no ar:
—Aquelle logar chama-se assim; aquelle monte chama-se assado. Acolá era a Quinta das Flores, para regalo das rainhas. Aqui, n'este mesmo sitio, esteve a Senhora D. Maria Pia de Saboya. Eu vinha da caça tambem com o meu fato de caçador, ainda a pensar nas perdizes. E chamaram-me cá de cima: era o Pindella. Que sua magestade queria fallar-me. Tudo menos[{50}] isso: estou em fato do caçador. Que assim mesmo havia de ser. E foi... Olhe lá: Vê aquelle azul, além? É a lagôa. Você já foi á Foz do Arelho? Pois eu vou ámanhã para lá. Morro por aquillo; gosto de estar só na Foz. Faço-me pescador, e gosto! Nem já me lembro das Caldas. A Foz é melhor, por que eu na Foz sou selvagem: vivo na natureza. Ora, com a breca! as perdizes já devem estar promptas... Vamos lá almoçar... Ó Pimentel, tome cuidado; veja que não caia. A rainha subiu e desceu intrepidamente; não cahiu... Com molho de villão as perdizes não devem estar más.. Vão sendo horas. Até já os cães querem almoçar!...
Padre Antonio vive na unica hospedaria que ha em Obidos, e foi ahi que nos offereceu, não o promettido almoço de frei Bartholomeu dos Martyres, mas um banquete de Lucullo.
A cada prato que ia chegando, eu e Carrilho protestavamos. O medico da villa, que tambem estava á mesa, ria-se. Padre Antonio procurava atabafar os nossos protestos fallando insistentemente de coisas d'Obidos:
—Na Misericordia, aonde logo havemos de ir, tambem ha quadros da Josepha... Que o Malhão, o grande prégador, era d'alli. Na familia Malhão havia, além do pregador, outro homem de letras.[{51}]
E levantou-se, foi buscar um livro: Vida e feitos de Francisco Manuel Gomes da Silveira Malhão, Lisboa, 1794.
Serviam-nos n'esse momento magnificos linguados fritos.
—Se eu sabia a lenda romantica da capellinha da Porta de Nossa Senhora da Graça? Historia de uns amores infelizes.
Serviam-nos vitella de fricassé.
—Que no dia seguinte tinha que prégar nas Caldas...
E o medico:
—Você tambem vae cantar ámanhã á mátinée promovida pela marqueza de Monfalim?
—É verdade, tambem vou cantar. Mas de tarde metto-me na Foz, no seio da natureza, como um selvagem primitivo...
Chegámos ás duas horas da tarde ás Caldas.
—Porque se demoraram tanto? O que estiveram os snrs. a fazer tanto tempo em Obidos?![{52}]