I

As Memorias de Maximiliano foram pela primeira vez impressas em Vienna, em 1862.

Tiraram-se apenas cincoenta exemplares, destinados pelo archiduque ás pessoas da sua familia, a varios principes estrangeiros, e aos amigos mais intimos.

A idéa de fazer uma edição para o publico acudiu ao espirito de Maximiliano em 1863, pouco tempo antes de lhe ser offerecida a corôa do Mexico. Foi ao barão Münch-Bellinghausen, honrosamente conhecido na litteratura allemã pelo pseudonymo de Frederico Halm, que o archiduque confiou o trabalho da edição definitiva das suas Memorias, que principiaram a ser impressas em Leipzig.

No Mexico, apesar das incessantes attribulações que dolorosamente lhe preoccupavam o espirito, Maximiliano reviu ainda algumas provas, indicou correcções especialmente motivadas pelas circumstancias politicas, que tinham variado desde 1851. Mas a tragica morte do imperador do Mexico roubaria á publicidade as suas Memorias, se o imperador Francisco José, por um terno movimento de piedade fraternal, não tivesse dado ordem para que se concluisse a impressão.

A obra, em allemão, consta de sete volumes e intitula-se Aus meinem Leben. Reiseskizzen. Aphorismen. Gedichte. (Recordações da minha vida. Impressões de viagem. Aphorismos. Poesias).

O ultimo volume comprehende as poesias escolhidas.

N'esta edição definitiva não foi porém incluida a Viagem á Grecia, que em 1868 sahiu impressa em Leipzig.

Eu vou servir-me da traducção das Memorias, unica traducção franceza authorisada, feita por Jules Gaillard, Paris, 1868.

Consta de dois volumes. O primeiro comprehende impressões de viagem em Italia, Hespanha, Lisboa e ilha da Madeira; o segundo,—na Algeria, Albania, além do Equador, Bahia, Matto-Virgem, e os Aphorismos.

Foi em julho de 1851 que Maximiliano sahiu da bahia de Trieste, a bordo da fragata Novara, para uma viagem de longo curso, seu ardente desejo. A mesma fragata o conduziu ao Mexico, quando já imperador. É notavel a coincidencia.

Jules Gaillard não traduziu integralmente as Memorias de Maximiliano. Fez um apanhado do que lhe pareceu mais proprio a interessar o leitor francez, a caracterisar o espirito e imaginação do author ou a tornar conhecidas as suas relações com as côrtes estrangeiras.

Portanto temos que contentar-nos, relativamente a Portugal, com as impressões que a Jules Gaillard aprouve traduzir; mas reputamol-as bastantes a darem uma idéa precisa do modo de sentir e pensar de Maximiliano a nosso respeito.

Começa o archiduque recordando o proverbio Quem não viu Lisboa não viu coisa boa, com que a tradição celebra as bellezas de Lisboa, emparelhando a capital portugueza com as mais formosas cidades do mundo, Constantinopla, Stockolmo, Napoles e Rio de Janeiro.

Maximiliano não conhecia a lenda germanica, que Ferdinand Denis citou, de um cavalheiro que em Jerusalem quiz vêr n'um espelho magico a mais bella cidade da Europa, e viu Lisboa; se conhecesse, tel-a-ia citado conjuntamente com o proverbio para tornar ainda mais frisante a impressão não inteiramente agradavel que Lisboa lhe causou.

O archiduque descreve Lisboa, vista do Tejo, como uma agglomeração de casas sem o caracteristico de edificios distinctos e originaes, e sem o pittoresco que resulta da harmonia da perspectiva. Lamenta a falta de uma floresta onde a vista possa repousar, e acha que o ceu e a agua não possuem o colorido quente e brilhante dos paizes meridionaes.

«Não se vêem nem palmeiras, nem cyprestes, tudo é frio e monotono como em certas regiões da Allemanha; cidade por cidade, Praga é muito mais pittoresca. A Outra banda é a unica parte que resalta verdadeiramente bella, ainda que sem a grandeza precisa para que a impressão que produz aproveite ao conjunto.»

Ora Maximiliano veio a Lisboa em 1852, e é certo que no decurso de 37 annos a cidade tem tido um grande desenvolvimento material, mas o aspecto da casaria, disposta caprichosamente ao sabor das ondulações do terreno, quer-nos parecer de um bello effeito pittoresco, de uma variedade de perspectiva encantadora. É tambem certo que falta aos edificios de Lisboa a originalidade bysantina, a magnificencia oriental de Constantinopla, das suas mesquitas, minaretos, bazares e caravansérails, que se debruçam sobre as aguas do Bosphoro, produzindo uma impressão surprehendente, tanto quanto pela photographia se póde avaliar. Mas os edificios de Lisboa, se não teem uma architectura typica como os de Constantinopla, são comtudo, pela variedade da construcção e pela sua disposição irregular, mas graciosa, de um ensemble que alegra os olhos e impressiona agradavelmente o espirito.

A bahia do Tejo poderá ser inferior á vasta toalha de agua do lago Mœlar, mosqueada de mil duzentas e sessenta ilhas, que torna deslumbrante a situação de Stockolmo; poderá ser inferior ao golpho de Napoles, cuja belleza se opulenta com o espectaculo maravilhoso do Vesuvio, quando em erupção; poderá ainda ser inferior á bahia do Rio de Janeiro com as suas grandes massas montanhosas, o Pão de assucar, o Corcovado, a Tijuca, ao fundo a Serra dos Orgãos, e com as suas ilhas numerosas e sorridentes. Não discutimos primazias pueris. Mas a bahia do Tejo é de uma belleza ampla e suave, de uma vastidão harmonica e dôce, que seguramente a torna uma das mais bellas do mundo.

O Tejo teve a infelicidade de ser visto por Maximiliano n'um dia brumoso e triste, que prejudicava os tons quentes e brilhantes dos paizes meridionaes. Não sei se o ceu de Lisboa é menos azul que o de Napoles, tão gabado; mas o que sei é que, nos dias claros, o nosso firmamento é de uma doçura de saphyra incomparavel, de um azul doirado que satisfaz plenamente as nossas almas de meridionaes.

Maximiliano estranhou a falta de arvoredo, mas, por Deus! não faltam arvores no conjunto panoramico de Lisboa, vista do Tejo. É verdade que é núa e arida a serra de Monsanto, pedregoso o corucheu da serra de Cintra, mas que opulencia de vegetação no pendor e na base d'esta serra famosa! E o arvoredo da Tapada da Ajuda? E o da cêrca das Necessidades? E ainda o do cemiterio dos Prazeres? E as manchas verdes com que tantos jardins particulares cortam a brancura alegre da casaria? Decididamente, o archiduque Maximiliano teve um mau dia de chegada, escuro e melancolico.

Mas o que eu admiro são as suas saudades pelo cypreste, arvore funebre, de que todavia alguns exemplares poderia enxergar no cemiterio dos Prazeres, que aliás menciona. Quanto á palmeira, que é realmente uma bella arvore ornamental, Maximiliano deveria saber que essa arvore é filha dos climas orientaes, e que só exoticamente vegeta nos paizes do occidente.

Depois de poucas linhas consagradas á impressão geral que lhe causára o panorama de Lisboa, Maximiliano principia logo a descrever o interior da cidade.

Quanto ás ruas e ás praças, o testemunho do archiduque é-nos mais favoravel.

Falla de longas ruas regulares e bellas praças como não ha muitas nas capitaes europêas. «A Praça do Commercio é verdadeiramente magnifica, o centro da cidade nova; todos os seus edificios são uniformemente construidos em estylo neo-romano, e de uma brancura deslumbrante (éblouissante). Muitas largas ruas parallelas confluem perpendicularmente a esta praça: as mais bellas são a rua Augusta e a rua Aurea

Chamar o centro da baixa ao Terreiro do Paço é uma liberdade de poeta e de... principe, pois que uma e outra coisa era Maximiliano.

Á rua da Boavista chama-lhe de Buanavista, e menciona-a talvez pela circumstancia de conduzir ao palacio das Necessidades, onde a rainha D. Maria II habitava.

«N'estas diversas ruas encontram-se vastos edificios, verdadeiramente dignos de uma grande cidade, com estabelecimentos ricamente adornados. Perto das Necessidades as casas tornam-se mais irregulares e menos bem alinhadas: conforme ao gosto portuguez, são pintadas a oleo em tons assanhados (criards) verdes ou azues.»