(AGOSTO DE 1873)
Tu eras o menestrel da peninsula, o trovador de capa traçada, que dedilhavas o bandolim dos teus cantares sob a janella illuminada pelo formoso luar das serenatas.
Tu eras a madrilena, de mantilha de rendas, olhos de fogo, que passeava á tarde no Prado, agitando a ventarola, os olhos e o mundo...
Tu eras o torero, de jaqueta azul constellada d'estrellas d'ouro e prata, que te erguias no meio da arena, de pé como os triumphadores, victoriado pela multidão.
Tu eras o amor ardente que descanta ao luar, o salero que justifica a serenata, a força que vence os obstaculos.
Eras um paiz que mantinhas o esplendor da tua individualidade sem fechares a porta á invasão dos progressos moraes e materiaes do seculo.[{240}]
Tinhas o teu idioma, as tuas danças, os teus cantares, os teus espectaculos.
Tinhas reis como S. Fernando, poetas como Campoamor, pintores como Murillo, campeadores como o Cid, oradores como Castelar...
Um dia, porém, uma d'estas grandes fatalidades, que pesam sobre todas as nações, avergou a tua nobre cerviz, e um rei estrangeiro, não podendo conter a impaciencia das ambições, desceu do throno a que fôra chamado, depondo nas tuas mãos a corôa que de ti havia recebido.
E como são sempre os clarões nascentes da aurora que succedem aos clarões moribundos do occaso, como é sempre a flôr que succede ao cahir das folhas mortas, tu quizeste levantar sobre as ruinas da monarchia a bandeira vermelha da ideia nova.
Havia n'essa tua aspiração, ó Hespanha, um tributo nobilissimo á memoria do teu ultimo rei.
Elle descera do throno com a magnanimidade com que Codro se expozera á morte, e a Hespanha, como Athenas, queria deixar para sempre devoluto o solio por não haver rei mais nobre que viesse occupal-o um dia.
Não rolaste pelas ruas da capital, cuspindo-lhe as injurias da canalha, a corôa da monarchia.
Não, archivaste-a na sancta-sanctorum das tuas gloriosas tradições, porque essa corôa a cingira D. Amadeu, e D. Amadeu fôra o omega da realeza hespanhola.
Não a consideravas escarneo; veneraval-a como reliquia.[{241}]
Então, ó Hespanha, os teus poetas, os teus pintores, os teus dramaturgos, os teus campeadores, os teus heroes ficaram supplantados por um homerico vulto cuja eloquencia jorrava em catadupas scintillantes pela bocca d'oiro do teu João Chrisostomo.
A voz do teu grande orador apostolisava o evangelho d'uma nova religião politica. Não era o inimigo dos reis que se levantava a insultar-lhes as cinzas depositadas nos tumulos soberbos do Escurial. Elle queria vencer sem sangue, combater sem ferir, semear sem revolver a terra!
Impossivel!
Santa aspiração que não póde traduzir-se em facto, sonho de fraternidade angelica sem realidade entre os homens, onda crystalina que não chega a banhar todos os corações porque encontra no caminho obstaculos e barreiras.
As auroras da terra não esplendem apenas como as do céo. São chamma. Cospem centelhas, e muitas vezes a centelha é o pollen luminoso que gera o incendio.
A luz tornou-se labareda.
Acordaram, sacudindo as tranças enleiadas de viboras, as Meduzas da ambição, as Furias do socialismo, os Omares dos fachos incendiarios.
Mobilisaram-se tropas, rodaram carretas, soaram clarins.
Caim armou-se para derrubar Abel.
Jacob vestiu no braço a pelle do anho para enganar a cegueira de Izaac.[{242}]
A insurreição vendeu o Messias da nova ideia pelos trinta dinheiros de Judas.
O luar da Hespanha, o doce confidente das serenatas, volveu-se sanguineo, como o reflexo d'uma forja.
O templo, onde porventura existia uma Virgem de Murillo, ficou devoluto, abertas as portas, e as aves de rapina entraram para os saquear depois que o pastor espiritual saiu para combater.
O bandolim do menestrel emmudeceu sob a ventana; os echos do Prado não repetiram mais o chalrar das morenas da mantilha.
A bandeira hespanhola nunca mais foi reverenciada na solidão das aguas com o culto que se deve ás côres nacionaes d'um paiz livre.
Que importa que fosse aquella bandeira a mesma que acompanhou Christovão Colombo ás regiões ignoradas do mundo novo?
Os descobridores morreram; ficaram apenas os piratas.
O descobridor era saudado pela artilheria; o pirata é aprisionado por ella.
Ruinas d'uma nacionalidade, petalas d'uma grinalda desfolhada, recordações horriveis d'um sonho vago...
E ainda de pé o vulto gigantesco, que sobrevive á sua propria ideia, o sonhador que subsiste á sua aspiração, o jardineiro que não estremece ao perpassar do tufão que lhe arrebata o jardim do seu ideal!...
A sua voz sobranceia os rumores da tempestade; é ainda o verbo da paz no meio da lucta, ouve-se na Europa[{243}] inteira a palavra do Lazaro immortal que desperta nas profundezas do tumulo:
«Nós, os republicanos, temos muito de prophetas, pouco de politicos. Sabemos muito do ideal, pouco da experiencia; abrangemos todo o céo do pensamento, e caimos no primeiro fosso que ha no nosso caminho. Assim succede e tem succedido sempre na historia, que os inimigos dos partidos progressivos fundam as ideias progressivas, como o judeu S. Paulo fundou o christianismo: como o monarchico Washington fundou a republica do Norte da America; como Rivadavia, outro monarchico, fundou a confederação das republicas do sul da America; que nem o Baptista na egreja, nem Rosseau na revolução, nem nenhum dos prophetas consolidou a propria reforma por elles annunciada e trazida; do mesmo modo que Moysés guiou para a terra promettida, e não chegou a entrar na terra promettida; do mesmo modo que Colombo descobriu a America sem saber que a tivesse descoberto para que uns guerreiros andaluzes e extremenhos a conquistassem e uns obscuros pilotos italianos a baptizassem; porque os que concebem e presentem as grandes ideias, não as realisam nem consolidam em nenhuma época da historia.»[6]
E não obstante referver ainda o cahos á hora em que o Moysés da Hespanha se preparava para escrever o[{244}] genesis da nova creação, e atiçarem-se as labaredas do incendio geral, e despirem-se os altares; não obstante fugir a Hespanha da Hespanha espavorida de sua propria crueza, e demandar o tecto hospitaleiro dos Euryalos estrangeiros, e a bandeira da patria despertar contra si a aggressão dos paizes extranhos,—elle, o gigante ferido no coração pela funda de David, quer morrer ou renascer abraçado aos escombros do seu berço:
«Eu quero ser hespanhol e só hespanhol; quero fallar o idioma de Cervantes, quero recitar os versos de Calderon; quero colorir a minha phantasia com os matizes que tiravam das suas palhetas Murillo e Velasquez; considerar como pergaminhos meus de nobreza nacional a historia de Viriato e de Cid; quero ter no escudo de minha patria as naves dos catalães que conquistaram o oriente e as naves dos andaluzes que descobriram o occidente; quero ser de toda esta terra, que ainda me parece estreita, sim, de toda esta terra que se estende dos Pyreneos ás ondas do gaditano mar; de toda esta terra ungida e santificada pelas lagrimas que custara a minha mãe a minha existencia; de toda esta terra redimida, resgatada do estrangeiro pelo heroismo e pelo martyrio de nossos immortaes avós.»
É que só elle é maior que a Hespanha toda.