XIII
O regresso
Com as chuvas dos primeiros dias da semana, começaram as praias a despovoar-se um pouco tumultuariamente.
Ás portas da cidade, segundo me informa um visinho meu que é guarda barreira, chegavam a toda a hora carros e carretas com pessoas e malas.
Toda a familia, segundo me observou philosophicamente o supracitado guarda fiscal, tem a sua praia.
Uns atiram-se ao bulicio da Figueira, outros á aristocracia de Cascaes; estes preferem a Nazareth, talvez por causa dos cyrios, que dão muitos dias de festa; aquell'outros, mais pacatos, isolam-se em S. Martinho do Porto, e contentam-se com ir de vez em[{118}] quando, no caminho de ferro, vêr gente ás Caldas da Rainha, etc.
Eu reflecti maduramente na phrase philosophica do guarda-fiical. Effectivamente, cada familia tem a sua praia.
Uma vez, certa dama vieille roche, recebendo á sua mesa dois primos e um companheiro dos primos, lembrou-se de corrigir a falta que elles haviam perpetrado não lhe explicando genealogicamente a procedencia do companheiro. Á sobremesa, a grande dama, que se tinha desfeito em attenções com o desconhecido, fez estalar o quinau.
—V. ex.ª, disse ella dirigindo-se ao desconhecido, ainda não teve a bondade de nos dizer de que casa era!
O amigo dos primos estava descascando tranquillamente uma pêra. Ouviu a pergunta, levantou a cabeça, fitou por momentos a grande dama, e respondeu:
—Eu, minha senhora, sou da casa... da Supplicação.
Arranjou a ter uma casa, a primeira que lhe lembrou, mas livrou-se do apuro, que era a grande questão.
A respeito de praias, o que é preciso, em chegando o verão, é ter uma, seja qual fôr, boa ou má, alegre ou triste.[{119}]
Ter uma praia! eis o problema. E cada familia trata de partir, ás vezes um pouco mesmo ao acaso, porque, entrando o mez de agosto, presume-se que só ficam em Lisboa os corpos da guarnição e o D. José do Terreiro do Paço.
Tudo o mais abala.
Se eu fosse guarda barreira, havia de aproveitar a occasião do regresso dos banhistas para completar os meus estudos sobre os diversos typos da galeria das praias.
Em Lisboa todas as pessoas parecem vestir e pensar do mesmo modo. A sobrecasaca e o chapeu alto uniformisam a toilette e o espirito de cada um. Mas, nas praias, em plena liberdade de acção, cada banhista veste a toilette que quer, e exhibe com certa semceremonia as suas predilecções, as suas manias, as suas excentricidades de caracter.
Este revela-se jogador. Atira-se á roleta, á batota ou ao baccarat. Senta-se á mesa verde de lapis em punho, faz calculos mathematicos para saber quando o rei deve tornar a sahir ou quando o 36 deve voltar.
Aquelle é pescador de anzol. Passa o dia de canna na mão, sentado nas fragas por horas esquecidas, esperando, com uma paciencia que ninguem lhe suppunha, que o peixe venha picar na isca.
Est'outro, tão pachorrento e pouseiro, como todos[{120}] o conheciamos no Chiado, joga na praia o croquet todo o dia e dança a Valsa toda a noite no club.
Aquell'outro, que em Lisboa faz parte da sociedade protectora dos animaes, manifesta-se um caçador acerrimo, enthusiasta pelas perdizes, doido pelos coelhos, e loquaz chronista de anecdotas cynegeticas.
Conta historias dos seus cães, cousa que ninguem cá lhe conhecia,—nem mesmo os credores.
De todos estes typos da collecção balnear o mais tagarella e o mais imaginoso é por certo o caçador.
Elle tem sempre uma cousa extraordinaria, que lhe aconteceu, para contar.
E no cenaculo da praia, seja n'um estanco, n'uma botica ou n'uma loja de capella, é elle o habitué que tem corda para mais tempo, o caso é dar-lhe a gente a cheirar á imaginação môlho de perdiz ou deixar-lhe vêr por um oculo, n'uma referencia fugitiva, um coelho que elle logo fila para nos impingir a sua illyada venatoria.
Então, enthusiasmado, o chapeu atirado para a nuca, os olhos brilhantes, um riso de satisfação nos labios, elle falla de si, dos seus cães, da sua espingarda, das suas caçadas maravilhosas.
Ou parte logo da mentira para fazer romance ou chega lá a breve trecho. O caçador entra facilmente no paiz da fabula, o caso é haver quem ao de leve o empurre para os intermundios de Diana.[{121}]
—Eu tinha um cão, principia elle.
Até aqui póde ser verdade, posto que ninguem lh'o conhecesse, porque nada ha tão natural como ter a gente um cão... ou mesmo dois.
Mas, por via de regra, o caçador, que tem sempre a imaginação prompta, não se demora muito no prologo.
—Eu tinha um cão, continúa elle, que era... um assombro!
Aqui é que principia o maravilhoso do conto.
—Cão mais intelligente não n'o podia haver. Nem mais dedicado ao dono e á sua familia. Pobre Epaminondas!
Ao soltar esta exclamação, o caçador faz beicinho para chorar. Uma explosão de ternura envinagra os seus olhos, até ahi brilhantes e, fingindo pensar no seu Epaminondas, demora-se algum tempo soluçante, convulso.
—Mas que diabo de mania, pergunta do lado um dos ouvintes, foi essa que você teve de chamar Epaminondas ao seu cão?
O caçador, querendo dominar a sua commoção:
—O que?! Que diabo de mania foi essa?! É facil de explicar. O cão era superiormente intelligente; era, no seu genero, um heroe, uma celebridade, direi mesmo uma gloria. De modo que eu quiz dar-lhe um[{122}] nome glorioso, que elle bem merecia. E não fiz nada de mais. Meu pobre... meu rico Epaminondas! Senti mais a sua morte do que a de meu avô, que eu nunca conheci, por ter vivido sempre no Brazil. Os senhores vão dar-me rasão, vocês vão concordar comigo em lhes eu contando o que aquelle cão era!
A fim de recobrar toda a sua tranquilidade, o caçador faz um intervallo, accende o charuto que tinha deixado apagar, e continúa:
—Vocês sabem que meu pae, tendo recolhido a Portugal, viveu sempre comigo...
Neste momento entra no estanco, se o cenaculo é um estanco, um garoto a comprar dez réis de cigarros fortes.
O caçador interrompe-se, mostrando-se contrariado de que um intruso venha esfriar o interesse que a sua narração estava produzindo no auditorio.
O rapaz recebe os cigarros, e demora-se accendendo um.
Sempre suspenso, o orador espera que o garoto sahia.
Finalmente, continúa:
—Casei, e meu pae ficou vivendo sempre comigo. Tambem era o que valia, para fazer companhia a minha mulher, porque eu, volta e meia, dizia-lhe adeus e ia para a caça com o Epaminondas.[{123}]
—Santa Justa, fracos, diz um freguez conhecido entrando no estanco.
O orador torna a interromper-se. Apertos de mão; as perguntas banaes do estylo. O freguez de Santa Justa demora-se cerca de cinco minutos.
Quando elle sahe com os cigarros da sua devoção, o caçador, tomando uma attitude erecta:
—Mas onde é que eu fiquei?
Do lado ha sempre um apontador espirituoso:
—Sahia você para a caça com Epaminondas quando o homem entrou.
—É verdade! Volta e meia, eu dizia adeus a meu pae e a minha mulher e ia para a caça com o Epaminondas. Pelo caminho, parecia que iamos conversando, porque o diabo do cão fallava.
—Fallava?!
—É um modo de dizer, tão bem se entendia tudo o que elle pensava!
—Homem! diz do lado o espirituoso, isso faz-me lembrar o caso da pateada tacita!
—Vocês não acreditam—prosegue o caçador fingindo-se um pouco indignado—mas eu garanto com a minha palavra de honra a exactidão de tudo quanto digo a respeito do meu Epaminondas. Pelo caminho iamo-nos entendendo como dois bons amigos. «Que te parece hoje o dia?» perguntava eu. E o Epaminondas[{124}] respondia: «Boa caçada; o dia está magnifico para as perdizes.» Ou então torcia o nariz, como a dizer: «Isto hoje não dá nada que se veja.» E depois parecia accrescentar: «Mas em todo o caso eu hei-de fazer-lhe a diligencia.» Se o cão tinha concordado comigo em que era dia de boa caçada, acontecia assim, por força. D'alli a nada não tardavam a apparecer bandos de perdizes, ás vezes até a pequena distancia de casa.
N'este comenos assoma ao limiar do estanco o boletineiro do telegrapho.
—Os snrs. não saberão dizer-me quem é o snr. Antonio do Espirito Santo Soares?
Que não: que não é conhecido.
O boletineiro vae-se embora, e o caçador prosegue:
—Se alguma das perdizes era mais gorda, eu aproveitava a occasião para fazer uma galanteria a meu pae ou a minha mulher, e mandava o cão a casa com a perdiz.
—Olha lá, dizia-lhe eu entregando-lh'a, tu vaes n'um instante a casa levar esta perdiz a meu pae. Mas toma cuidado, Epaminondas, olha que esta é para meu pae. Nada de tolices, Epaminondas!
O cão partia por alli fóra como um relampago, com a perdiz nos dentes.
Chegava a casa mais depressa do que eu o estou[{125}] dizendo, e ás vezes a primeira pessoa que encontrava não era meu pae mas minha mulher.
Como era natural, minha mulher, até para experimentar a intelligencia do cão, queria tirar-lhe a perdiz.
E o Epaminondas, como se não fosse realmente um cão, mas uma pessoa, dizia-lhe:
—Nada, não. Esta mandou-a o senhor para o pae. Logo virá outra para a senhora.
—O que?! Pois o cão dizia isso?!
—Está claro que não dizia como a gente o diz. Mas fazia-se entender de tal modo, que minha mulher deixava-o passar, e era meu pae que recebia a perdiz. Depois o Epaminondas voltava logo.
—E dizia alguma cousa?
—Dizia, sim; pelo menos eu entendia-o. «Seu pae diz que muito obrigado; mas a senhora tambem quer.» «Está bem, Epaminondas, respondia eu; logo irá para a senhora.» Ora acontecia que eu algumas vezes me esquecia do compromisso que havia tomado; mas quem não se esquecia era o cão. Em cahindo alguma perdiz mais geitosa, o Epaminondas estava-me logo a dizer: «E a perdiz da senhora?» «Pois bem, leva lá a perdiz, e não te demores.»
—Mas qual era o processo de eloquencia a que o Epaminondas recorria para se fazer comprehender tão explicitamente?[{126}]
—Eu sei lá! Era tudo: os olhos, o focinho, o rabo. Era tudo!
—Diga antes você que estava tão habituado com o cão, que já o entendia, como a gente, á força de habito, chega a entender um surdo-mudo...
—Qual historia! De uma vez morreu a mulher do regedor de Loures, que morava a dois passos da quinta em que eu estava. O cão ouviu, e percebeu o que o criado tinha contado. E, sem que lhe tivessemos dito nada, sahe por alli fóra, e vae a casa do regedor dar-lhe os pesames!
Quando a imaginação do caçador tem aquecido até á temperatura do maravilhoso, já não ha ninguem que seja capaz de detel-o. É como um rapido que passa. Parece ás vezes, o que é phenomenal, que chega a acreditar o que diz, e que adquire a convicção de que os outros o estão acreditando.
Pois em cada praia ha sempre um caçador... pelo menos!
O guarda fiscal confirmou plenamente esta minha observação.
—Sim, senhor, disse-me elle. Eu conheço-os: ás vezes, fico até admirado de que não tragam espingarda na bagagem!
Lisboa, 8 de outubro de 1888.[{127}]
300 RS.