(CARTA A JULIO CESAR MACHADO)

MEU JULIO:

D'esta vez o assumpto é... grande.

E, quem como o Julio sabe o que é ter de dar um folhetim em determinado dia, comprehende que é muito mais raro encontrar um assumpto grande do que uma mulher grande. D'esta vez apparecem simultaneamente os dois phenomenos,—uma mulher que é um assumpto, e um assumpto que é uma mulher, ambos grandes. Ora este folhetim é nada mais e nada menos que a Giganta;—ella é a que ha-de encher estas seis columnas, talvez com os bicos dos pés ainda de fóra por não caber perfeitamente n'ellas. Esta notavel mademoiselle Rose tem passado de paiz em paiz, e de folhetim em folhetim. O Julio escreveu d'ella o brilhante folhetim que n'este jornal reproduzi quarta-feira; hoje escrevo eu, não com pretenções a desbancar o Julio, mas a desbancar a Giganta. Eu lhe explico. Sendo certo que nós[{128}] todos devemos professar o mais profundo respeito pela tradição biblica, e ensinando ella que o pequeno David recebera o collossal Gollias com uma simples funda, eu quero tambem, segundo a santa lição, receber ao estylo apocalyptico esta illustre representante da familia gigantea: atirando-lhe com um folhetim.

Fui vel-a. Era á noite, á hora dos namorados, como o Julio disse. Desde que entrei a porta senti chilriar em francez, e eu mesmo, antes de procurar o dinheiro na algibeira, procurei no meu espirito recordações da grammatica do Albano e do diccionario do Fonseca. Comecei por ser francez, dando um franco pela entrada. Ainda quiz vêr se, como geralmente succede no commercio, me fariam o franco a 180. N'essa noite porém a sala estava cheia, sentia-se dentro a alegria franceza á mistura com umas ligeiras modulações no piano, e o cambio estava alto. Resignei-me a dar pela entrada o que até agora se dava por uma edição de Michel Levy. Em todo o caso sempre era um livro que eu ia lêr. Antes de correr a cortina vermelha, a tradicional cortina vermelha que empana todas as celebridades, disse para dentro, com voz que sobrelevou o murmurio, a madame que recebia as entradas:

Il y a du monde.

Esta phrase, que visivelmente se referia a mim, fez-me estremecer d'orgulho. Está a gente, n'estas agrestes lides da imprensa, tão costumada a vêr-se depreciada em jornaes e opusculos, que já teria por grande elogio chamarem-lhe microcosmo. Vae a madame da[{129}] porta e chama-me mundo, como quem diz: Entra o snr. Cosmos. Estava eu quasi a deixar cahir a cortina, para deitar uma falla á madame encarecendo-lhe a grandiosidade da sua lingua patria, quando me lembrei, por intervenção do José da Fonseca, que ella simplesmente quizera avisar para dentro de que entrava gente.

Era tarde para retroceder,—entrei.

Ao fundo da sala, erguidas sobre estrado, e ambas sentadas, deslumbraram-me duas mulheres. Ao nivel do estrado ondulavam as cabeças dos admiradores. O fumo dos charutos, que caprichosamente se derramava no ar, fez-me lembrar a vaporação d'uma pyra. Insensivelmente tirei o chapéo. Das mulheres, a mais alta, mandou-me cobrir em francez. Eu cobri-me em portuguez. A mais gorda mandou-me sentar, e, a esse tempo, já eu estava tão enleiado, que não sei bem se me mandou sentar em francez, se em portuguez. Eu sentei-me universalmente,—como todos.

Sempre lhe quero dizer, meu querido Julio, a razão do meu enleio. O Julio fallava apenas da Giganta, e eu fui encontrar, na saleta da rua de Santo Antonio, duas mulheres: a Giganta e a outra.

Foi uma agradavel surpreza o poder lêr dois livros pelo preço d'um só. Achei então que o Michel Levy estava sendo caro, vendendo o volume a duzentos e cincoenta. Esta litteratura viva, muito mais agradavel á vista, pareceu-me economica. Depois d'estas ponderações entrei de examinar as mulheres. Ergui o meu olhar[{130}] á altura de dois metros e quinze centimetros, e encontrei a cabeça da Giganta—mademoiselle Rose. Depois desci com a vista até encontrar as quatorze arrobas da outra,—mademoiselle Claire. Estive hesitando entre as arrobas e os metros, e decidi-me pelo systema decimal. Eu só acredito que uma mulher é franceza, sendo alegre. Ora mademoiselle Rose estava cantarolando com coquetterie o Orpheu nos infernos; e mademoiselle Claire desfolhava tristemente uma flôr. Esta circumstancia levou-me a perguntar-lhe se era franceza. Respondeu-me mademoiselle Rose que era sua irmã, e do mais que me disse deprehendi que eram ambas francezas, que tinham quinze irmãos, o mais novo dos quaes estava sentado ao piano.

Pedi logo para vêr os outros quatorze. Mademoiselle Rose sorriu do meu equivoco, e respondeu-me que eu teria de navegar o Atlantico para os ir vêr a França. Consultando o programma, que me deram á entrada, e o folhetim do Julio, vi que era verdade ser mademoiselle Rose uma mulher d'espirito. Depois, como mademoiselle Claire se zangasse com um admirador que lhe estava bulindo no pé, vi que o programma era tambem verdadeiro na parte que lhe dizia respeito: tem bellas maneiras e todas as qualidades proprias do bello sexo.

N'isto erguem-se ambas ao mesmo tempo, e annunciam explicação. Os espectadores da geral arregalaram os olhos. Mademoiselle Rose tomou a mão para fallar, e um espectador da superior atalhou do lado:

Parlez en français.[{131}]

Ella sorriu, e disse em francez:

«Mrs. e M.mes, nous sommes françaises, nées à Paris; ma soeur (Claire) est agée de dixhuit ans et moi (Rose) de vingt ans.

«S'il y a parmi l'honorable societé une persone qui desire connaitre la différence de taille, elle peut s'approcher. Vous pouvez voir que nous avons la main et le pied petits por être ma soeur aussi grosse, moi aussi grande, et le molet proportionné.»

(Reproduzo fielmente o francez... d'ellas.)

Mademoiselle Claire limitou-se a mostrar a mão, o pé e a perna, porque, realmente, aquella linguagem plastica era eloquente de sobra.

Não obstante, eu continuei a optar pelo systema decimal.

Como porem o publico da geral désse mostras de não ter entendido nada, tornaram a levantar-se e a fazer uma explicação em portuguez. Quando mademoiselle Rose chegou ao ponto de dizer: e a barrica da perna regular, eu tive tentações de observar:

C'est vrai: barrica.

Calei-me, porque ella estava fallando.

N'este comenos um lavrador da geral começou a rir e a apontar para a Giganta, que lhe perguntou o que elle queria.

O lavrador, com o mesmo sorriso alvar, tartamudeou:

—É que eu queria perguntar se o paisinho da menina era do mesmo tamanho.[{132}]

—Muito grande! muito grande! respondeu a Giganta abrindo as mãos e sorrindo em francez para os que entendiam aquella lingua.

A mulher do lavrador benzeu-se, e disse para o homem:

—Olha que ainda é maior do que o castanheiro de Quintães!

Começou então a sahir o publico da geral, e a madame da porta, que é cunhada da Giganta, a dizer de cada vez:

Il y a du monde.

D'uma vez olhei, e vi entrar um anão. Que mundo tão pequeno! Reconheci que não me devera ter orgulhado da phrase, e entrei de admirar a coragem do anão que, voluntariamente, se expunha a ser vencido por uma mulher. E eu, interposto áquellas antitheses, lembrei-me de que a humanidade era a rethorica da creação, e de que da variedade das figuras procedia o que no poema da vida ha de recreativo.

Em todo o caso achei muito melhor ser gigante, porque sempre se vae vivendo á custa dos... pequenos. E depois, aquelle estrado em fórma de solio dava a ideia de realeza. Realeza d'estatura, é certo;—com prós e contras, como todas.

Ella alli está, pensei eu, admirada, festejada, galanteada, recebendo flores e rebuçados, tão feliz, tão feliz, que tem sempre vinte annos! Mas tambem, horror! nascer uma mulher gentil, elegante, coquette, e viver sentada, entre os seus pannos vermelhos, sem poder espanejar-se[{133}] ao sol no verão, sem poder molhar os pés no inverno! Molhar os pés, digo eu, porque isso mesmo, que é para nós um desastre, seria para mademoiselle Rose uma deliciosa surpreza! Tem corrido a Europa sentada, e dizem-me que tenciona ir agora sentar-se á America. O mundo é para ella uma cadeira. Se algum dia quizer fazer exercicio, a conselho dos medicos, e subir ao pico do Himalaya, para admirar o mundo, ella, que tem sido admirada pelo mundo, e vir ao sopé da montanha uma tribu do Indostão ou uns pastorsitos de Thibet, dirá logo voltando-se para o irmão:

La chaise, mon frére, il y a du monde.

As mulheres vão ao theatro, passeiam, dançam, e ella, tendo talento, como realmente tem, vive sentada, a repetir sempre a mesma coisa, victima da sua propria realeza! Como não póde passear ella mesma, vae passeando em photographia, e espalhando o seu retrato.

Um dia bem póde ser que se sinta incommodada a ponto de ter inveja da sua photographia, que tenha um ataque nervoso por querer sahir, e que o medico declare que precisa d'andar durante vinte e quatro horas. N'esse dia estará perdida na terra onde estiver, porque todos a verão de graça, que é justamente a maneira porque ella não quer ser vista. A sua cadeira perderá todo o prestigio, e desde então a cadeira da Giganta ficará valendo tão pouco como a Giganta. Uma e outra perderão todo o mysterio. Mysterio, digo eu, porque seguramente a Giganta o tem.

Quando é que ella chegou? Quem a viu descer das[{134}] Devezas, atravessar a ponte, passar na rua de S. João, das Flores, subir finalmente a rua de Santo Antonio? Como é que ella entrou por aquella porta tão pequena,—tão pequena, que muita gente cuido eu que dará de vontade os dois tostões, não tanto para vêr a Giganta, como para averiguar o modo porque ella entraria? Quando partirá? Quem a verá? Não se sabe. Ella tambem pouco sabe do mundo, a não ser que no mundo ha dois tostões, e que o mundo gosta das photographias, e dos originaes tambem.

Recebe dinheiro e nunca viu um Banco. Recebe flores, e nunca viu os jardins.

Não obstante, a realeza de estatura tem suas vantagens para uma mulher. Quanto o marido lastima, se é casado, ter de vestil-a, folga ella com a certeza de não poder queimar as suas tranças. Eu vou, meu caro Julio, fazer-me perceber melhor. Sabe o Julio, sabe toda a gente, como as mulheres estimam as suas tranças, pretas ou loiras, avelludadas como a noite ou radiosas como o sol; com que fé não lhes prendem uma flôr, que sempre lhes fica bem, porque emfim as flores tanto são do dia como da noite. Pois bem, supponha o Julio que uma mulher está lendo o seu poeta favorito, á luz de stearina, muito curvada, tão curvada sobre o livro, que chega a crestar os cabellos! Sendo o cabello a força, a mulher perdeu muito da sua individualidade. É um cataclismo. Mas a Giganta, com os seus dois metros e quinze centimetros, por mais febril que seja a leitura, tão superior hade ficar sempre á luz, que póde viver inteiramente tranquilla[{135}] ácerca da inviolabilidade das suas tranças. Quando muito, poderá acontecer-lhe apagar a luz com a respiração, e ficar ás escuras.

Todavia bastará uma caixa de phosphoros para proseguir na sua recreação; e, para ella, os phosphoros são tão baratos, que qualquer pessoasinha, por mais pequena que seja, valendo dois tostões, vale vinte caixas de phosphoros.

E nós, meu caro Julio,—olhe que differença!—valemos tão pouco, que sahindo de casa com a nossa caixa de phosphoros, levamos apenas comnosco a vigesima parte d'uma Giganta.[{136}]

[{137}]