VI
Uma festa de charidade
Organisara-se nas Caldas da Rainha uma festa de charidade, no Salão da Convalescença, em beneficio da Associação Promotora do Ensino dos Cegos.
Luiz Gama, este endiabrado rapaz que toda Lisboa conhece e estima, rapaz que parece um velho quando joga o whist, posto andasse muito azoinado com os callixtos que lhe rodeiavam a mesa do jogo, fosse em plena Alameda, nas horas de calma, ou sob o Ceu de Vidro, nos intervallos da valsa, que elle raras vezes perdia, não poude resistir ao convite que lhe fizeram algumas senhoras para tomar parte na matinée.
Comprometteu-se, e comprometteu-me pedindo-me com instancia que lhe escrevesse uns versos, consentaneos[{54}] ao seu genio alegre, para dizer no Salão da Convalescença. Eu não chegava então para os largos passeios que todas as semanas fazia com o meu amigo Carrilho. Luiz Gama insistia, porém, e não tive outro remedio senão procurar um assumpto entre um copo d'agua das Caldas e a partida d'um comboio.
Não estava Luiz Gama sendo, segundo elle mesmo caramunhava, uma victima dos callixtos? Toda a gente o sabia. Pois bem. Lembrei-me de proporcionar á victima uma excellente occasião para vingar-se publicamente dos seus algozes, e mandei-lhe isto, que elle teve a paciencia de decorar e dizer:
OS CALIXTOS
Se os ha?! Que os ha, é de fé.
Até suppõe muita gente
Que Adão e Eva tiveram
N'um joguinho que fizeram
Por callixto uma serpente.
Eva perdeu... quanto tinha.
O proprio Adão foi no prégo
Pôr a caixa do rapé!
Só os não vê quem fôr cego...
Se os ha?! Que os ha, é de fé.[{55}]
Ha-os de varios feitios.
Um, gallinha nunca farta,
Cobrindo co'a aza o filho,
Vai vendo carta por carta
Como a comer grãos de milho.
Um outro a penca intromette
Entre as cartas e o sujeito,
Como se fosse um petiz
Que a gente tivesse ao peito,
Sendo a ama d'um nariz.
Até se diz que um parceiro
Do mirone a penca assuou
No Ceu de Vidro, domingo,
Porque em boa fé pensou
Que era o seu que tinha pingo.
Já encontrei um callixto
Gordo, obeso, uma balêa,
Que me poz o barrigaço
—Façam vossencias ideia!—
Em peso sobre este braço!
O general é medonho!
Não ha callixto peior
Entre os maus que tenho visto.
Vejam lá! é meu callixto
Desde que elle era major![{56}]
No Gremio um desconhecido
Foi-se sentar a meu lado:
Perdi a trena e o leme,
Apanhei logo um xeleme
E outro d'ahi a bocado.
Perguntei-lhe: Em seu juizo
Qual animal é maior?
Hesitou. D'ahi a um instante
Disse que era o elephante.
—«Pois então faça favor
«D'ouvir isto que lhe digo,
(Repliquei, de mim já fóra,
Ameaçador, fulminante)
«Olhe, snr. elephante,
«Não posso mais!... vá-se embora.»
Em sendo calvo o callixto,
Tremo logo só de vel-o.
É tão callixto o diabo,
Que até do proprio cabello
Por callixtice deu cabo!
Ha outros que têm madeixas
Como cachos de banana,
E que escorrem sobre a gente
Algum óleo impertinente
Ou agua circassiana.[{57}]
Tambem os ha femininos,
Que põem o pé na cadeira,
Mostrando a botina... Eu acho
Que, sendo d'esta maneira,
Só encallixtam por baixo...
Mas a peior das callixtas...
Não me lembra agora isto!
A coisa... não vae ao fim!
Pois se um senhor que é callixto
Está d'além a olhar p'ra mim!
Cahiu em boa Luiz Gama! No dia seguinte os callixtos resolveram vingar-se d'elle por sua vez: apanhou uma grande sova ao whist.[{58}]