HISTORIA VELHA

Sou muito novo para não ter esperanças e muito velho para deixar de sentir o suave doer da saudade. Espero no futuro, na baixa das inscripções, nas bancarotas, nas dictaduras, espero em tudo o que nós podemos ter de bom em Portugal, e não posso deixar de lembrar-me saudoso do passado, das suas crenças, das suas obras, uma das quaes somos nós, das suas tolices tambem.

Se ponho olhos no futuro, refujo de medroso para o passado e apraz-me então conversar com os homens que foram, os quaes me contam coisas maravilhosas e graves. Ora succede tambem que muitas vezes me fico pasmado diante do estendal das relamborias semsaborias das sociedades extinctas, mas nem por isso deixo ainda de querer ao passado, que não nos deu os barões, nem os penicheiros, nem as companhias de caminhos[{222}] de ferro, innovações mil vezes mais causticantes que as supraditas semsaborias. Revivam pois as sinceras crenças e as ingenuas tradições de nossos avós, e conversemos d'elles e d'ellas emquanto a sociedade moderna applaude o espectaculo de si mesma.

O primeiro varão respeitavel que temos a conversar chama-se Antonio Cerqueira Pinto, cidadão da cidade do Porto e academico supranumerario da academia real da historia portugueza, o qual escreveu e estampou a Historia da prodigiosa imagem de Christo crucificado que com o titulo de Bom Jesus de Bouças se venera no lugar de Mathozinhos, na Lusitania.

Posto isto como apresentação indispensavel, vamos direito ao assumpto e oiçamos o Cerqueira n'uma das paginas do seu livro:

«Consiste pois o principal d'este admiravel successo, em que voltando S. Thiago de Hespanha a Jerusalem, com os sete discipulos, que na provincia interamnense da Lusitania convertera, e havendo triunfado em martyrio n'aquella mesma cidade, em que Christo remira o mundo, emprehenderam os mesmos discipulos, tanto por anterior recommendação do santo, como por divino impulso, reconduzir o seu sagrado cadaver a esta parte, para ter o jazigo, na em que fôra missionario apostolico.

«Embarcados com elle em Jope, porto maritimo da Palestina, e navegado em breves dias para o Occidente, o Mediterraneo, costeando pelo oceano a Lusitania, com rumo direito a Galiza, parou como em calmaria a[{223}] embarcação, á vista do venturoso logar de Mathosinhos, não por faltar-lhe o vento, pois vinha celestialmente equipada, e tanto de divinas auras favorecida, que lhe levou brevissimos dias a derrota sendo d'extensão bem dilatada; mas por permittir o céo, que n'esta escala tivesse S. Thiago por refresco uma salva real, como teve na conversão do copioso gentilismo, que n'aquella praia se achava então celebrando os regios desposorios referidos (uns que se celebravam n'esse dia em Mathosinhos) em justas, torneios, lanças, e outros applausos ao antiquado uso, que n'estas partes haviam introduzido os primeiros adventicios dominantes gregos.

«E sendo n'este festejo um dos jogos celebrados, o a que chama o Flos sanctorum antigo de Alcobaça, andar bafordando[3] porque os cavalleiros na praia em concertados meneios entravam pelas candidas espumas, que ao mar costumam servir de crespo bordado ao ceruleo adorno, com que gallea; succedeu por alto mysterio, que do noivo o cavallo desperando do domante freio os regulados preceitos, se arrojou ás ondas, intrepido, com tanto fogo, que julgavam magoados os circumstantes ao cavalleiro desgraçadamente perdido; porém elle prodigiosamente venturoso chegou sem perigo a abordar á nau, em que com os seus discipulos estava o corpo de S. Thiago, e lhe serviu de segura tabua a salvar-se, e a todo o logar do naufragio gentilico, por ir Deus assim dispondo aquelle especioso terreno para[{224}] soberano deposito da veneravel imagem de Christo Crucificado.

«Junto da nau, entre os confusos assombros de vêr-se na fluida inconstancia das anfuas, como em terra firme, seguro, notou e advertiu o cavalleiro, que não só chegava de maritimas conchas matisado: mas que no mesmo perigo achava quem o livrasse do susto na milagrosa exposição do Mysterio e instruido nos da Fé, recebido o sagrado baptismo por um dos santos discipulos administrado, impresso bem tudo no seu conceito com prazer inexplicavel convertido, e por aquelle sacramento illustrado; advertido finalmente do mysterioso final, que as conchas haviam de ficar representando feito missionario apostolico, triumphante da culpa, e dos mares para elle já todos de graça, voltou em airosa carreira pela liquida torrente ao mesmo sitio, d'onde tinha sahido naufragante.»

Não cuidemos de saber como Sam Thiago se refrescava com uma salva real, nem commentemos os pasmos do cavalleiro ao vêr-se matisado de maritimas conchas. Esmiuncemos que regios desposorios eram esses que se celebravam na praia da villa de Mathosinhos.

Parece que a palavra regios se não quer referir unicamente ao fausto das bodas, que foram sobremodo lusidas como inculca o citado Flos sanctorum antigo de Alcobaça, cujo texto vem citado no Catalogo dos bispos do Porto[4], de D. Rodrigo da Cunha, a pag. 20,[{225}] part. 1.ª «... e a Cavalaria, e as Donas, e a gente moita, e cada um fazia o que sabia, que pertencia á boda: e os huns lançabão ao tavoado, e os outros bafordabom, mas entre estes que bafordabom, bafordava hi o noivo.» Hoje não se ostentam nas bodas proezas de cavallaria: os convidados esgrimem contra os taboleiros, e os noivos esperam que os convidados devastem os podins para se verem livres dos importunos parasitas de luva branca.

Mas, tornando ao conto, escreve ainda D. Rodrigo da Cunha: «Não é só o Flos sanctorum de Alcobaça o que faz menção d'este milagre, que deu occasião a se converterem tantas almas n'este nosso Bispado, e em lugares tão visinhos ao Porto. No Breviario antigo da Sé de Oviedo, se acha um hymno, que se costumava a resar na festa de Sanct'Iago aos 25 de julho, em que claramente se faz allusão a elle. Dizem os versos do hymno:

Cunctis maré cernentibus:
Sed á profundo ducitur;
Natus Regis submergitur;
Totus plenas conchilibus.

Chama ao cavalleiro, que se recebia filho d'El-Rei, porque sem duvida o seria d'algum regulo, a quem os Romanos soffriam estes nomes de dignidades, em quanto lhe não impedia a subjeição a seu imperio.»

Como d'aqui se deprehende, conjectura-se nas passagens citadas a fidalguia do noivo, natus regis, e por isso adjectivaram de regias as bodas.[{226}]

Não obstante divergem as opiniões sobre a qualidade e nome dos nubentes. Não os nomeia o Flos sanctorum do mosteiro de Alcobaça, copiado por D. Rodrigo da Cunha e outros doutos varões, com quanto circumstanciadamente conte do milagre. D'esta lacuna procede todo o embaraço, porque o padre frei Luiz dos Anjos os nomeia Cayo Carpo, natural da Maya, e Claudia Loba, do Porto; e D. Pedro Seguino, bispo d'Orense, escreveu que o cavalleiro se chamava Rivano e a dama Valeria.

Ao noivo uns o dão como liberto de Augusto Cesar, e outros como filho d'algum poderoso regulo das Hespanhas. Ora a nobreza da mulher, suppõe Cerqueira Pinto,—que persiste em chamar a elle Cayo Carpo e a ella Claudia Loba,—que era das primeiras e melhores: «no conselho da Maya, que he, e foy sempre contiguo á mesma Cidade, (do Porto) e onde está situado o lugar de Matosinhos, havia cavalheiro capaz de casar com mulher daquella nobre familia...» Pelo que se vê, a villa de Mathosinhos era alfobre de preclara nobreza em que floreciam varias fidalguissimas Claudias. Hoje, se Claudias ha em Mathosinhos, trazem saia pelo joelho e seguram vigorosamente contra a ressaca as esgrouviadas banhistas que vão molhar no mar os nervos doentes.

Ó decadencia das Claudias, e outras!

Não vae o nosso amor pela antiguidade até averiguarmos cabalmente o verdadeiro chamadoiro e nascimento dos noivos de Mathosinhos, e até, para conciliarmos[{227}] os consultissimos historiadores, não temos duvida em matrimoniar Valeria com Cayo Carpo e Rivano com Claudia Loba. D'esta maneira, ficariam por igual comprazidos os chronistas que divergem sobre o nome do cavalleiro que sahiu ao mar, e da noiva que ficou em terra.

Do prodigio resultou a total conversão do logar de Mathosinhos á fé catholica, e, segundo diz Cerqueira Pinto, de toda a nobreza do Porto e da Maya, que estava presente. Tambem lembra o historiador que o nome de Leça, dado ao rio, poderia derivar da alegria devida á aproximação da nau que conduzia S. Thiago ou á plenaria conversão d'aquellas gentes.

É pois certo que o logar de Mathosinhos, onde o leitor descuidosamente passeia o seu aborrecimento em mezes de banhos, é por mais d'um respeito celebre, porquanto no 1.º de abril do anno de 44 se operou o prodigio que vimos historiando, e d'ahi a oitenta annos aportou áquella praia a imagem cuja historia Cerqueira Pinto particularmente escreveu no livro de que havemos extrahido estes apontamentos.

A par da tradição religiosa, que deriva das bodas de Cayo Carpo com Claudia Loba, corre a tradição nobiliaria, como se os homens, ciumentos das glorias da Igreja, quizessem sequestrar-lh'as em grande parte para satisfazer sua vaidade.

Conhecel-o-ha o leitor, se me quizer acompanhar a Benavente, districto de Evora, onde encontraremos n'uma das torres da matriz as armas dos condes d'aquelle[{228}] titulo, as quaes armas representam cinco conchas em escudo liso.

Este é o ponto em que a tradição religiosa prende com a tradição nobiliaria.

Do cavalleiro de Mathosinhos, predestinado para tamanhos prodigios, qual foi o de galopar por sobre as ondas muito melhor do que nós pelas nossas estradas, procede a familia dos Pimenteis, de Traz-os-Montes, aos quaes Pimenteis appellida de nobres um chronista. Não sei se todos os ramos de Pimenteis teem iguaes fóros de nobreza e motivos de prosapia. Os Pimenteis de que eu descendo foram homens honrados e obscuros, que nem com titulos litterarios se podem abonar, o que prova que os meus antepassados tiveram mais juizo que eu.

Do fidalgo matisado de maritimas conchas procedeu João Affonso Pimentel, senhor de Bragança e primeiro conde de Benavente, o qual as tomou por brasão assim como pudera adoptar o corcel miraculosamente subjeito ás rebeldias do oceano.

Consta tambem que as mesmas armas estão gravadas na torre do castello de Bragança, mas se o leitor não as vir lá, nem na torre da parochia de Benavente, fique sabendo que eu fui muito menos feliz n'estes vagalhões de grossa erudicção do que o cavalleiro da chronica nos mares aparcellados da praia de Lessa.[{229}]