VII
D. Gutierrez de Estrada, presidente da deputação mexicana que foi a Miramar offerecer a corôa imperial ao archiduque Maximiliano, dissera-lhe:
—Vimos pedir a vossa alteza que se digne subir ao throno do Mexico, aonde vos chamam os votos de um paiz ha longo tempo dilacerado pela guerra, pois que possuis o segredo de conquistar os corações e a sciencia difficil de governar.
O archiduque respondeu:
—Que accedia aos desejos do povo mexicano, ao qual daria um governo liberal e constitucional, e que mostraria que a liberdade é compativel com o regimen da ordem.
Em seguida a esta troca de pequenos discursos, houve permutação de juramentos sobre o Evangelho: o imperador jurou fazer a felicidade do Mexico; D. Gutierrez, em nome do Mexico, jurou fazer a felicidade do imperador.
Como são falliveis e fallazes, tantissimas vezes, estes juramentos solemnes, cuja realisação não depende dos homens, que os fazem, mas apenas de Deus, que possue o segredo do futuro!
Maximiliano fiou mais de Napoleão III que d'essa mysteriosa força reguladora dos destinos humanos, que uns chamam Providencia, outros Acaso.
O deus das Tulherias promettia protegel-o, e tanto bastava n'uma época em que Bismarck não monopolisava ainda a direcção politica da Europa. De mais a mais, havia ao lado de Maximiliano uma gentil mulher que o amava, e que se ufanava de que o marido podesse cingir a cabeça com a corôa de um novo imperio, de que elle viria a ser o creador ostensivo.
A serpente da tentação silvára o perfido hymno, que já tinha sido escutado por Eva no Eden. E, pondo os olhos nos sonhados deslumbramentos do futuro, o par ditoso de Miramar começou a esquecer o seu dôce passado desambicioso, o chalet florido da collina, as salas tranquillas do castello, o mar azul, que, mais leal do que o povo mexicano e que o imperador dos francezes, nunca lhe tinha suggerido a idéa de uma aventura perigosa.
O dia da partida chegára, a fragata austriaca Novara e a fragata franceza Thémis fundearam no porto de Trieste, todo um enxame de archiduques e archiduquezas concorrêra ao bota-fóra, o burgomestre, em nome dos habitantes da cidade, significára ao novo imperador a viva saudade que elle deixava, e Maximiliano, abraçando o burgomestre, sentira os olhos inundados de lagrimas, e o coração atormentado por um vago presentimento de desgraça.
—Parece-me que não voltarei mais! dissera o imperador.
Mas a salva festiva de cem tiros, no momento em que o imperador embarcava, viera suffocar as suas palavras. A Novara, desfraldando as côres do Mexico, esperava baloiçando-se. As archiduquezas atiravam, na ponta dos seus finos dedos patricios, beijos alados que iam, adejando, procurar a face da imperatriz. Os archiduques acenavam ao imperador com os seus lenços brancos, que fluctuavam como outras tantas azas de garça. A multidão seguia com um olhar attento, curiosamente interessado, todo esse extraordinario movimento de bateis que ondulavam em torno da Novara. E no chalet da collina de Miramar,—o dôce ninho de amor agora solitario—a madresilva chorava em lagrimas de perfume insinuante o abandono em que a deixavam os dois ingratos coroados. E o castello, na grandeza lutuosa das suas ameias, parecia comprehender as lagrimas da madresilva saudosa, e responder-lhe agoirentamente: «Como é louca a ambição! como é cega a cobiça!»
A Novara, seguida da Thémis, levantou ancora, e de pé, no tombadilho, tanto quanto os oculos de longa vista podiam abranger, Maximiliano, immovel como uma estatua, voltado para Miramar, devorava com os olhos o seu bello castello solitario.
Com a prôa na Italia, a Novara navegava desfraldando a bandeira do Mexico.
Maximiliano queria desembarcar em Italia para ir a Roma. Fazer o quê? Regular questões religiosas do Mexico, disse-se então. Pedir ao Padre Santo que abençoasse uma empresa aventurosa, porque não? As almas apprehensivas, como a sua, precisam, nos lances arriscados, procurar na fé um ponto de apoio, quando a esperança lhes sorri duvidosa.
Mas em Roma um aviso anonymo, affixado nas ruas da cidade santa, devia ter soado aos ouvidos de Maximiliano como uma prophecia terrivel, que vinha do seio mysterioso do incognoscivel.
Dizia o aviso que Roma inteira lêra com surpreza:
Maximiliano non ti fidare,
Torna sollecito a Miramare!
Il trono fradicio di Montexuma
È nappo gallico, colmo di spuma.
Il «Timeo Danaos» qui non ricorda
Sotto la clamide trova la corda.
O que, traduzido em portuguez, dirá, pouco mais ou menos:
Maximiliano, a Miramar
Deves solicito voltar,
Que o throno fragil de Mont'zuma
É como a taça cheia d'espuma,
Um laço armado pela França.
Do Timeo Danaos a lembrança
Quem a não pesa e a não recorda
Em vez da purpura acha a corda.
Com que funda e dilacerante angustia não sahiria de Roma o imperador do Mexico, a cujo encontro affluiam as felicitações festivas e as saudações lisonjeiras!
O diario de viagem de Maximiliano accusa claramente o desalento intimo da sua alma. «O mundo, escrevia elle, é pequeno, e todavia como se é baldeado de uma a outra extremidade da terra! Felizes os que se encontram!»
A Novara, sempre seguida pela Thémis, passou na ilha da Madeira, onde Maximiliano havia estado em 1852. Então, doze annos antes, consignára nas suas Memorias uma impressão deleitosa, de despreoccupada felicidade: «Surge-me das ondas uma ilha encantada, resplendente dos raios de um sol tropical. O mar era transparente, ceruleo, o ar impregnado de perfumes inebriantes. Collinas basalticas, côr de violeta, relevavam d'entre o arvoredo cuja folhagem, de um verde brilhante, accentuava todas as energias da primavera. A minha alma, extasiada, inundava-se de alegria. Uma celeste pureza dominava o quadro...»
Agora, doze annos corridos na existencia placida de Miramar, a impressão que Maximiliano recebêra na ilha da Madeira fora bem differente. A corôa do Mexico, que não começára ainda a ser de espinhos, era já, comtudo, um fardo pesado. Vindo a terra, o imperador visitara os mortos, entrára no cemiterio do Funchal, e colhêra de uma campa solitaria uma rosa triste, que conservou toda a sua vida, mais como uma reliquia, do que como uma simples recordação.
A 28 de maio de 1864 a Novara avistou a costa do Mexico.
Em Miramar deviam florir áquella hora, em toda a pompa da primavera, os jardins do castello abandonado.
No Mexico uma faxa de areia, arida como um deserto, desenrolava-se ardente, apesar do fluxo refrigerante das ondas.
Á aridez da terra correspondêra a aridez da recepção. A Thémis tinha-se adiantado para annunciar a chegada dos imperadores, mas, apesar dos esforços que o almirante Bosse empregára para salvar as apparencias, o povo do Mexico conservou uma attitude indifferente, porque não diremos, hostil? Que contraste entre esta recepção glacial e a despedida affectuosa de Trieste!
Maximiliano começou a comprehender a terrivel verdade que o pasquim de Roma lhe annunciára.
A administração franceza, a fim de tranquillisar o espirito sobresaltado do imperador, comprou talvez a peso de oiro um enthusiasmo postiço, que tibiamente principiou a manifestar-se desde a estação de Loma Alta, a ultima do caminho de ferro.
D'ahi por diante os imperadores viajaram n'uma caleche ingleza, que não seria digna de hospedes menos qualificados. E a sua comitiva pernoitava ao desabrigo, como uma caravana de bohemios, que apenas podiam contar com uma hospitalidade desconfiada.
A 12 de junho, os imperadores fizeram a sua entrada solemne na capital. Todo o apparato d'esse acto official orçou por uma mise-en-scène mediocre. Em nenhuma parte encontrou Maximiliano a franqueza que devia corresponder ao convite que lhe fôra feito para acceitar a corôa do Mexico.
Á noite houve espectaculo de gala, a que os imperadores assistiram, mas a maior parte dos camarotes conservou-se fechada.
Um protesto eloquente, posto que tacito, contra a invasão de um soberano estrangeiro.
A melhor sociedade do Mexico brilhava pela sua ausencia.
O melancolico palacio de Chapultepec, que fôra destinado para residencia dos imperadores, contrastava dolorosamente não já com a opulencia, senão tambem com o conforto do castello de Miramar.
E quando os dois esposos coroados quizeram, á volta do theatro, confidenciar as suas doloridas impressões d'aquella primeira noite do imperio, acharam-se isolados n'um velho casarão desguarnecido, que tinha sido residencia dos monarchas astecas e dos vice-reis[[7]].
Tal era o palacio de Chapultepec, que devia hospedar os fugitivos do poetico castello de Miramar!