(NO DIA 21 DE JUNHO DE 1873)

S. João é o Anacreonte do christianismo.

Eterna mocidade, inextinguivel alegria, olhar brilhante, faces rosadas, cabellos revoltos, sorriso nos labios...

É o das canções, dos bailaricos, dos amores, dos mysterios.

Na sua noite de tal modo sabe distribuir pelas alamedas os claros-escuros do luar, que parece haver uma sombra para cada segredo, um reflexo para cada alegria.

A festa é da mocidade.

Suspira a guitarra debaixo do arvoredo e a musica d'aquella noite tão docemente estonteia as raparigas, que chegam a perder o seu annel de noivado entre as folhas do serpão...[{208}]

Andam no ar derramados uns effluvios que parece darem á gente uma indolencia voluptuosa.

É sentar-se na relva, ouvir a guitarra, cantar, rir, e a noite lá se vae esquivando por entre os troncos das alamedas...

As trovas tambem contam que elle, o precursor, vivia no desleixo da felicidade.

De subito o colhia o somno, quando a aurora vinha descendo á terra, para reanimar as flores pendidas durante a noite...

S. João adormeceu
Nas escadas do collegio.

Depois, quando acordava, corria a procurar a sua felicidade ainda absorto nas visões do sonho...

O S. João, d'onde vindes
Pela calma, sem chapéo?

Outras vezes, porque o somno era mais breve ou o sonho era maior, despertava pouco depois de ter adormecido, e as moças, que ao entreluzir da manhã abriam as janellas do casal, iam-lhe perguntando de casa a casa:

O S. João, d'onde vindes,
Que tanto estaes orvalhado?

Viveu rodeado de mocidade, das alegrias da primavera e das maguas dos vinte annos,—maguas que são fecundantes como os chuveiros d'abril.[{209}]

Ora as moças lhe chilriavam em torno as alegrias dos seus desejos:

S. João, as moças hoje
Vos pedem que as caseis;

ora o procuravam para que lhes désse aquellas flores mysteriosas que trazem allivio a penas d'amor:

No altar de S. João
Ha um vaso d'açucenas,
Aonde vão os namorados
Dar allivio ás suas penas.

Perseguido pelas feias, que noite e dia lhe pediam noivo:

S. João, todas as feias
Vos pedem um casamento,

corria a esconder-se nos rosaes:

O Baptista no deserto
Entre as flores escondido,

certo de que ellas não ousariam, ellas,—as feias!—defrontar-se com as flores para encontral-o.

Poucas vezes, sim, mas lá vinha uma tristeza ao coração, quando alguma voz ia cantando na estrada:

Por causa de pretenções
Mulheres que não farão?

e então—ó horror!—receioso da colera das desilludidas,[{210}] e do resentimento das feias, procurava encantal-as a todas, e fazia brotar a agua da sua fonte de prata, para que umas e outras viessem narcisar-se ao espelho...

S. João por vêr as moças
Fez uma fonte de prata.

Todavia umas e outras, astutas por serem bonitas, astutas por serem feias, fugiam ao logro, e não levavam a sua bilha á fonte, para que todo se matasse de aborrecimento o santo...

As moças não vão a ella,
S. João todo se mata.

Estava porém escripto no livro dos destinos que lhe viesse a queimar a vida o fogo com que elle brincava...

Uma noite havia festa nos paços sumptuosos d'Herodes-Antipas.

Em derredor da aurea mesa estava reclinada Herodiades, a libertina que se rendera ao amor do irmão de seu marido, e Salomé, sua filha, e os cortezãos que libavam vinhos deliciosos em taças reluzentes de pedraria.

Não longe, no carcere, estava João Baptista, sepulto na silenciosa solidão das cadeias, porque elle havia levantado a sua voz contra a incestuosa união do tetrarcha e da barregã illustre, sua cunhada.

Depois do festim, Salomé tomou a harpa e cantou e bailou na presença de seu tio.[{211}]

Quiz elle galardoal-a e perguntou-lhe o que lhe aprazia.

Então Herodiades inclinou-se ao ouvido da filha e a moça respondeu:

—A cabeça do preso.

E continuou a tanger na harpa dos seus cantares.

Momentos corridos pendiam d'um taboleiro de prata, na sala do festim, os negros cabellos da inanimada cabeça.

E Salomé bailava, e Herodiades sorria, e os cortezãos applaudiam.

No paço tudo era alegria; na rua iam cantando melancolicamente as raparigas:

Por causa de pretenções
Mulheres que não farão?
Fizeram cahir S. Pedro,
Degolaram S. João.

Mas, ó prodigio! os olhos, apesar de mortos, tinham brilho, e nas faces inertes havia um raio de sol!

Era o brilho da eterna mocidade, o reflexo da alegria eterna...

E nunca ninguem mais chorara o precursor, porque o cutello do algoz não lhe roubou a grande alma que enche de luz e felicidade a noite d'hontem e o dia de hoje.[{212}]

[{213}]