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Um pic-nic

Ha oito dias, um grupo de familias, a banhos na Ericeira, realisou na Foz um pic-nic.

Fallou-se muito da festa nos dias que medeiaram entre o projectal-a e o realisal-a. Pendo hoje a crêr que o que principalmente diverte em todas as festas é o antegostal-as. Fazer projectos... fóra de S. Bento, torna-se sempre agradavel. Só acho comparavel ao prazer de antegostal-as, o de recordal-as... annos depois.

Como n'este mundo não haja felicidade sem o contrapeso de contrariedades, acontece que a melhor maneira da gente gosar consiste em imaginar o goso que vae ter e que ás vezes, na realidade das coisas, sáe muito inferior ao que se esperava. Ás vezes ou... sempre;—sempre é que é. Passados annos, se a gente[{90}] se lembra de uma festa em que esteve, de uma hora de alegria que passou, dá apenas importancia ao que ella teve de bom, e já não deita conta ao que ella teve de menos agradavel.

A saudade é uma feição predominante do meu espirito: por isso eu saboreio as minhas recordações com prazer muito mais doce do que aquelle que as realidades me déram...

Um pic-nic é, certamente, uma festa muito convidativa... no programma, quando se trata de fazer a distribuição dos encargos que tocam a cada um: as aves a este, as fructas áquelle, os vinhos a aquell'outro.

Entre pessoas que se estimam, e que vivem na melhor intimidade, todas essas combinações culinarias servem de pretexto para matar o tempo agradavelmente.

A espectativa de um dia bem passado, em plena natureza, seja no campo ou á beira mar, é o ante-gosto de uma diversão nos nossos habitos de todos os dias, um córte excepcional, e como tal attrahente, no ramerrão da nossa vida ordinaria.

—Nem sempre rainha nem sempre gallinha... dizia um rei portuguez.

Pois bem! um pic-nic é uma variante á gallinha do nosso espirito, é uma especie de sardinha salgada que nos vae saber muito bem... como distracção.[{91}]

Surgem, na discussão do projecto, idéas extravagantes, caprichos exoticos: ha tal que não dispensa nunca os foguetes n'um pic-nic e que portanto faz questão ministerial dos foguetes...

—Ó homem de Deus! mas se você não ha de comer os foguetes, porque é que os não dispensa?

—É porque eu, em Lisboa, não janto nunca com foguetes e, como se trata de uma diversão aos nossos habitos, quero que até nos foguetes seja completa a diversão.

—Muito bem. Haverá pois foguetes. Ó thesoureiro, escreva ahi, por baixo da verba das uvas, a verba dos foguetes. Ponha lá duas duzias.

—Pouco! Pouquissimo! Duas duzias de foguetes não é coisa que se oiça bem. Você sabe que D. Pedro I, quando tinha insomnias, sahia a bailar pelas ruas com grande arruido? Pois eu pareço-me um pouco com elle... Quando espero divertir-me, desejo que todos fiquem sabendo que eu me estou divertindo á larga.

—N'esse caso, thesoureiro, seis duzias de foguetes.

Depois, um outro lembra que é preciso escrever a verba dos palitos, porque o palito como que prolonga a impressão de um bom jantar, e, como espera comer bem, quer prolongar esse prazer pelo maior tempo possivel.[{92}]

—Pois sim! Thesoureiro, seis massos de palitos...

Isto é alegre, divertido, desopilante.

Chega porém o dia do pic-nic e as contrariedades levantam-se debaixo dos pés.

Madame *** amanheceu com a sua enxaqueca,—a terrivel enxaqueca que a persegue desde o seu ultimo parto.

O snr. Fulano espera a cada momento um telegramma importante de Lisboa e vae subresaltado.

Finalmente, o menino Arthur, ao subir para o char-à-bancs, entalou um dedo, e a mãe quasi que perdeu os sentidos com a dôr do filho...

Confessem francamente se isto não costuma ser assim? Ora aqui está porque eu disse ha pouco que todas as festas trazem o seu cortejo de contrariedades.

D'esta vez, na Ericeira, todos os adultos se comprometteram a não ter enxaquecas nem telegrammas. E todas as creanças prestaram juramento solemne de não entalar os dedos na portinhola do char-à-bancs.

Partimos alegremente, cerca de quarenta pessoas, para o pic-nic, para a Foz, que fica a pequena distancia da Ericeira, e que se chama assim porque alli entra no mar, depois de haver descripto varios torcicollos, a ribeira de Porto.

O sitio todos nos o conheciamos.

Pittoresco, em verdade. O rio contorce-se dentro[a]{92}] do areal e interna-se pela terra passando por entre margens onde a vinha parece sorrir verduras ao abrigo das fragas.

Alli a dois passos, o mar, o mar franjado de espumas rebentando na areia.

Sitio delicioso! De mais a mais, nada nos havia esquecido. Fôra n'um carro de bois o barco em que deviamos deitar as redes; foram as redes; foram os bellos pitéos que cada um se encarregou de levar. Não havia esquecido nada; n'uma palavra, nada!

Mas, chegámos lá, e vimos que faltava uma coisa, que aliás a ninguem havia lembrado! E essa coisa era realmente indispensavel, imprescindivel. Essa coisa era... a sombra!

Sim! Havia o barco, as redes, o jantar, boa disposição, mas faltava unicamente a sombra.

Então, sobre a praia batida pelo sol, principiamos a procurar impacientemente, avidamente aquillo que nos faltava e de que todos se haviam esquecido: a sombra!

Dispersámo-nos em grupos, em pequenas caravanas: procura d'aqui, procura d'alli; todos procuravam sombra.

De repente ouviu-se um grito...

O que foi?! Appareceu a sombra?

Era o snr. Fulano que tinha escorregado de uma lage, e estava estatelado na areia.[{94}]

Outro grito, d'ahi a nada...

Agora sim! é a sombra?

Qual sombra nem qual diabo?! Foi o menino Arnaldo que se deixou morder por uma vespa.

O sujeito dos foguetes estava contrariadissimo.

—Não ha foguetes completos n'este mundo! dizia elle. A gente, ao sol, nem póde vêr bem a direcção que um foguete toma no ar! Esta só a mim acontece!

O dos palitos exclamava:

—Com uma torreira d'estas nem dá gosto jantar,—quanto mais palitar os dentes! Acreditem os snrs. que para palitar os dentes é preciso estar sentado á sombra, serenamente, sem que as moscas nos persigam. Eu não tenho geito nenhum de palitar os dentes com um raio de sol...

E os grupos dispersos continuavam procurando a sombra por toda a parte, no rio e na areia.

Mas a sombra, com ser uma coisa tão vulgar, não apparecia!

Um trocista affiançou que esperassemos pela noite para jantar, porque ao menos á noite haveria sombra.

Esta idéa sorriu ao sujeito dos foguetes, porque é justamente á noite que os foguetes podem fazer melhor vista.

Mas o dos palitos protestou, por que de noite não lhe seria facil verificar a qualidade dos palitos.[{95}]

Finalmente, depois de muitos trabalhos, uma estreita faixa de sombra appareceu, projectada por um rochedo.

—Isso não é sombra que chegue para todos, disseram alguns.

Mas não havia melhor: resolvemos portanto anichar-nos dentro da unica sombra que a praia nos offerecia.

E, sobre a sombra, as pernas encruzadas á oriental, o prato na areia, jantámos.

Chegava o farnel para o dobro da gente, e assim, para evitarmos uma grande bagagem de retorno, resolvemos comer o que poderia ter chegado á farta para nós e... outros tantos.

Emquanto jantavamos, uma machina photographica reproduziu o grupo pittoresco. D'este modo ficaremos por largos annos saboreando o nosso pic-nic da Foz, ainda muito mais agradavelmente do que no momento em que o fizemos, porque ao menos na photographia não nos falta sombra.

Vejam se eu tenho ou não razão para gostar do passado!

Depois do jantar dançou-se, ao som de uma caixa de musica, no areial.

Se as caixas de musica servem para alguma coisa é para se dançar n'um pic-nic, porque, á volta, confundem-se[{96}] com a outra bagagem, e ninguem se torna a lembrar mais d'ellas.

E é preciso que seja assim, porque eu não conheço nada tão ridiculo como lembrar-se uma pessoa de que já se divertiu ao som de uma caixa de musica!

Mas, no regresso, as carruagens e os cavallos esperavam em cima na estrada, e o areial era immenso.

Lembramo-nos então que nos tinhamos esquecido dos burros!

Como tudo n'este mundo tem compensações, houve quem dissesse que, a haver burros, os foguetes tel-os-hiam espantado.

Que sim; que seria um incommodo para... os burros.

E o sujeito dos foguetes, satisfeito por não ter que contrariar ninguem, nem mesmo os burros, pois que tinham esquecido, mandou para o ar o seu ultimo foguete.

E o outro, o dos palitos, muito bem sentado no char-à-bancs, affirmava que palitar os dentes era o mesmo que tornar a comer... em sêcco.

Mas, sobre tudo, quando este pic-nic ha de ser bom, é daqui a vinte annos... quando o recordarmos saudosamente.[{97}]