XI
Aventuras de um aeronauta portuguez
Está aqui a banhos, na Ericeira, um estimabilissimo rapaz, de fino trato social, excellente cavaqueador, sympathico, gentil e de mais a mais... lendario.
Não ha duvida nenhuma: lendario!
Na Europa, na Africa, na America tem uma lenda, a lenda de um homem que vôa, um filho do ar, que ás vezes, ao descer para a terra, como que recebe da terra mostras de justo resentimento pelo muito que parece desdenhal-a.
Ainda ultimamente, em S. Luiz, nos Estados-Unidos, esteve, ao descer do ar, para ser victima de uma grande catastrophe, que o telegrapho noticiou, e que causou dolorosa impressão em toda Lisboa.[{98}]
Refiro-me a Antonio Infante, aeronauta portuguez... unico!
Foi em 1883 que elle fez em Lisboa, na explanada do antigo Colyseu, a sua primeira ascensão, com o Beudet, lembram-se?
Toda a gente ficou admirada de que um rapaz bem nascido, que apenas conhecia a região do Chiado, se affoutasse a ir devassar os mysterios da região do éther, porque nós os portuguezes, como sempre nos tem acontecido em tudo, lançamos ao ar o primeiro balão, ensinamos os outros a serem aeronautas e nunca mais o quizemos ser.
Parece que no ar, como na terra, tudo está em dar o primeiro passo... perdão, o primeiro vôo.
Antonio Infante fez em Lisboa segunda ascensão, e depois, como o socio do Beudet se desligasse da empreza, Antonio Infante continuou a sociedade e foi-se para Hespanha com o antigo socio do Beudet.
Em Madrid realisou uma ascensão tendo por companheiro um homem conhecido, Ducascal, actualmente deputado e, passando a Italia, subiu em Napoles com o director do Observatorio á altura do seis mil e quinhentos metros, por tal signal que o sabio do Observatorio, tendo lá em cima a vertigem do infinito, encolheu-se no fundo da barquinha, e mandou ao diabo a sciencia e as observações.[{99}]
Eu faria o mesmo, se tivesse perpetrado uma tal aventura.
Mas em Napoles esteve Antonio Infante para representar involuntariamente n'uma tragedia aerea, porque elle não conhece outras.
Procurou-o um desconhecido e propoz-lhe que, a troco d'uma certa quantia, o levasse no balão. O aeronauta acceitou, e, no dia aprasado, estava já o balão quasi cheio de gaz, quando a policia appareceu e prendeu o desconhecido.
Seria um salteador—os salteadores são tão vulgares em Napoles!—que recorresse a esse meio de escapula?
Nada d'isso.
Era apenas um suicida, que já por mais vezes havia attentado contra a existencia, e que d'aquella vez sonhára despenhar-se no infinito...
Se a policia não acode tanto a tempo, Infante teria tido que luctar com o homem dentro da barquinha ou, se elle houvesse podido suicidar-se, teria que livrar-se da suspeita de um crime.
Da Italia passou a Constantinopla, onde o governo do sultão lhe não consentiu que fizesse ascensão alguma. Todos os esforços que empregou, durante muito tempo, foram baldados. Não podendo elle proprio fazer um espectaculo, contentou-se com vêr em Constantinopla[{100}] os espectaculos dos outros. Assistiu, no pateo do palacio imperial, a uma representação dada por arabes. O sultão estava na tribuna com seus filhos, e no andar superior, atravez dos crivos das janellas, os olhares das odaliscas espreitavam avidamente...
Eu já disse que Antonio Infante é um rapaz elegante, bem posto...
Passou ao Cairo, a Alexandria, e foi dar comsigo a Marrocos, onde o sultão o recebeu de boa sombra.
Os marroquinos, incluindo o proprio sultão, viram n'elle um feiticeiro, um homem sobrenatural e, quando o encontravam na rua, diziam uns para os outros supersticiosamente:
—Ua! (Elle!)
Por muito tempo imaginaram que os mystificava, e que, mandando o balão para o ar, não ia dentro d'elle. Mas os mais crentes philosophavam:
—Se o passaro voa, o homem, querendo Deus, póde voar.
Chamavam-lhe Serani kai-tir, o christão que vôa, e ao balão, Quesana kai-tir, com quem diz, barraca aerea.
Considerando-o feiticeiro, procuravam-n'o para tudo,—até para compôr desavenças domesticas, tempestades de ciumes, amúos de namorados.[{101}]
Os marroquinos alimentavam a superstição de que ninguem seria capaz de matal-o com bala de chumbo.
—É como o homem do cavallo branco, diziam elles. Só com bala de prata...
O homem do cavallo branco era o general Prim, que pelos seus actos de bravura ficára tido no norte de Africa como invulneravel ás balas de chumbo.
Foi ás quatro horas da manhã que Antonio Infante fez uma ascensão para o sultão de Marrocos vêr, e a guarda do sultão seguiu o aeróstato, em marcha forçada, até que desceu, para sua magestade se desenganar de que o aeronauta subia tambem no balão.
Da Africa septemtrional traz Antonio Infante muitas recordações agradaveis. Ahi vae uma, que elle conta com orgulho patriotico. Nas portas da Arzilla conservam-se ainda as armas reaes portuguezas, e, sempre que um cicerone explica em Arzilla a historia de algumas ruinas, diz aos viajantes:
—Isto é do tempo do portuguez...
De Marrocos passou a Gibraltar, onde o governador da praça lhe prohibiu que realisasse qualquer ascensão, mas subiu em La Linea, que fica apenas separada de Gibraltar por uma pequena lingua de terra. O balão caiu no mar, em aguas hespanholas, e os carabineiros apprehenderam-lh'o como tomadia.[{102}]
Mez e meio gastou Infante para rehavel-o. A final foi a legação portugueza de Madrid que resolveu o negocio.
Nas Canarias caiu tambem no mar, a uma milha de Teneriffe. Duas horas esteve dentro d'agua á espera que um barco de pescadores o fosse buscar. E em Las Palmas, ao subir, feriu-se de tal modo, que perdeu os sentidos dentro da barquinha.
Foi principalmente na America que a odyssea aerea de Antonio Infante principiou a ter mais vivo interesse.
Em Montevideo, ao descer, deslocou o pé direito, e na Havana caiu na bahia, que os tubarões frequentam.
Seria ignominioso para um filho do ar morrer na, guela de um filho do mar, ainda que esse filho do mar fosse um monstro tão respeitavel como o tubarão. Emquanto esperava por socorro, esta ideia atormentava-o. Nadou sempre, porque o tubarão, para atacar, precisa voltar-se e, nadando, não lhe daria tempo para isso. Além de que, ia vestido de preto, porque o tubarão não ataca o preto. Mas, por cautella, Antonio Infante ia nadando sempre. Finalmente, chegou um escaler de guerra que o levou, e o filho do ar zombou dos tubarões.
No Panamá partiu a perna direita, para que a[{103}] perna não tivesse que rir-se do pé, o qual já tinha sido deslocado em Montevideu.
Em New-York Antonio Infante foi escripturado pelo celebre empresario Barnum, que já gastou este anno em annuncios cicoenta mil dollars. Barnum dava-lhe 500$000 réis por semana, pagando-lhe os hoteis e as viagens. Queria-o apenas como reclame, para fazer uma ascensão á porta do seu gigande circo de lona, que comporta vinte e cinco mil espectadores, e que Barnum vae armando e desarmando de terra em terra, acompanhado de uma grande comitiva de vendedores, que lhe pagam para que os deixe seguil-o. Os pikpockets dão cem e duzentos dollars a Barnum para que lhes permitta venderem bilhetes á porta do circo, tal é a ganancia que elles pódem auferir das suas escamoteações.
Em S. Luiz trabalhou tambem como reclame á porta do theatro onde se representava a colossal magica Os ultimos dias de Pompeia, que mettia quinhentos comparsas e duzentos musicos. A erupção do Vezuvio era um prodigio de pyrotechnia, realisado pelo celebre fogueteiro Pain, que esteve em Lisboa por occasião da visita do principe de Galles.
Uma vez, em Virginia, onde se debatiam eleitoralmente dois candidatos, um republicano, outro democrata, o republicano contratou com Infante uma ascensão para attrair gente ao local do comicio.[{104}]
O candidato faria o seu discurso e, ao dar meio dia, Infante deveria subir. Reconhecendo que estava no paiz da pontualidade, ao meio dia em ponto, Infante subiu. Mas, ao descer, o candidato só quiz pagar metade da quantia ajustada.
—Porque? perguntou o aeronauta.
—Porque quando o snr. subiu, estava eu em meio do meu discurso, e o povo, logo que viu o balão cheio, já não quiz ouvir o resto, que era o melhor...
Foi ainda nos Estados-Unidos, em S. Luiz, que Antonio Infante esteve para ser victima da grande catastrophe, que o telegrapho noticiára.
O balão, ao subir, bateu de encontro a um dos postes da luz electrica, rasgou-se no ar, e abriu-se de alto a baixo no momento em que descia rapidamente.
Póde imaginar-se o que seria esse vertiginoso despenhar-se de um homem no espaço, atravez da escuridão da noite, indo dentro de um balão que phantasticamente se illuminava de fogos de artificio!
Um enorme prego, cravado no fundo da barquinha, segurava exteriormente uma peça de fogo, e, quando a barquinha chofrou com grande estampido no solo, como se fôra uma pedra, foi esse prego que feriu de um modo calamitoso o infeliz aeronauta.
O serviço das ambulancias medicas está organisado maravilhosamente nos Estados-Unidos. Ha communicação[{105}] telephonica entre todos os postos de policia, de modo que a ambulancia, com o respectivo medico, acode de prompto para fazer-se o primeiro curativo, e os carros d'este serviço, que se annunciam por um forte timbre sempre em vibração, tomam a deanteira a todos os outros vehiculos.
Ligeiramente pensado no proprio logar do sinistro, Antonio Infante foi conduzido ao hospital, onde o medico assistente, examinando a gravidade dos ferimentos, o avisou de que a sua vida corria imminente perigo e de que não tinha tempo a perder para o caso de, na sua qualidade de estrangeiro, querer fazer qualquer recommendação.
—Em Portugal, diz Antonio Infante, eu teria sido um homem morto. Nem a minha familia consentiria que eu fosse para um hospital, nem o medico haveria decerto empregado as ultimas violencias da sciencia como in anima vili. Foi isso o que me salvou...
Ora além da dilaceração dos tecidos, Infante havia deslocado o pé direito—sempre o pé direito, que parece ser ainda mais esquerdo do que o outro!—e fôra atacado de uma pneumonia.
Quatro mezes esteve no catre do hospital, sendo visitado por todos os professores e por todos os estudantes de medicina que pasmavam da cura. O medico[{106}] assistente fez grandes reclames, á americana, e durante o mez, que a convalescença durou, uma verdadeira procissão de curiosos correu ao hospital a visitar o aeronauta resuscitado.
Salvo finalmente, Infante deu-se pressa em vir tranquillisar os cuidados da sua familia, e embarcou em New-York por Bordeos para Lisboa.
Agora está na Ericeira, um pouco nostalgico das regiões ethereas, como um passaro na gaiola.
Nas ultimas noites de luar, vi-o sempre sentado n'algum banco do Jogo da Bola a olhar saudoso para o ceu azul, como se estivesse dizendo mentalmente:
—Aquillo, lá em cima, é meu... e de Deus.[{107}]