II
Em 1867 publicava Camillo Castello Branco o livro intitulado Cousas leves e pezadas, e ahi, em nota á pagina 17, escrevia o seguinte:
«O meu parecer é que Bernardim, tambem Bernaldim Ribeiro, ou Bernardim Reinardino Ribeiro, como Faria e Sousa o chama, nem foi governador de S. Jorge da Mina, nem amou a infanta D. Beatriz, nem sahiu da sua terra, para Lisboa, senão depois que ella já tinha sahido de Lisboa para Saboya. Corre-me obrigação de pôr as clausulas d'este meu juizo, tão encontrado com o de doutos investigadores. Fal-o-hei em pouco, porque não cabe n'este genero de escriptos grande cavar em terra d'onde o que sae, para o cummum dos leitores, é pedregulho.
«Em primeiro, tenho como provavel que Bernardim Ribeiro, sob o pseudonymo de Jano, falla de si na ecloga 2.ª Ahi diz elle:
Quando as fomes grandes foram,
Que Alemtejo foi perdido,
Da aldéa que chamam Torrão
Foi este pastor fugido:
Levava um pouco de gado, etc.
«E continúa:
Toda a terra foi perdida;
No campo do Tejo só
Achava o gado guarida.
Vêr Alemtejo era um dó;
E Jano para salvar
O gado que lhe ficou,
Foi esta terra buscar, etc.
«Temos, pois, o poeta allegorico do Torrão—naturalidade que todos os biographos unanimemente dão a Bernardim Ribeiro—em Lisboa no anno das grandes fomes, que foi em 1522. Ora, D. Beatriz, em 9 de agosto de 1521, tinha sahido para Saboya.
«Nenhum biographo até agora assignou o anno do nascimento ou da morte de Bernardim Ribeiro. Póde, se o meu modo de decifrar a ecloga é plausivel, marcar-se-lhe o anno do nascimento em 1500, ou 1501 mais exacto, porque o pastor, n'outro ponto da mesma ecloga 2.ª, diz:
Agora hei vinte e um annos,
E nunca inda até agora
Me acorda de sentir damnos... etc.
«Quanto ao governo de S. Jorge, capitania-mór das armadas da India e commenda de Villa Cova, é tudo isso um equivoco do auctor da Bibliotheca Lusitana, com o qual se bandeou a boa fé de escriptores de grande porte. O Bernardim Ribeiro, governador de S. Jorge da Mina, assistiu em 1526 ao cêrco de Mazagão, d'onde sahiu abrasado d'uma explosão de polvora. (Veja a Chronica de D. Sebastião, por D. Manuel de Menezes).»
Innocencio Francisco da Silva, no tomo VIII do Diccionario Bibliographico, pag. 379, não acceitára como definitivos os reparos de Camillo Castello Branco e appellára para investigações ulteriores.
No 10.º vol. das Noites de Insomnia, Camillo Castello Branco voltou ao assumpto, dizendo:
«Ulteriores investigações que fiz em cartapacios genealogicos e coevos, levaram-me da certeza á evidencia de que Bernardim Ribeiro, o poeta, não era Bernardim Ribeiro Pacheco, o commendador de Villa Cova, da ordem de Christo e capitão-mór das naus da India, casado com D. Maria de Vilhena, filha de D. Manuel de Menezes, nem ainda o outro Bernardim Ribeiro, governador de S. Jorge.»
Camillo estuda em seguida a genealogia dos tres Bernardins, que andam fundidos no auctor da Menina e Moça.
O snr. Theophilo Braga publicou em 1872 o volume dedicado, na sua Historia Litteraria de Portugal, a Bernardim Ribeiro.
Ahi, procurando reconstruir a biographia do poeta pela interpretação critica das suas obras, sustenta que Bernardim Ribeiro viera do Torrão para Lisboa em 1496, quando tinha vinte e um annos (Ecloga 2.ª), o que permitte fixar a época do seu nascimento em 1475.
Parece ao snr. Theophilo Braga que já o poeta teria tido em 1496 o primeiro amor, inspirado por D. Maria Gonçalves Coresma, que casára com um viuvo do Alemtejo, chamado Alvaro Mendes Casco.
Suppõe que D. Maria Coresma seja a Cruelsia da Menina e Moça, abandonada pelo poeta, a quem Aonia enfeitiçára com a sua belleza.
E explica por esta situação moral, em que Bernardim Ribeiro se encontrava, o vilancete que Boutlerweck publicou na sua Historia da Litteratura Portugueza e que vem reproduzido na edição das obras do poeta, feita em 1852 pela Bibliotheca portugueza:
Não sou casado, senhora
Pois inda que dei a mão
Não casei o coração.
Antes que vos conhecesse
Sem errar contra vós nada,
Uma só mão fiz casada,
Sem que mais n'isso mettesse.
Dou-lhe que ella se perdesse,
Solteiros os versos são,
Os olhos, e o coração.
Dizem que o bom casamento
Se ha de fazer por vontade,
Eu a vós a liberdade
Vos dei, e o pensamento.
N'isto não me achei contento
Que se a outra dei a mão,
Dei a vós o coração.
Como, senhora, vos vi,
Sem palavras de presente
Na alma vos recebi,
Onde estareis para sempre.
Não, dei palavra sómente,
Não fiz mais que dar a mão,
Guardai vós o coração.
Casei-me com meu cuidado
E com vosso desejar,
Senhora, não sou casado,
Não m'o queiraes acuitar.
Que servir-vos, e amar
Me nasceu do coração
Que tendes em vossa mão.
O casar não faz mudança
Em meu antigo cuidado,
Nem me negou esperança
Do galardão esperado:
Não ma engeiteis por casado,
Que se a outra dei a mão,
Dei a vós o coração.
Francamente, a interpretação que o sr. illustre escriptor Theophilo Braga deu a este vilancete, parece-nos forçada.
A affirmação do poeta, na hypothese de que o vilancete seja realmente seu, é tão categorica:
Não me engeiteis por casado,
Que se a outra dei a mão,
Dei a vós o coração
que não se acceita sem certa repugnancia a explicação de que elle se referia apenas ao galanteio que tivera com D. Maria Coresma, solteira ou casada, mas a quem, em todo caso, não havia dado a mão de esposo.
Este ponto julgamol-o ainda escurentado de grandes duvidas.
Mas, como quer que seja, o snr. Theophilo Braga, occupando-se dos segundos amores do poeta com a Aonia da Menina e Moça, suppõe que Aonia é o anagramma de Joanna, e que esta dama é D. Joanna de Vilhena, prima d'el-rei D. Manuel, e filha de D. Alvaro de Portugal, a qual viera para a côrte no tempo do casamento da princeza D. Izabel (Beliza) com o principe D. Affonso em 1491.
D. Joanna de Vilhena casou em 2 de fevereiro de 1516 com D. Francisco de Portugal, primeiro conde de Vimioso, um dos poetas do Cancioneiro de Garcia de Rezende.
Este casamento é a catastrophe que ensombra a vida do poeta. Na Menina e Moça, Bimnarder, anagramma de Bernardim, sabendo do casamento de Aonia «se foi, e não no viram mais.»
Francisco Antonio Varnhagem, que morreu visconde de Porto Seguro, publicou um livro, que precedeu o do snr. Theophilo Braga, pois que este escriptor a elle se refere desfavoravelmente (pag. 107), e que se intitula Da Litteratura dos Livros de Cavallaria (Vienna, 1872).
Varnhagem, que se dedicou muito ao estudo da nossa historia litteraria, interpretou do seguinte modo os anagrammas da Menina e Moça:
Aonia por Joanna.
Arima por Maria.
Avalor por Alvaro.
Beliza por Izabel.
Boslia por Lisboa.
Cruelsia por Lucrecia.
Donanfer por Fernando.
Enis por Ines.
Fartesia por Tiséfara (?)
Godivo por Dioguo.
Jenao por Joane.
Lamberteu por Bartelmeu.
Loribaina por Briolanja.
Narbindel por Bernaldin.
Olania por Anjola (?)
Bomabisa por Ambrosia.
Tasbião por Bastião.
Zicelia por Cezilia.
Lamentor, modificação de Lamendor, por Manuel.
O snr. Theophilo Braga interpreta Bimnarder como outro anagramma de Bernardim, e Olania por Oriana. Eis os pontos de divergencia entre as duas interpretações.
Varnhagem commenta:
«Seja como fôr: o certo é que, decifrados os anagrammas, apparece Bimnarder apaixonado de certa Joanna, irmã de Izabel, mulher de Lamentor. Ora, se admittirmos que este fosse el-rei D. Manuel, resultariam os amores de Bernardim, não com a filha d'este rei, mas sim com sua cunhada D. Joanna, a mãi de Carlos V, mulher de Filippe o Bello, e filha (como a rainha D. Izabel sua irmã) dos reis catholicos Izabel e Fernando. Em tal caso o mesmo Filippe corresponderia ao Fileno e Orphileno (marido da Aonia da novella), etc.»
Não acha natural Varnhagem que Bernardim Ribeiro se apaixonasse por D. Beatriz, que nascêra em 1504 e a cantasse, quando ella era menina de menos de doze annos, no Cancioneiro de Rezende, que sahiu impresso em 1516.
Mas a verdade é que na Menina e Moça se diz: que «a senhora Aonia ainda então era donzella d'antre treze ou quatorze annos» e que menina e moça a levaram de casa de seu pai para longes terras.
Entende tambem o snr. Theophilo Braga que os dizeres com que abre a Menina e Moça não se podem referir á infanta D. Beatriz, que contava dezesete annos, quando foi levada para Saboya.
Como se vê, a opinião dominante nos ultimos quinze annos é contraria á lenda dos amores de Bernardim Ribeiro com a infanta D. Beatriz.
O snr. Theophilo Braga explica a formação da lenda pelo supposto facto de ter o poeta amado uma dama altamente collocada na côrte, parenta de el-rei D. Manuel, D. Joanna de Vilhena; pela prohibição, no Index de 1581, da novella Menina e Moça, o que lançou suspeitas sobre o conteúdo da novella; e pela coincidencia de Bernardim Ribeiro ter sahido de Portugal quando a infanta, em 1521, partiu para Saboya.
A lenda, recolhida no seculo XVI por Faria e Sousa, resuscitára com o romantismo pela reviviscencia das lendas nacionaes.
Acha o snr. Theophilo Braga que a idade do poeta e da infanta, em 1521, eram incompativeis entre si e a tresloucada paixão que a lenda attribuia a um homem de quarenta e seis annos por uma donzellinha de dezesete. Acha outrosim que a ingenita altivez do caracter de D. Beatriz não lhe permittiria descer até acceitar o galanteio de um trovador, de mais a mais amadurecido em annos.
No amor não ha incompatibilidades possiveis. Na historia de Portugal abundam estes desacertos de idade e de condição em assumptos amorosos.
A nós não nos repugna o facto de Bernardim Ribeiro, um poeta, se ter apaixonado por uma dama da côrte, que todavia, como diremos, não suppomos fosse a infanta, não obstante a desproporção das idades.
Mas, se D. Beatriz foi a inspiradora da paixão do poeta, o que podêmos provar com documentos historicos é que ella o esqueceu em Saboya, se algum dia o amou ou se soube que foi amada por elle.
Não é natural que D. Beatriz, tão magoada como o codice publicado por Herculano nol-a pinta, se absorvesse tão profundamente, e tão estranha ao seu proprio passado, nos deveres de esposa e princeza, como realmente acontecêra em Saboya, e como vamos mostrar.
É verdade que a lenda romantica conta que a duqueza de Saboya, reconhecendo o poeta no disfarce de mendigo á porta de um templo, lhe disséra, dando-lhe esmola:—«Já lá vai o tempo dos antigos galanteios.»
Mas tão empenhada a vamos encontrar nos negocios politicos e domesticos da côrte de Saboya, tão despreoccupada de recordações amorosas, tão adaptada moralmente ao meio em que se encontrava, que estamos convencido de que, se Bernardim Ribeiro a amou, não foi correspondido ou só ephemeramente o foi, o que não seria natural n'uma princeza educada nos serões galantes do Paço da Ribeira, sabendo-se amada por um poeta, e vivendo sacrificada na companhia de um marido, que não era poeta, e cujo desgracioso feitio as chronicas memoram.
Se, como quer o snr. Theophilo Braga, a Aonia da Menina e Moça é D. Joanna de Vilhena, primeira condessa de Vimioso, a Condessa Santa, completo foi o seu esquecimento do amor que inspirára ao poeta.
«Emquanto viveu o conde, escreve o padre Francisco da Fonseca na Evora Gloriosa, o imitou, e acompanhou em todas as obras virtuosas, attendendo cuidadosamente á educação de seus filhos, e ao prudente governo da sua familia, e casa, que debaixo da sua direcção era convento com apparencias de palacio. Era inimicissima do ocio, e por isso assim ella, como todas as suas criadas, se occupavam continuamente nos exercicios proprios do seu estado, umas cosiam, outras fiavam, outras faziam rendas ou fios para curar os necessitados. O mesmo usava com as senhoras, que a vinham visitar, dando a cada uma d'ellas algum trabalhinho, com que se entreter; e entretanto, ou lhe lia algum capitulo dos documentos, que o conde tinha composto, e lhe contava algum exemplo, ou historia santa, com que adoçar o trabalho; o que fazia com tanta graça, que assim sua irmã D. Brites, duqueza de Coimbra e Aveiro, com todas as mais senhoras continuavam e frequentavam com gosto a escóla de D. Joanna. Morto o conde, se deu totalmente a Deus, e, abraçando a terceira ordem de Santo Agostinho, fez uma vida verdadeiramente de santa. Remendava por suas proprias mãos os habitos dos frades, e lhes fazia o comer, quando estavam enfermos, amando-os e consolando-os a todos, como se fossem seus filhos: o mesmo praticava com as religiosas de Santa Catharina, e porque viu as lagrimas e suspiros da pobreza eborense por causa da falta que lhe fazia a morte de seu querido esposo, tomou muito a sua conta enxugar-lhe as lagrimas com opportuno remedio: escolheu para capellães e esmoleres a dous sacerdotes exemplares, em cuja companhia ia todos os dias visitar os enfermos da sua parochia: seguiam-n'a dous escravos, carregados de tudo aquillo de que podiam necessitar os enfermos, e ella por si mesma lhe repartia todos os mimos e os regalos: com estas, e outras muitas santas obras, continuou a nossa condessa a sua exemplarissima vida até os 24 de julho de 1559 em que Deus a chamou para a gloria.»
A dama que inspirára a paixão de Bernardim Ribeiro tinha os olhos verdes.
No capitulo XXI da Menina e Moça encontra-se o romance
Pensando-vos estou filha
que Garrett reproduziu no terceiro volume do Romanceiro com o titulo de A Ama.
N'esse cantar, á maneira de solau, como o classifica Garrett, encontra-se a seguinte allusão:
Mas não póde ser, senhora,
Para mal nenhum nascerdes,
Com esse riso gracioso
Que tendes sob olhos verdes.
Entre as eclogas de Bernardim Ribeiro encontra-se outro romance, que Almeida Garrett tambem reproduziu com o titulo de Cuidado e desejo, e ahi depara-se-nos uma outra referencia á côr dos olhos da sua dama:
Seus olhos verdes rasgados
De lagrimas carregados, etc.
Conhecemos dois retratos da infanta D. Beatriz de Portugal, duqueza de Saboya.
Um foi publicado no periodico litterario Universo Pittoresco. O artigo que o acompanha tem a assignatura do fallecido escriptor S. J. Ribeiro de Sá.
O artigo nada adianta, mas o retrato é copia do que se encontra em Turim na galeria dos retratos dos duques e duquezas de Saboya. Enviou-o para Portugal o snr. Miguel Martins Dantas, hoje ministro de Portugal em Londres, e então addido á legação de Sua Magestade Fidelissima em Turim.
O snr. Dantas fez acompanhar a copia d'esse retrato, que deve considerar-se authentico, das seguintes indicações:
«Rosto claro, olhos castanhos escuros, cabellos castanhos claro, bonet de velludo preto adornado de pedraria, e uma pluma branca; no pescoço um adresse de pedras roxas engastadas em oiro, acabando com uma perola. Uma especie de lenço, ao que parece de cambraia, com muito feitio occupa o espaço do decote—em roda uma bordadura de ouro. O vestido é de fazenda (não velludo) côr de castanha, atirando para roxo, com tufos brancos nas mangas, rematados com pedras roxas tambem engastadas em ouro, punhos brancos de renda, collar de perolas acabando com tres pedras iguaes ás outras: desde a cintura até ao chão ha um cordão formado de pedras azuladas engastadas em ouro.»
Pela descripção d'este retrato, existente na galeria de Turim, e que para todos os effeitos, repetimos, se deve considerar authentico, sabemos que os olhos da infanta D. Beatriz não eram verdes, como os que descreve Bernardim Ribeiro, mas castanhos escuros.
D'aqui, pois, se póde tirar um novo argumento para reforçar a opinião, aliás hoje dominante, de que não foi a infanta D. Beatriz a mulher amada pelo poeta das saudades.
Do outro retrato só ha pouco tempo tivemos conhecimento.
No leilão da livraria do fallecido visconde de Juromenha compramos, unicamente attrahidos pela indicação do respectivo catalogo, um livro intitulado—Notizie storiche intorno alla vita ed ai tempi di Beatrice di Portogallo duchessa di Savoia, con documenti per il barone Gaudenzio Claretta, membro della R. Deputazione sovra gli studi di storia patria—Torino, 1863, tipografia Eredi Botta, Palazzo Carignano.
Não tinhamos a menor noticia d'este livro, que versava um dos mais interessantes assumptos da historia de Portugal, não obstante haver sido publicado em 1863.
E como temos por indispensavel estudar a historia portugueza, para apural-a com segurança, pelo confronto do que escreveram os nossos historiadores com os dos paizes que comnosco tiveram relações politicas em determinadas épocas, fossem essas relações devidas a um casamento, a um tratado, a uma guerra ou a qualquer outra causa—systema este em que principalmente baseamos o nosso estudo historico ácerca da Excellente Senhora, Rainha sem reino,—procuramos a todo o custo obter esse livro, para nós desconhecido, cujo titulo nos aguçára a curiosidade e o interesse de possuil-o.
Mal diriamos n'essa occasião que, tambem pela venda de um espolio, adquiririamos pouco depois outro livro do mesmo author ácerca de uma época não menos notavel da historia portugueza.
O barão Gaudenzio Claretta dá n'aquelle seu livro noticia de duas medalhas que o duque de Saboya Carlos III mandára cunhar para perpetuar a memoria de sua esposa.
Uma d'ellas tem de um lado a effigie de D. Beatriz com a legenda: Beatrix dux Sabavdie e do outro os escudos de Saboya e Portugal com esta inscripção; Lvsitaniæ regis filia an svæ æt. 36.
A segunda medalha, que se encontra reproduzida no ante-rosto do livro, representa a duqueza de Saboya, ricamente vestida, com a legenda: Beatrix decvs Portvgallie ducissa Sabavdie.
Um argumento salta desde já aos bicos da penna.
Se Carlos III tivesse menospresado sua mulher pela revelação do segredo dos seus amores com um cavalleiro portuguez, como Herculano deprehende do codice por elle publicado no Panorama, não haveria decerto manifestado pela morte da duqueza um tão profundo sentimento como aquelle que se traduz pelo facto de haver mandado cunhar não apenas uma só medalha commemorativa—mas duas.
A effigie de D. Beatriz, gravada na segunda medalha, é claro que nada póde aproveitar para tirarmos a limpo a côr dos seus olhos. Mas a este respeito basta o testemunho fidedigno, a que já nos referimos, do snr. Miguel Martins Dantas. Em todo caso, a medalha é muito interessante, pois que reproduz, e devemos suppôr que com fidelidade official, as feições da infanta portugueza e a sua toilette.
A medalha representa-a com um toucado de pedras preciosas, que lhe circumdam os cabellos apartados ao meio e cahidos em madeixas sobre os hombros. Vestido de decote escanteado. Um pequeno cabeção de recortes com tres voltas de pedraria. Collar pendente. A meio do peito uma cruz suspensa da orla do decote.
As feições do retrato enviado pelo snr. Dantas ajustam-se inteiramente ás da effigie que a medalha representa: Nariz comprido, bocca pequena e grossa, testa alta, sobrancelhas pouco espessas e arqueadas, pescoço alto e bem lançado, estatura erecta, porte gentil.