VIII

Uma victima da dança

Durante oito annos consecutivos, a D. Serafina Barros, da Mealhada, foi com o marido tomar banhos do mar em Espinho.

Aquillo era já sabido: no dia 15 de agosto partiam; a 15 de outubro recolhiam á Mealhada.

D. Serafina pensava durante o resto do anno n'esse gaudio balnear, esperava-o com uma certa anciedade, porque a Mealhada era, a respeito de salsifrés, uma terra morta, e D. Serafina tinha pela dança uma paixão feroz.

Agora, que já orçava pelos quarenta e dois annos, era preciso que D. Serafina fosse procurar a dança aonde quer que a houvesse, visto que espontaneamente[{70}] a dança já não vinha procural-a a ella. E, para encontrar parceiro na assembléa de Espinho, tornava-se ainda assim indispensavel uzar de uma tal ou qual diplomacia, fazer com que o Barros dissesse aos sujeitos, por elle apresentados á mulher, que ella gostava muito de dançar, forçando ás vezes a situação a ponto de dizer: «Como prova do agrado com que recebeste a apresentação d'este cavalheiro, deves dançar a primeira quadrilha com sua ex.ª»

O cavalheiro, fulminado por esta perfidia amavel, inclinava a cabeça ao sacrificio, offerecia o braço a D. Serafina, e ia dançar com ella.

O Barros ficava contentissimo com o bom resultado da sua diplomacia, porque não podia aturar a mulher quando ella não conseguia dançar.

Se o cavalheiro respondia que já estava compromettido, como então se dizia, para as tres primeiras quadrilhas, se nenhum pequeno de treze annos havia convidado D. Serafina para dançar, o Barros, tendo lido um jornal ou dado uma volta pela sala da roleta, vinha espreitar da porta a mulher dizendo com os seus botões:

—Está como uma bicha!

E estava. Em casa elle o pagaria ouvindo-a sarrasinar n'uma cegarrega de lamurias, accusando-o de não ter a consideração social de que dispunha o Lemos[{71}] de Formoselha e o Barradas de Esmoriz, cujas mulheres, não sendo mais novas nem mais bonitas do que ella, estavam sempre no meio da casa.

O Barros desculpava-se: que o Lemos era um trunfo politico, por ter em Lisboa um genro que fôra ministro tres vezes, e que se lhe dançavam com a mulher era para fazer a bôca doce a elle e a ella, por causa do genro; quanto á mulher do Barradas, «bem sabes tu, Fininha, o motivo porque ella dança sempre... á custa da reputação do marido.»

D. Serafina não se dava por convencida. Influencia politica tambem o Barros tinha na Mealhada: que se lembrasse elle das cartas que o bispo de Vizeu lhe escrevia sempre que havia eleições, tratando-o mano a mano quando lhe pedia votos: meu Barros lá, meu Barros cá. Fosse o Barros mais esperto e soubesse explorar em proveito da mulher a sua importancia politica. Mas era um asno. O snr. D. Antonio ia todos os annos tomar banhos para Espinho; sempre que o Barros chegava, o snr. D. Antonio ia-o visitar de varapau na mão. Ora dissesse-lhe o Barros que só lhe tornaria a dar os votos se lhe arranjasse par para a mulher dançar na assembléa, e o snr. D. Antonio faria com que todo o partido reformista, que estivesse em Espinho, fosse dançar com ella.

—Ó mulher! replicava o Barros. Isso póde lá[{72}] fazer-se! Isso é lá coisa que se faça! Tu não sabes o que estás a dizer!

—Sei muito bem o que digo; sempre soube. Isto de eleições é um negocio para aquelles que não são tolos como tu. Tanto faz pedir uma commenda como uma quadrilha. Acaso será maior vergonha pedir para arranjar um par do que um emprego? Só elle, um pedaço d'asno, dava os seus votos de graça! Nem commendador era ainda!

O Barros procurava acalmal-a:

—Que o snr. D. Antonio não era homem a quem se pedissem commendas. Ria-se d'isso.

Mas Serafina não se calava nunca por falta de argumentos:

—Ah! o snr. D. Antonio ria-se d'isso! mas elle proprio quizera ser bispo, que era uma especie de commendador da egreja ou mais ainda!

N'estas discussões domesticas sobre a eterna questão da dança, era sempre Serafina que ficava victoriosa. O Barros reconhecia n'ella superioridade de raciocinio, força de logica. Cada pessoa, pensava elle, tem pelo menos um defeito. Ora as mulheres, quando são espertas, ainda que tenham o seu defeito, sabem sempre desculpal-o. O homem tem a força do pulso; a mulher tem a força do argumento. O homem póde bater na mulher, mas acaba por ser batido por ella,—logicamente.[{73}] E o defeito da Fininha, o seu gosto pela dança, não era d'aquelles defeitos que compromettem a honra dos maridos. A mulher do Barradas d'Esmoriz, essa sim, servia-se da dança para chegar a certos fins illegitimos. Mas a Fininha gostava da dança pela dança,—sem segundas vistas.

E a Fininha, a respeito da mulher do Barradas, dizia-lhe muitas vezes:

—O que eu vejo é que as que se portam peior não ficam nunca sentadas!

—Por isso mesmo... respondia o Barros.

—Por isso mesmo!? Então na sociedade todas as distincções devem ser para quem menos as merece!? Que premio destinam então os homens ás mulheres honestas?!

O Barros embuchava.

—Lá está o raio da logica!... pensava elle.

—Sim, que visse, que reparasse, continuava Serafina. Ao passo que ella passava noites inteiras sem dançar, tendo a consciencia de ser uma esposa virtuosa, a Barradas andava sempre n'uma roda viva, e a filha do Saraiva de Mogofores, que fugira com um quintanista de direito para o Bussaco, e estivera lá dois dias com elle, não chegava para as encommendas na assembléa de Espinho. Elle Barros bem sabia que a sua Fina, quando casou, tanto podia ir para o[{74}] ceu como para o leito conjugal, porque não se podia ser mais donzella; e depois que casou, nunca ninguem se atrevera com ella, nem mesmo o escrivão de fazenda, que era baboso por mulheres.

E isto era exacto. A honradez de Serafina tinha duas muralhas que a defendiam: a virtude e a fealdade. Trigueira, ossuda, com as sobrancelhas espêssas e um buço de adolescente, fazia lembrar uma cigana. Como as ciganas, gostava das côres vivas, tapageuses. Dançando, saracoteava os quadris, rebolia-se, peneirando sobre o pavimento uns passinhos curtos, miudos e travados. As outras riam-se d'aquella quarentona amulatada, toda perliquiteta, que na dança tirava a vez ás meninas solteiras. O proprio Barros algumas vezes ouvia estes remoques, e em casa, timidamente, com um grande medo da Serafina e da logica, dizia-lh'o.

Ella replicava:

—Deixa-as rir: é inveja. Muitas vezes me disse o papá que eu, se não fosse tão alta, era tal e qual a snr.ª D. Carlota Joaquina.

—Salvo seja!... acudia o Barros.

—Nas feições, homem de Deus. E no meio da casa não me troco por nenhuma d'essas lambisgoias de vinte annos, que não foram ainda capazes de aprender as marcas dos Lanceiros!

Mas um anno, em Espinho, fez-se uma terrivel[{75}] conspiração contra D. Serafina: meninas e meninos de vinte annos combinaram entre si empregar esforços para que a cigana da Mealhada não tornasse a dançar; um rapaz do Porto, a quem ella disse uma vez—Sempre mostra que é tripeiro!—foi o chefe da conspiração.

A coisa chegou a ponto de que n'uma noite de menor concorrencia, n'uma quadrilha franceza, dançaram com perna de pau, indo o par marcante fazer coté, tendo Serafina ficado sentada e estando disponivel um caloiro de Coimbra.

Serafina jurou aos seus deuses não voltar mais a Espinho; e no anno seguinte o Barros levou-a á Figueira da Foz.

Mas na Figueira havia grande numero de hespanholas e de portuguezas novas, que dançavam sempre. Serafina estava fula, e um dia fez com que o marido se entendesse com um dos directores do Club, o Peres, de Leiria.

—V. ex.ª, disse-lhe o Barros, na sua qualidade do director deve zelar igualmente os direitos de todos os socios. Ora a verdade é que minha mulher, que gosta de dançar, não tem dançado nunca, ao passo que outras senhoras, que pagaram quota igual, andam n'um sarilho continuo. Peço, em nome da justiça, providencias a v. ex.ª[{76}]

O Peres era reformista, sabia que o Barros pesava na eleição da Mealhada; não o quiz desgostar.

—Que sim. Que elle não dançava, mas que havia de fallar aos rapazes, e de os apresentar á snr.ª D. Serafina.

Mas o Peres nada poude conseguir dos rapazes: que não, que lá esse sacrificio não faziam elles. Que a D. Serafina era um monstro indançavel.

Muito entalado, o Peres já estava resolvido a perpetrar rheumaticamente uma quadrilha, quando passou na Figueira um destacamento, cujo capitão fôra antigo condiscipulo do Peres.

O capitão Lamprêa, de botas empoeiradas e barretina no braço, disse ao Peres que ia reinar um bocado, porque tinha bebido bem ao jantar; que o apresentasse a uma dama.

O Peres teve um pensamento machiavelico: impingir-lhe D. Serafina.

Estava-se já organisando uma quadrilha. De pé, alguns pares esperavam. Um amador de salsifrés, Justino Soares, por vocação, andarilhava, combinando vis-á-vis. O Peres, poisando o braço direito sobre os hombros do capitão Lamprêa, avançou na sala, e aproximando-se de Serafina solicitou para o seu velho amigo e condiscipulo a honra de uma quadrilha.

O capitão Lamprêa recuou instinctivamente. Mas[{77}] o Peres, ao ouvido, dizia-lhe com um sorriso de malicia.

—O que?! Um militar portuguez não recua nunca!

Serafina acceitára com muito gosto: que sim, que tinha muita honra.

O Peres disse ao capitão Lamprêa que lhe ia arranjar vis-á-vis.

Mas n'isto ouviu-se tocar uma corneta, e o capitão Lamprêa, voltando-se rapidamente para D. Serafina:

—Ora esta! exclamou. Chama-me o dever. Já não tenho tempo de dançar! Que contrariedade! Mas á volta, minha senhora, terei a honra e o prazer de dançar com v. ex.ª

Fôra providencial aquella corneta tocando a recolher.

E D. Serafina, durante quinze dias, perguntava com um sorriso de agradecimento ao Peres de Leiria:

—Quando volta o seu amigo capitão?[{78}]

[{79}]