I

Ao pé do freixo umbroso e da sonora fonte,

Que dão sombra e frescura ás boninas do monte,

Glycera, a moça loira, Amyntas, o pastor,

Juravam-se um ao outro o seu eterno amor.

Sobre a relva assentada, a formosa Glycera

Tecia de jasmins e verdes folhas de hera

Grinaldas e festões, cantando uma canção

Em que menos cantava a voz que o coração.

Assim tambem se eleva o cantico suave

De uma ave que estremece á espera de outra ave

Nas alcôvas em flôr que tece o mez de abril.

Não tardou que chegasse, á volta do redil,

Amyntas, o pastor, já recolhido o gado.

—«Grinaldas! Para que?»

—«Para o nosso noivado»

Córando de pudor, Glycera respondeu,

E emquanto elle a fitava, ella os olhos desceu.

—«Disseste muito bem, minha amada Glycera,

Vamos ambos colhêr jasmins e folhas de hera.

Sim!... Tu não serás de outro? É minha a tua mão?

De mais ninguem será?»

—«Eu te juro que não.»

—«Agora sou feliz! Vou dar-te, porque és minha,

Aquella ovelha branca, ess'outra malhadinha

Que valem um milhão! Iguaes inda não vi!

Mas, porque tu és minha, eu dou-t'as para ti.

Olha, que lindas são! Valem um bom rebanho

Na côr, na timidez, no pello e no tamanho!

Só teu, de mais ninguem, é o fresco laranjal,

Que dá tão dôce sombra ao meu... ao teu casal.

Dou-te do meu redil os dois novilhos bravos,

E as colmêas que tenho, e todo o mel dos favos,

As arcas, o bragal, peculio do pastor,

E, acima d'isto tudo, o meu eterno amor.»

E, sorrindo enlevada, a formosa Glycera

Alternava jasmins com verdes folhas de hera.