(POR OCCASIÃO DA ESTADA DA COMPANHIA DO THEATRO DO GYMNASIO, DE LISBOA, NO PORTO)

Oiço dizer que vamos ter muita coisa: as campanas dos niños que estão actualmente na Corunha, o violoncello do snr. Casella, o reportorio do Santos, as tragedias da Ristori, e as guitarras dos fadistas.

Seria opportunidade de me dispender em pontos d'admiração, n'este conjuncto de surprezas que medeiam entre a campainha e a guitarra, entre o campanologo de poucos annos e o fadista de muitos, mas reservo esse luxo ortographico para depois que vir e ouvir os artistas cuja chegada se annuncia para breve.

E isto por duas rasões: por que me será mais facil copiar do cartaz, e porque não quero servir gratuitamente as empresas fazendo os cartazes... eu mesmo.

Portanto, na espectativa do que virá, volto-me para o que providencialmente já temos, e digo providencialmente, porque não... tinhamos.

Quero fallar-lhes do Gymnasio, perdão, quero fallar-lhes[{138}] unicamente do album do Gymnasio, que tenho presente n'este momento, e cujas photographias estou passando entre os dedos, suppondo que a minha cadeira de braços é um camarote, e que a minha jardineira é o palco.

Estou vendo-os, a elles e a ellas, sem a interposição do binoculo, que é muitas vezes mentiroso, e que realmente tem um terrivel e perigoso rival na photographia.

Elle é a illusão, o cosmetico, a cabelleira; ella é o nariz defeituoso, a bocca desgraciosa, as rugas da velhice.

Elle tem o prestigio da mentira; ella a eloquencia da verdade.

Quando um admirador se apresenta a uma actriz por este modo:

—Minha senhora, eu já tive hontem a felicidade de a conhecer por intermedio do meu binoculo,

ella, que está para entrar em scena, segreda á sua alma:

—Bem; então não me viu.

Quando porém lhe diz:

—Minha senhora, eu já tinha a felicidade de a conhecer em photographia,

a actriz fica desgostosa e menos coquette, porque seria inutil simular.[{139}]

Ora sendo a photographia a verdade, optemos por ella.

Bem. Aqui temos o album: folheemos e conversemos.

Na primeira pagina... Taborda.

A gente tem vontade de gritar logo, como se encontrasse em Paris uma gravura representando a proeza da padeira d'Aljubarrota:

—Bem sei: é uma lenda da minha patria,—a lenda do Homem-Gargalhada.

D'uma valentona que em vez de espancar o homem pretende espancar a humanidade, costuma dizer-se: «Que Brites d'Almeida!» D'um sujeito que é a alegria em pessoa, que faz rir todos os grupos, não quero já n'uma visita de pesames, que é justamente onde tudo dá vontade de rir, mas n'um casamento, que é a coisa mais seria que eu conheço, costuma dizer-se: «Que Taborda!»

Este é conhecido e está definido: é a legenda do Homem-Gargalhada.

Na segunda pagina... Izidoro.

Parece um commerciante que vae á praça com o seu bengalorio e com a sua gordura,—a gordura passou a ser tão desejada que é prudente defendel-a com um bengalorio—e é um actor distinctissimo, que só negoceia á noite com as palmas e com os bravos.

Tão conhecido é, que já Julio Cesar Machado, o primeiro photographo portuguez do folhetim, o retratou na sua pequena galeria dos grandes actores nacionaes.[{140}]

Portanto é procurar a photographia na casa Moré. Não tem que saber: atelier de Julio Cesar Machado, Lisboa, retrato do actor Izidoro, com biographia: preço 200 reis.

Terceira pagina... Maria das Dores.

Ah! um gentil talento, creado no theatro desde os quatro annos! Tão pequenina era quando appareceu em D. Maria na Condessa de Sennecey, que adormeceu em scena, e foi preciso acordal-a para completar o seu papelinho. Depois, estreiou-se a valer no mesmo theatro, no Anjo da reconciliação, no tempo em que a esplendida aurora do talento de Manuela Rey deslumbrava o publico lisbonense. Era sobremodo difficil fazer-se notar n'aquella epocha, pela simples rasão de que a intensidade da luz chega a cegar. E Manuela foi realmente um meteoro que só appareceu no céo do theatro portuguez para se amortalhar nos seus proprios esplendores, e deixar saudades. Maria das Dores estudou, luctou, fez magistralmente o Gaiato de Lisboa, substituiu Manoela Rey no papel de Bertha da Mulher que deita cartas, o que podia considerar-se uma incontestavel victoria, e hoje é essa grande actriz que todos temos admirado,—a Silvana da Filha unica, a Valentina, e a viscondessa do Como se enganam mulheres!

Quarta pagina... Rosa Junior.

Quando este rapaz nasceu (1844) já o pae estava farto de saber para o que elle nascia. Para pintor, dizia na sua boa fé o velho Rosa. N'esse proposito, foi o rapaz iniciar-se no curso de bellas-artes, e quando terminava[{141}] o curso declarava ao pae que não queria ser pintor. É que realmente a gente nasce com a sua estrella, e, muitas vezes os paes tão cegos estão da sua amorosa ufania de serem pilotos da barca do nosso destino, que chegam a imaginar possivel a navegação sem olharem para o céo onde estão as estrellas...

Ha ainda alguns desenhos de Rosa Junior, ha, mas elle suppôz—e suppôz bem—por intervenção da sua estrella, que o maior atelier do mundo, sem ser o mundo, era o theatro, e voltou-se para o desenho dos caracteres moraes, a que só um verdadeiro talento póde dar colorido.

Estreiou-se no Porto, em 1862, nas Joias de familia e appareceu em Lisboa, um anno depois, no theatro de S. Carlos, no Ricardo III.

N'esse mesmo anno foi escripturado por Francisco Palha para D. Maria II, onde se estreiou na Sophia Mopin, versão de Rebello da Silva. Foi contando os triumphos pelos papeis: na Nobreza, nos Fidalgos de Bois Doré, nos Nobres e plebeus, na Patria e na Lucrecia Borgia.

Se o publico se não se encarregasse de lhe dizer que a sua estrella tinha rasão, bastaria a corôar a sua resolução o silencio do pae que nunca se atreveu a dizer-lhe:

—Diabo! porque não foste tu pintor!

O seu maior elogio é o silencio do pae.

Quinta pagina... Cesar Polla.

Eu não sei realmente como elle chegou a ser actor! Foi empregado publico, e, o que é mais esterilisador[{142}] ainda, metteu-se em politica. A burocracia teve-o nas garras até 1864, e deixou-o escapar! Chegou a saber o processo de fazer e desfazer deputados. Sondou as profundezas revoltas da urna eleitoral. E, caso raro! pôde salvar-se a si e á sua intelligencia, fugir á comedia dos homens, enganar o cerbéro da politica para que o deixasse passar e, quando muito, fazer deputados á bocca da scena, o que é mais glorioso do que fazel-os á bocca da urna.

Estreiou-se em 1865, em D. Maria, nos Diffamadores, na noite do beneficio do Tasso. Esteve em D. Maria até 1870, e durante esses cinco annos revelou-se o grande artista que hoje é, mórmente quando, incumbido do papel de barão de Lambech, no Anjo da meia noite, ao tempo que José Carlos dos Santos o estava fazendo na rua dos Condes, logrou confirmar o enthusiasmo das primeiras saudações. O publico lisbonense festejou-o delirantemente no Pomerol da Fernanda, no Bevalan da Vida d'um rapaz pobre, no Mirabeau da Maria Antonietta, no Gil Paes de Lima da Côrte n'aldeia, no medico do Juiz...

Verdade é que se perdeu um burocrata! O orçamento não lucrou com isso, mas quem com certeza lucrou foi o theatro portuguez.

Sexta pagina... Emilia dos Anjos.

É uma discipula do Conservatorio, de faces morenas e olhar vivo, expedita e intelligente, já conhecida do publico portuense, que em mais d'uma época a tem festejado na comedia. Representou no Porto, com Pinto[{143}] de Campos, a Familia Benoiton, e o nosso publico ficou estimando-a.

Voltemos folha: Pinto de Campos.

Filho d'uma familia de lavradores de Villa Franca, começou por ser typographo. Certo dia lembrou-se porém de que não conhecia ainda todos os typos—os do drama e da comedia—e fez-se actor. Estreiou-se no Gymnasio em 1855 e passou depois a D. Maria. Com estas andadas esqueceu-se da typographia, mas em compensação ficou conhecendo optimamente a topographia... do theatro.

Fez admiravelmente o Krig da Cora, o piloto dos Homens do mar e, no Porto, os galans com Emilia das Neves.

Artista consciencioso e boa alma. Ouro sobre azul.

Temos na setima pagina... Maria Adelaide.

No theatro e na sociedade é uma coquette. Alguem, vendo-a no Afilhado de Pompignac, disse que ella tinha nascido para amazona. Diz com graça, e tem ás vezes a travessura d'um rapaz.

Ora, pela coquetterie, é bom passar a gente depressa.

Folheemos as paginas restantes.

Bayard, se não se póde considerar um artista de primeira ordem, é todavia um actor apreciavel, em que os outros podem ter confiança, porque não desmancha, como se diz em linguagem de theatro.

Luiza Candida tem uma especialidade—os typos populares,—em que vae muito bem, o que não quer dizer[{144}] por modo algum que não tenha intelligencia para outras creações.

Jesuina é uma soubrette engraçada e distincta.

Ora tambem não é bom demorar-se a gente onde ha graça e distincção...

Carlos d'Almeida é um actor comico, que se adivinha pelo seu casaco azul de botões amarellos, pela sua badine, e pelo seu chapéo.

No Afilhado de Pompignac está constrangido, mas ainda outro dia, n'aquella bagatella Entre casados, fez rir a bom rir.

Na ultima pagina do album está Leopoldo, discipulo do Conservatorio, e ensaiador da companhia. Apparece pouco, mas em compensação todas as noites apresenta a sua obra.

É tempo de fecharmos o album do Gymnasio, e, como n'esta vida anda sempre a illusão a par da realidade, bom será que o publico, que viu a photographia, veja á noite pelo binoculo... a companhia.[{145}]