XII

O Varatojo

No dia 23 de setembro, ás cinco horas da manhã em ponto, estava eu no Jogo da Bola, da Ericeira, á espera dos meus companheiros de viagem.

A lua cheia principiava a empallidecer no ceu, e o sol dormia ainda o ultimo somno na sua camara celeste.

Naturalmente o criado de quarto havia-o chamado já mais de uma vez, se é que o sol não usa despertador á cabeceira da cama, a fim de poder exercer, com a pontualidade que lhe é habitual, as suas funcções de astro rei.

Mas n'esse dia parece que o loiro principe sol estava tão tonto de somno como aquelle sujeito da anecdota, que acordando ao estrondo do despertador,[{108}] o atirou pela janella fóra muito zangado, tornando a ir deitar-se.

Eu proprio, para que tudo fosse excepcional n'aquella madrugada, fiz de guarda-nocturno e andei a bater á porta de um e outro.

—Que eram horas. Que já o char-à-bancs estava á nossa espera na Praça.

E todos elles, uns e outros:

—Já lá vou. Estou a lavar a cara. Estou a vestir o casaco.

Pois o sol tambem n'aquella manhã levou muito tempo a lavar a cara e a vestir o casaco.

Reuniu-se a troupe,—dez ou doze amigos—, subia o char-à-bancs a passo a Calçada Real, e ainda o sol não se tinha dignado apparecer.

Em dez minutos apenas, foram-se encastellando grossas nuvens, carregadas de electricidade, ao longe, sobre as montanhas de Cintra, e trovões distantes ribombavam surdamente.

—Mau! Temos um dia estragado!

O calor começava a ser asphyxiante.

—Que fossem acreditar em poetas! Pois não disséra Castilho que as manhãs de setembro eram frescas?!

Sahi em defeza do querido mestre Castilho.

—Que aquella manhã de setembro tinha, por causa da trovoada, um feitio excepcional. Mas que eu[{109}] me compromettia a dar-lhes no dia seguinte, caso não houvesse trovoada, uma fresca manhã de Castilho.

Então, o sol, com cara de ter passado mal a noite, o que era uma justificação, espreitou atravez de uma nuvem menos espessa.

O char-à-bancs, tendo sahido da estrada de Mafra, principiava a descer para o Gradil, torneando a Tapada, onde, passado o Celebredo, pacatos veados appareciam aqui e alli pastando tranquillamente.

Os caçadores ralavam-se de pena:

—Não poder a gente matal-os! Aqui na tapada a caça brava é abundantissima. No primeiro dia de caçada, os veados quasi vem comer á mão. No segundo dia, já um pouco assustados, mostram-se hesitantes. Só no terceiro dia, comprehendendo a cousa, é que tratam de se alapardar.

—Lá está outro!

Estavam, sim, muitos, á boa vida, porque, como se sabe, na Tapada de Mafra só caça a familia real, e essa vae alli poucas vezes.

Apenas o marquez de Oldoini obtivera ha annos auctorização para poder caçar na Tapada.

Não se sita outra excepção.

Durante longo tempo o char-à-bancs foi torneando a Tapada, que é vastissima, e quando o Gradil nos appareceu lá em baixo, com as suas chaminés fumegantes[{110}] e os seus predios caiados, já estavamos anciosos de avistal-o.

Então as vinhas atacadas de phylloxera principiaram a mostrar-se-nos com grandes nodoas amarellas, indicando uma devastação terrivel na primeira cultura de Portugal.

Quanto mais avançavamos na região de Torres Vedras, mais a devastação alastrava. Videiras doentes, dessoradas, pendiam languidamente com meia duzia de cachos. E ás vezes, no meio de largas manchas amarellas, um pequeno jardim de vinhas, não contaminadas ainda, verdejava sádiamente.

Acontece que, em certos sitios, de um lado da estrada as vinhas estão indemnes, e do outro lado inteiramente perdidas.

No Gradil, como fosse domingo, havia um grupo de homens á porta da taverna. Iam ou vinham da missa, isso é indifferente, mas tinham bebido já. Alguns limpavam ainda a bocca com o dorso da mão.

Estrada fóra, avistamos a povoação do Livramento, depois o Turcifal.

—Aquella casa é de fulano. Aquella outra é de sicrano.

As nuvens negras tinham-se dissipado, o sol, completamente restabelecido, resplandecia, e um calor surdo, abafadiço, cahia obliquamente.[{111}]

Todos mais ou menos iamos fallando do almoço, como da Terra Promettida.

Ora, n'aquelle dia, a Terra Promettida era para nós a casa de Antonio Batalha Reis, a sua quinta do Carvalhal.

Batalha Reis, sendo um grande amador de culinaria, faz petiscos excellentes, unicos.

Já durante uns dias que estivera na Ericeira nos havia offerecido um delicioso bacalhau preparado por elle. Mas, n'aquelle dia, sabiamol-o na cosinha, de barrete branco, caprichoso em offerecer-nos um almoço principesco.

Ao cabo de tres horas e meia de jornada, chegamos ao Carvalhal. Meia hora depois, o almoço estava na mesa, e cada um dos convivas tinha deante de si um prato de sopa de cebola, composição de Batalha Reis. Era a chave de prata que ia abrir esse bello soneto gastronomico. Batalha Reis disse-nos que a chave de ouro a reservava para o jantar,—ás cinco horas da tarde. Mas um coelho guisado, que nos deu ao almoço, valia ouro. Estava divino.

Quando nos levantamos da mesa, todo eu era pressa de partir para o Varatojo, por causa... por causa de um livro: ora ahi está o grande segredo![[1]] Mas[{112}] como tivessemos levado uma machina photographica, fez-se primeiro um grupo, uma scena de duellistas, que crusavam floretes, sabres e lanças.

A machina reproduziu instantaneamente toda esta batalha incruenta, que sahiu bem boa.

Depois, finalmente, partimos para o Varatojo, e Antonio Batalha Reis, que tinha sido um dos duellistas, poz o barrete branco e foi para a cosinha do Carvalhal fazer o jantar.

Atravessamos, de caminho, a villa de Torres Vedras, que se engrandece ainda de uns restos da sua antiga prosperidade vinicula. Boas casas, grandes adegas, homens rolando pelas ruas cascos de pipa. Uma praça com coreto: o rocio elegante. Um magnifico chafariz gothico, denominado dos Canos. Uma egreja com uma bella porta de lavores. Sobre o outeiro, as ruinas do famoso castello. O Passeio da Varzea com o seu sombrio arvoredo de choupos e faias.

Mas nós passamos por tudo isso a correr, rodando para o Varatojo.

Finalmente, á esquerda, na encosta, surgiu um grupo de casas e logo ao pé o telhado do convento e a matta.

Apoiamo-nos no principio da encosta, porque não havia caminho para trem.

E, subindo, chegamos ao largo do convento, de[{113}] humilde apparencia, enterrado ao fundo de alguns lanços de escada.

Uma cruz de pedra e um velho cypreste dão ao sitio essa phisionomia de tristeza que caracterisa os eremiterios pobres.

Descemos os poucos degraus que dão ingresso para o convento, e entramos no atrio.

Á esquerda uma capella com o Senhor dos Passos. Em frente, o postigo da roda, em cujo bordo havia tres escudellas vasias com colheres de páu; sobre o postigo esta legenda: De paupertate nostra frangamus Jesu esurienti panem. Á direita uma porta em ogiva com esta simples palavra no topo: Silencio.

Pedimos licença para entrar, e foi-nos concedida. Recebeu-nos o sacristão em habito de franciscano. Mostrou-nos a egreja, em cujo altar-mór ha a notar a obra de talha, o retabulo, os quadros, os azulejos. No corpo da egreja torna-se digno de menção o altar de marmore, excellentemente trabalhado, de uma capella lateral. É obra recente, executada por um conventual.

Como houvessemos mandado entregar uma carta de apresentação, veio acompanhar-nos um padre franciscano, de habito com capuz, cordão, rosario e sandalias.

Boa physionomia, alegre e rosada. Fallava sem[{114}] biôcos. Quando nos tornou a mostrar o altar de marmore, disse para mim:

—Isto é obra feita no convento. Cá trabalha-se.

Foi depois mostrar-nos o presepio, e chamou a nossa attenção para a figura que representava um cégo tocador de gaita de folles, com borracha de vinho a tiracollo, fazendo-nos notar a circumstancia de que o moço do cégo estava bebendo subrepticiamente o vinho da borracha.

Levou-nos depois á casa dos retratos, onde, eu precisava vêr um, e á casa do capitulo, onde copiei a inscripção de uma sepultura.

Offereceu-nos na casa dos retratos vinho doce, e bolos. Quizemos deixar uma esmola para o convento: recusou-a. Perguntamos-lhe se vendiam bentinhos, porque os desejavamos adquirir como recordação. Sorriu-se.

—Que os bentinhos que tinham, eram os que pessoas de fóra davam aos frades.

Na cêrca offereceu-nos flores, e conduziu-nos até á entrada da matta.

De caminho respondia com boa sombra ás perguntas que lhe faziamos.

Disse-nos que havia uma escóla para o sexo masculino, annexa ao convento, mas com entrada independente.[{115}]

Disse-nos mais que, actualmente, eram uns vinte os frades, e que o resto do pessoal orçava por quinze homens. Que no convento não entravam mulheres, mas que na povoação havia um recolhimento de irmãs hospitaleiras de S. José com escóla para meninas. Accrescentou que viviam pobremente, mas que do seu pouco repartiam com os pobres.

Mostrou-nos a sachristia, em cujos azulejos, que revestem as paredes, se lêem disticos metreficados em castelhano. Por exemplo:

Mi coraçon como cera
Se derrite en dulce ardor
Con tu fuego, ay Dios d'Amor
Si hasta aqui de marmol era.

Estes disticos devem ser composição de Frei Antonio das Chagas, que versejou gongoricamente em lingua hespanhola, e que no seculo XVII reformou o instituto do Varatojo, depois de ter vivido uma vida mundana de militar aventuroso.

N'aquella simples quadra, que de industria preferimos, está todo o drama da conversão de Frei Antonio das Chagas.

Na egreja, no claustro e cêrca encontramos alguns camponezes, uns imberbes, outros velhos, orando[{116}] como em extasi ou lendo livros mysticos. Um d'esses livros; cujo titulo podemos lêr, denominava-se—Devoção das Chagas de Christo.

E ao cabo de uma visita de hora e meia sahimos do convento do Varatojo com a estranha impressão com que o poderiamos fazer ha duzentos annos.

Parecia que o tempo se havia immobilisado no passado!...[{117}]

[[1]] O livro, que já entrou no prelo, intitula-se Vida mundana d'um frade virtuoso.